Armadilha da radicalização ideológica

A “armadilha da renda média” é um conceito desenvolvido em 2007 por dois economistas do Banco Mundial (Homi Kharas e Indermit Gill), segundo o qual seria mais fácil um país pobre tornar-se um país de renda média (medida pelo PIB per capita), do que um país de renda média se tornar um país rico.


O primeiro salto seria normalmente alcançado através de políticas públicas de combate à extrema pobreza e de incentivos à substituição de empregos no setor agrícola por vagas de trabalho em setores econômicos de maior produtividade.

No entanto, muitos países acabariam condenados a permanecer no patamar da renda média por décadas a fio, pois o salto para o patamar da riqueza dependeria de uma estratégia vinculada a ganhos de produtividade, inovação tecnológica e educação de qualidade.

O Brasil é frequentemente apontado pelos economistas como exemplo de um país capturado pela armadilha da renda média. Teríamos sido bem sucedidos, na segunda metade do século passado, em deixar de ser um país pobre. Mas agora estaríamos empacados no patamar da renda média, e incapazes (por diferentes motivos) de darmos o segundo salto.

Guardadas as devidas proporções, gostaria de propor que, nos últimos anos, o Brasil também tenha sido capturado por uma segunda armadilha, porém de natureza política. Vamos chamá-la de a “armadilha da radicalização ideológica”.

Por enquanto, felizmente, este radicalismo é mais visível nas narrativas e interpretações do senso comum sobre o cenário político do país do que na realidade política propriamente dita.

Como sabemos, os incentivos produzidos pelas regras do sistema político brasileiro atuam na direção de produzir moderação e consenso. Combinados, a divisão de poderes, o federalismo e o multipartidarismo favorecem a formação de grandes coalizões políticas. Nas palavras do cientista político italiano Giovani Sartori, as tendências centrípetas predominariam sobre as centrífugas.

Se fizermos, porém, a experiência de mergulhar por uma semana no modo pelo qual as redes sociais e a cobertura jornalística tratam a política brasileira, sairemos com uma impressão totalmente distorcida.

É como se o Brasil vivesse uma guerra permanente entre os extremismos de direita e de esquerda, cada um reivindicando para si o monopólio das melhores virtudes, e acusando o outro lado de ter pacto com o demônio.

Nessa narrativa, os políticos e os partidos de centro são apresentados como corruptos e fisiológicos, desprovidos de interesse público, e adversários da democracia e do bem comum da população. Nas interpretações mais tresloucadas, acabam ainda sendo descritos como se extremistas também fossem.

É como se estivéssemos presos na armadilha de reviver eternamente o segundo turno das eleições presidenciais de 2018, no qual a radicalização ideológica ocupou o centro do palco. É como se ambos os extremos do espectro político tivessem interesse em recriar o mesmo clima para a eleição de 2022.

Enquanto isso, na política real, nem governo e nem oposição têm maioria no Congresso. As alianças, compromissos e coalizões continuam sendo montadas caso a caso, projeto por projeto, votação por votação. Nessa mesma toada, o Brasil que saiu das urnas em 2020 continua sendo um país plural e democrático, com forte predomínio do centro político sobre os extremismos.

Mas como é difícil despertar os radicais de seu sono dogmático! A armadilha da radicalização ideológica não é um sonho. Virou um pesadelo. Pior para eles.

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