Ensaio sobre a cegueira política

Observar o que está se passando com a política e os políticos no mundo e no Brasil me leva a fazer uma analogia com a “cegueira branca”, descrita por José Saramago, em seu livro "Ensaio sobre a cegueira". Nele, o autor narra uma inusual epidemia de cegueira que se espalha e vai contaminando um a um, trazendo o caos e abalando as estruturas da sociedade.

A metáfora me parece perfeita, a cegueira branca a que se refere Saramago não era real. As pessoas eram “contaminadas” e passavam a ver o mundo através de um “mar de leite” e a agir com o pior dos seus instintos básicos. Penso que na política estamos assim, só que é uma “cegueira política”.

Ela age da mesma forma que a branca, em que os primeiros cegos contaminados passaram a contaminar os demais nas redes sociais. Seu uso intensivo tem ofuscado uma enormidade de pessoas, trazendo, como a cegueira branca, o pior do ser humano: o egoísmo, a negação do outro, a alienação do indivíduo em relação a ele mesmo, o preconceito e a violência bruta e dura. Como se fosse o mundo da “laranja mecânica”, em que jovens se reúnem em gangues para cometer atos de ultra violência, desenhando assim o seu futuro (sociedade) distópico.

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Newton dizia que para toda ação existe uma reação igual e contrária, e estão surgindo movimentos “anticegueira” para que as pessoas percebam que o que fazem no mundo digital afeta as pessoas no mundo real. O Instituto Política Viva surgiu para abrir uma janela de coerência e verdade nesse mundo. Suas atividades no universo virtual tornam a si e a seus integrantes vigilantes desse espaço. São grupos formados por gente inteligente, criteriosa e, principalmente, com valores e sentimentos. São vigilantes pois sua missão, como afirma sua fundadora, Rosangela Lyra, é a de combater as fake news, ou seja, ser uma trincheira contra a cegueira política.

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Frequentar o mundo das redes sociais e ver as barbaridades que ali acontecem e não ser contaminado precisa de uma forte, inteligente e emocional mediação, como a que Dante teve com Virgílio e Beatriz Portinari para visitar o inferno.

O comportamento das pessoas no mundo digital já pode ser comparado com os círculos infernais. Ali estão representados: a incontinência, o ódio e a violência, a adulação e a lisonja, o fingimento e a mentira, os maus conselhos e as intrigas e a traição. Enfim, precisaríamos de uma nova “Divina Comédia” para esgotar o que vem acontecendo nesse espaço digital.

O mais triste disso tudo é que as redes sociais, tal como estão sendo usadas hoje, têm provocado graves consequências no mundo real. Vemos surgindo, de maneira contraintuitiva e contra qualquer lógica, todo tipo de violência, negação, fantasia e mentiras. Desde defensores da terra plana até os antivacinas, passando pelos autoritários e os bullies. Isso contamina tudo e todos e nos enceguece e com isso abre espaço para o avanço da pandemia, de incêndios na Amazônia e no Pantanal. Os preconceitos se alastram com a intensidade de maremotos, biografias são enlameadas e assassinatos digitais perpetrados. Países se afastam e se fecham, o mundo se torna um lugar muito triste e perigoso.

Há quase três décadas, Carlos Matus, cientista e pensador político chileno, já tinha dado nome e explicação a esse mal: cegueira situacional. Para ele, a cegueira situacional é aquela parte ou perspectiva da realidade que não vemos porque está:

1. Fora de nosso foco de atenção;
2. Fora do nosso campo de compreensão (quando não temos vocabulário para explicar);
3. Fora de nossa referência (dificuldade de situar-se na perspectiva dos outros);
4. Fora de nossa possibilidade de percepção segundo nossos preconceitos;
5. Fora de nosso foco do tempo (taxa psicológica de desconto do tempo);
6. É uma situação que não queremos ver por nos causar dor ou desgosto
(supressão da informação dolorosa);
7. Não podemos distingui-la em meio à sobrecarga de informação
(desinformação por sobrecarga de informação);
8. Porque a razão humana opera com distorções, somos afetados pelo impressionismo circunstancial
(juízo formado à primeira vista);
9. A realidade emite sinais fortes para as urgências e fracos para as importâncias;
10. O ser humano tem tendência à resposta mecânica, costuma reagir sem pensar e sobrepesar.
E também ensinava como enfrentar a cegueira, com ciência e consciência.

O instituto Política Viva, a meu ver, além de tudo o que tem feito, deve encaminhar sua estruturação como um centro de pensamento estratégico, onde possa envolver todos que entendam, estudem e atuem nesse grave problema, não importando crença ou ideologia. Mas que tenham o objetivo de transformar o milagre da internet e das redes sociais em algo que ela deveria ter sido e ainda não é: um espaço de crescimento, irmandade, equidade e defesa da terra e da sociedade humana contra os seus principais problemas e desafios.

Finalizo este artigo com uma declaração de Saramago sobre seu livro: “Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”.

O trabalho que temos pela frente não é suave nem fácil, poderíamos nos apropriar das aflições de Saramago. No entanto, vejo no dia a dia o esforço criativo, as grandes lutas, a desesperança e as pequenas e grandes alegrias no atuar do Política Viva, que já tem sete anos. Creio que, como o Apóstolo Paulo, estamos combatendo o bom combate.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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