Invasão do Capitólio: casamento entre a cólera e o algoritmo

A invasão do Capitólio em Washington não é só uma ameaça à democracia norte-americana. Não é apenas uma ação desproporcional de um bando de idiotas radicais. É uma demonstração concreta de como os marqueteiros da cólera e a rede de apoiadores deles podem inflamar emoções negativas e estimular ações golpistas. Não se trata de uma diferença política entre republicanos versus democratas apenas.

Por trás das agressões radicais esconde-se uma centena de audazes manipuladores das emoções negativas, os spin doctors, trolls ou outras denominações que identificam a máquina do mal. O que assusta é constatar que esses manipuladores do ódio são capazes de estimular audácias políticas cada vez mais ousadas. Se chegaram a uma ação tão estapafúrdia nos Estados Unidos, democracia relativamente estável, não se duvida que realizarão ações ainda mais radicais em democracias mais frágeis.

O noticiário jornalístico dos próximos dias revelará, com certeza, de que maneira os invasores do Capitólio se articularam previamente via internet. Irá mostrar como o ódio foi exacerbado até levar às descabidas ações. O tecno-populismo pós-ideológico, doutrina que está por trás dessas ações, é uma ideologia que se especializa em inflamar paixões através das redes sociais. É o casamento entre a cólera e o algoritmo, como disse um analista político.

O jogo não é mais jogar a democracia, enfrentar eleições democráticas, respeitar os poderes constituídos ou a liberdade de imprensa. Dissemina-se a ideia de um complô ou a teoria de uma conspiração que é preciso derrotar. Como foi o caso na infeliz invasão do Capitólio: por trás está a teoria da conspiração insuflada por Donald Trump. No tecno-populismo não há tolerância, as diferenças ideológicas não se restringem mais às diferenças políticas, ao jogo direita versus esquerda mas, ao “nós versus eles”. “Eles” são todos que não se coadunam com o “nós”. O jogo é eliminar o adversário, excluir o diferente, aniquilar todos que não se afinam com as posições radicais.

A propaganda do tecno-populista não argumenta, não racionaliza, não tolera: só fomenta a opinião, uma só opinião. Não há verdade que possa contestar a ‘minha opinião’, 'minha convicção é absoluta’. O que é verdadeiro é aquilo que corresponde às ‘minhas convicções’. A partir daí, ‘eu posso qualquer coisa’: posso invadir, demolir ou violentar. A tropa que invadiu o Capitólio estava convicta que a eleição norte-americana foi uma fraude, por isso estavam todos decididos a impor a verdade deles.

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A propaganda tecno-populista estimula entre seus adeptos a sensação de certeza, a plenitude do domínio da verdade, uma verdade que não admite contrários: os juízes são mentirosos, os políticos são todos corruptos, a imprensa é toda ‘vendida’. E assim por diante, ‘nada presta: só ‘nós’. Como disse um blogueiro da direita norte-americana (que possivelmente agiu também por trás da invasão do Capitólio), no estímulo às emoções “o absurdo é uma ferramenta mais eficaz que qualquer verdade”.

Nenhuma propaganda do mal é capaz de qualquer coisa em qualquer lugar, obviamente. Ela se desenvolve com eficácia onde há um descontentamento ou ressentimento popular contra o sistema, o que não é raro existir em qualquer parte. Existia na Alemanha pré-nazista, na Hungria pré Victor Urban, no Movimento Cinco Estrelas na Itália, e assim por diante.

Necessita, além disso, de líderes populistas que brotam nesses momentos de descontentamento popular generalizado, tipo Donald Trump e Jair Bolsonaro: meio aloprados, meio palhaços, meio atrevidos. Líderes que personificam o ódio e as emoções negativas. Disso, hoje, também há fartura no mundo.

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Não se iludam os ingênuos. Por trás da invasão do Capitólio há uma maquiavélica máquina marqueteira técno-populista muito bem articulada com a rede de apoiadores. Com ramificações hoje no mundo inteiro e o financiamento de entidades cristãs conservadoras e organizações ligadas à extrema direita, como o movimento QAnon, que já se espalhou pela América Latina. A imprensa séria tem revelado o nome e as ações de algumas dessas organizações ligadas a Internacional Nacionalista ou a Internacional Liberal.

Aqui no Brasil, a máquina tecno-populista existe desde antes da campanha de Jair Bolsonaro e influencia há muito o jogo político. Jogo que será pesado. Aqui, como lá, haverá contestação tecno-populista na forma que convier aos líderes populistas e aos spin doctors da cólera. Aliás, isso já começou. As gangues bolsonaristas já deram demonstrações públicas do atrevimento que são capazes.

Jair Bolsonaro e seus filhotes não se cansam de desacreditar o sistema eleitoral eletrônico brasileiro, nem de culpar a mídia por todos os males. No dia seguinte da invasão do Capitólio, Bolsonaro ameaçou: “Aqui no Brasil, se tivermos o voto eletrônico em 2022, vai ser a mesma coisa”. São as preliminares das ações que virão adiante. O parlamento e os tribunais superiores brasileiros que se preparem.

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