A alegria

Oxalá estava na porta de um Espaço de Religião de Matriz Africana, quando, repentinamente, avistou Emanuel ajudando a um viciado em crack que permanecia deitado em uma vala imunda. O jovem socorrido não conseguia identificar a piedosa mão que o tirava do lugar insalubre, mas, ainda assim, parecia entender que uma luz misteriosa trouxera a ele uma esperança já abandonada. Não sabendo se milagre ou sugestão, o certo é que o beneficiário da ação de Emanuel, animado e alegre, deu um salto e saiu do esgoto assobiando.

– Emanuel! Emanuel – chamou Oxalá – Venha para cá, enquanto esperamos Jaci!

– Claro, Oxalá! – assentiu Emanuel, ingressando no terreiro em companhia de seu amigo  – Eu já cumpri a minha missão com aquela jovem alma. Caso Jaci estivesse aqui, certamente iria dizer que eu não perco a minha mania de ser pajé. E o que está agoniando você, estou achando que estás muito agitado.

–  E não é para estar?  – concordou Oxalá – Ontem no terreiro era uma tristeza só. Muitas vidas humanas perdidas para a covid. Pessoas deprimidas. Pedidos de ajuda. Ódio institucionalizado. Os Orixás, todas as nossas entidades, estão à beira da exaustão com tanto sofrimento.

– Está também assim no rebanho do meu Pai. O desespero, a depressão e o desalento têm ganhado espaço  – lamentou Emanuel – E também com o povo de Jaci, até porque sobre ele permanece a violência estrutural e também a imunidade ao vírus é bem menor. Você lembra que os exploradores das terras dos povos indígenas entregavam roupas contaminadas com o vírus da gripe para que morressem doentes?

– E como esquecer? Se foram os mesmos que escravizaram e  mataram o meu povo nos porões dos navios ditos negreiros, nas chibatas dos feitores e nas balas dos capitães do mato – suspirou Oxalá. – E que ainda seguem nos tratando como se fôssemos coisas.

– Ô de casa! – escutou-se a voz de Jaci, que ingressara no ambiente em que estava os seus amigos, espalhando a sua luz lunar em todos os espaços. – Você sabia, Oxalá, que gosto muito dos sons dos atabaques, dos abês e dos agogôs que escuto dos terreiros? Eles me lembram dos tambores, dos bastões e dos chocalhos usados nos cantos que louvam a minha família.

– Bem lembrado Jaci – concordou Emanuel. – A música é um alegre presente em nossas vidas. Eu sempre me emocionei com o som dos alaúdes, dos tamborins, dos címbalos, das cítaras e dos pífaros. E quando escuto uma trombeta parece que estou escutando a voz de meu Pai cantando: “Cantai-lhe um cântico novo; tocai bem e com júbilo”.

– Vocês sabem de quem esse seu júbilo me fez lembrar, Emanuel? – perguntou Oxalá, para logo responder e evitar que o seu interlocutor acertasse a resposta, como se fosse uma espécie divina de Sherlock Homes.  – Lembrei-me de Shri Ganesha, que sempre removeu os obstáculos da vida através das artes, da ciência, da sabedoria e da vida.

 – Verdade, Oxalá! – sorriu Emanuel, fingindo não perceber a traquinagem de seu amigo. – A nossa pequenina divindade, com a sua bela cabeça de elefante, é  realmente encantadora. Não tem como não gostar de Ganesha e de sua capacidade de resolver todos os problemas da humanidade.

 –  Eu gosto muito dos  rituais e das cerimônias do Hinduísmo – emendou Oxalá. – E eles costumam iniciar com os mantras, as danças e as músicas dedicadas ao nosso Shri. É muita alegria espalhada no mundo.

–  Acho que vou apresentar Anhum à Ganesha  – brincou Jaci. – Ele sempre tocou o Sacro Taré no início das nossas solenidades. Ele até diz que o seu som é único e nunca escutado no mundo. Acho que Anhum tocando o mantra Om Gaiza Ganapataye Namah, resolveria todos problemas e dores do mundo, não é?

–  E se Ayon entrar no circuito musical, então estaremos resolvidos – sorriu Oxalá. – Você não acha Emanuel que a música tem esse poder celestial?

– Claro que sim – respondeu Emanuel, cantando o Salmos 150:1-6. – “Louvem-no ao som de trombeta, louvem-no com a lira e a harpa, louvem-no com tamborins e danças, louvem-no com instrumentos de corda e com flautas, louvem-no com címbalos sonoros, louvem-nos com címbalos ressonantes. Tudo que tem vida louve o Senhor!”.

–  Aleluia! – concluiu, sorridente, Jaci. – Vocês sabem que toda essa conversa me inspirou demais? Outro dia fiquei encantada quando Akuanduba tocou em sua flauta uma poesia de Picê e, juro, que as pessoas que estavam doentes esqueceram da dor e passaram a cantar em contagiante alegria.

– A arte tem mesmo o poder de cura – ampliou Oxalá. – Eu vou pedir que os nossos rituais esbanjem música e espalhem alegria. Do início ao fim só o som dedicado ao coração que precisa ser confortado diante de tanta dor.

– “Batam palmas, vocês, todos os povos: aclamem a Deus com cantos de alegria” – concordou, bíblico, Emanuel. – “Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo”.

– Então Ganesha desatou mais um nó complexo. É tempo de espalhar alegria – disse Jaci, feliz por terem aceitado a sua proposta. – Mesmo em nossas ocas, agora convertidas em nossos templos e terreiros, podemos espalhar alegria e amor.

– E agora que os seres humanos se julgam deuses da ciência – atalhou Oxalá. – Podem espalhar essa alegria contagiante e curativa através do que batizaram com o nome de “rede social”.

– Gravar uma mensagem alegre, enviar uma música carinhosa, reunir a turma virtualmente, rezar uma oração, mostrar que se preocupa, pedir a desculpa que já está acumulada, declarar o amor que a ausência não permitiu assumir – emendou Emanuel. – São algumas formas de amar as pessoas, como sempre ensinamos em nossas mensagens.

– Amar e curar. Amar e esperançar. Amar com alegria – sintetizou Oxalá. – Não há desculpa para não amar.

Mamo oimẽ nde rory. Mamo oimẽ nde rory.   
Tekohápyma oimẽ. Mamo oimẽ nde rory – começou Jaci a cantar, afinadíssima,  a alegria de seu povo Kaoiwá.

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