Universidade, a última trincheira contra a estupidez da era Bolsonaro

Nesta época dedicada aos direitos humanos e à Constituição, temos três datas importantes e relacionadas. Em 10 de dezembro, celebrou-se os 70 anos do documento público mais traduzido do mundo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, com seus 30 perenes artigos transcritos em 514 diferentes idiomas do planeta. Em 13 de dezembro, lembramos os 50 anos do maior golpe contra os direitos humanos no Brasil: a edição do AI-5, o ato institucional mais implacável da ditadura de 21 anos que, a partir do golpe de 1º de abril de 1964, agrediu duramente a milhares de brasileiros – presos, torturados, mortos, desaparecidos, exilados ou cassados pelo regime dos generais.

Dentro de dez dias, na primeira terça-feira de 2019, dia inicial do novo ano, teremos os militares de volta ao poder, 34 anos após a queda da ditadura em 1985.

Em 1964, os generais tomaram o poder pela força das armas e dos tanques. Agora, em 2019, os generais voltam ao poder pela sacralidade do voto popular. Três décadas passadas do fim da ditadura, temos o retorno dos militares e do militarismo, com a proliferação de generais, coronéis e outras patentes na campanha eleitoral, resgatados com votações consagradoras nas assembleias, na Câmara dos Deputados, no Senado Federal, ressuscitados pelo voto com poder e protagonismo nos principais gabinetes dos palácios, dos ministérios e do poder em geral.

Os militares retomam o comando do País porque nós, o povo, elegemos o capitão Jair Bolsonaro e, com ele, seus camaradas. Este é o paradoxo, esta é a tragédia da democracia brasileira. Após 21 anos de regime militar, o militarismo emergente da eleição de 2018 é o avesso de um país que ainda tentava se civilizar, na expressão mais ampla da palavra.

A civilização do processo político é a radicalização do poder civil. A generalização do poder, pela exagerada presença e ingerência dos generais, é a degradação da política. Nenhuma grande democracia no mundo dá tantos poderes a tantos generais.

Nem os cinco generais-presidentes da ditadura de 1964 deram espaço tão desmedido aos militares como o capitão-presidente da democracia de 2018. O primeiro deles, Castello Branco, tinha só 5 oficiais-generais no ministério. O segundo, Costa e Silva, o terceiro, Garrastazú Médici, e o quarto, Ernesto Geisel, tiveram, cada um, 7 militares em suas equipes de governo. O último da ditadura, João Figueiredo, abrigou 6 militares.

O governo do capitão Jair Bolsonaro terá 9 militares em postos chaves do ministério: um general no Gabinete de Segurança Institucional (Augusto Heleno), outro na Defesa (Fernando Azevedo e Silva) e mais um na Secretaria de Governo (Carlos Alberto dos Santos Cruz). Terá também um almirante no Ministério de Minas e Energia (Bento Costa Lima), outro general no da Comunicação (Floriano Peixoto Vieira Neto), e outro mais na Secretaria de Assuntos Estratégicos (Maynard Marques de Santa Rosa), além de um tenente-coronel na Ciência e Tecnologia (Marcos Pontes), um capitão na Infraestrutura (Tarcísio Gomes de Freitas) e um capitão na Transparência, Fiscalização e CGU (Wagner Rosário).

A overdose de militarismo revive a Guerra Fria e sua paranoia anticomunista. Os fantasmas ressurgem quando se constata que o capitão exalta e elogia o tempo infeliz dos generais. “Eu sou a favor da ditadura, de um regime de exceção”, confessou Bolsonaro na Câmara dos Deputados, em 1993, quando iniciava o terceiro de seus sete baldios mandatos de deputado, sempre na massa obscura do baixo clero.

Os números crus da ditadura louvada com desfaçatez por Bolsonaro mostram a gravidade do que pensa e diz o futuro presidente sobre o regime de exceção. Alguns dados que deveriam vexar o insensível capitão:

 

- 500 mil cidadãos investigados pelos órgãos de segurança;

- 200 mil detidos por suspeita de subversão; 50 mil presos só entre abril e agosto de 1964;

- 10 mil torturados;

- 10 mil exilados;

- 4.862 mandatos cassados, de presidentes a vereadores;

- 1.312 militares reformadas;

- 1.148 funcionários públicos exonerados;

- 1.202 sindicatos sob intervenção;

- 49 juízes expurgados; três ministros do Supremo afastados;

- o Congresso Nacional fechado 3 vezes;

- censura prévia à imprensa, rádio, TV e às artes;

- 434 mortos pela repressão, 144 deles desaparecidos até hoje.

 

A ditadura aclamada por Bolsonaro atacou com violência também o que mais assusta os tiranos: a Universidade, o santuário do conhecimento, o baluarte do livre-pensamento, a sede da consciência crítica.

Cerca de 300 professores foram punidos e afastados apenas entre 1964 e 1971, conforme apuração do respeitado historiador mineiro Rodrigo Patto Sá Motta. Os expurgos também atingiram os reitores. Com base no AI-5, a ditadura aposentou os reitores da USP e da UFMG e os diretores de outras cinco faculdades — no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Os militares perceberam que a truculência do AI-5 não bastava para cessar a resistência ao golpe nas universidades. Dois meses depois, fevereiro de 1969, editaram o Decreto-Lei 477, para atacar diretamente as organizações estudantis. Mais de 1 mil estudantes foram expurgados, e proibidos por três anos de se matricular em outra faculdade.

Só em 1969 o surto punitivo afastou 140 professores, entre eles paradigmas como os físicos Mário Schemberg e José Leite Lopes, o sociólogo Florestan Fernandes, o parasitologista Luiz Hildebrando Pereira, a historiadora Maria Yedda Linhares, entre outros. A ditadura afiou suas garras em 1970 e enxertou nas principais universidades do país 40 Assessorias de Segurança e Informação (as execráveis ASI), braço longo e dedo duro do onipresente SNI, o Serviço Nacional de Informações.

Alguns reitores anteciparam o serviço sujo antes de Brasília, criando seu próprio sistema de informação ainda em 1968. A Universidade de São Paulo, por exemplo, que não integrava a rede federal e não estava obrigada a isso, criou ela mesma a sua ASI. A USP levou 40 anos para corrigir um grave erro de conduta que manchava sua biografia.

Em abril de 2014, o Instituto de Química da universidade inaugurou uma estátua e revogou a demissão por abandono de cargo a que tinha submetido a professora Ana Rosa Kucinski. Durante quatro décadas, apesar dos testemunhos e evidências, a USP ignorou que Kucinski e seu marido, Wilson Silva, físico lá formado, tinham sido sequestrados pelos militares por ligações com a guerrilha da ALN. O casal, até hoje, está entre os desaparecidos pela repressão.

O historiador Sá Motta encontrou um documento constrangedor de uma conversa do reitor da UFRJ com o cônsul americano, logo após o golpe de 64. Indagado sobre estudantes presos num arrastão do PCB, o reitor se esquivou, dizendo: “Tenho um acordo com o DOPS para que os agentes evitem prender estudantes dentro do campus. Nada tenho contra prisões feitas a partir do portão de saída...”, disse o magnífico, lavando as mãos.

Esse conluio entre regime militar e universidade foi mais intenso e ignóbil aqui mesmo, na capital brasileira, quando os generais aclamados pelo capitão-presidente profanaram a sagrada autonomia da Universidade de Brasília, a academia que estava no coração da nova ordem sem coração, o regime que combatia a força das ideias pela ideia da força armada, desalmada, desatinada. Um regime que expurgou da UnB seus dois primeiros reitores, nomes primeiros da educação e do compromisso ético com a escola e com a liberdade do pensamento:

Darcy Ribeiro, criador e fundador da UnB, e Anísio Teixeira, lançador do movimento da 'Escola Nova', uma escola que enfatizava o desenvolvimento do intelecto e a capacidade de julgamento — tudo aquilo que sofre censura do ordinário projeto da ‘escola sem partido’ sonhado hoje pelo capitão Bolsonaro e sua turma. A nova ordem que trazia a desordem institucional afastou ambos — Darcy e Anísio — da UnB, de Brasília, das escolas, dos jovens, do país.

Juntos, Darcy e Anísio, as duas referências maiores da UnB, permaneceram apenas 25 meses à frente da universidade. O mais longevo reitor em Brasília resistiu no cargo 106 meses, quase nove anos. Resistiu porque era um militar, um interventor, um duro preposto da nova ordem que desprezava a velha ordem democrática, um capitão como Bolsonaro: o novo reitor, José Carlos Azevedo, era um capitão-de-mar-e-guerra da Marinha, o que não deixa de ser simbólico da visão estreita que a ditadura tinha da Universidade.

Azevedo desembarcou na UnB em maio de 1976, uma semana após o ‘Dia Nacional de Lutas contra Prisões Arbitrárias’. O capitão começou punindo os estudantes, os estudantes reagiram com uma greve de quatro meses e Azevedo chamou a PM. Era a quarta invasão armada do campus, desde o golpe de 64. Mais de mil estudantes foram expulsos, bem como professores de esquerda. Azevedo era homem de confiança do CENIMAR, o serviço secreto da Marinha que sequestrou Honestino Guimarães, um estudante de Geologia de 18 anos.

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Presidente da UNE na clandestinidade, ele foi preso pela Marinha no Rio, torturado pelo Exército em Brasília e levado pela Aeronáutica ao Araguaia, onde foi executado e enterrado na selva pelas tropas que combatiam a guerrilha. Honestino, como Kucinski, é um dos desaparecidos da ditadura. O capitão-reitor ainda convocaria mais duas vezes a PM para sustentar sua gestão linha-dura, que só acabaria em março de 1985, três dias antes que o último general da ditadura, seu amigo João Figueiredo, deixasse o Planalto pela porta dos fundos para não passar a faixa ao sucessor civil.

Os grandes homens, como dizia a Oração Fúnebre do ateniense Péricles, estão guardados em nossos corações e mentes, mas também esculpidos na pedra dos monumentos, dos museus, das escolas. Aqui na UnB temos a Fundação Darcy Ribeiro, o Pavilhão Anísio Teixeira, a revista Darcy e o Memorial Darcy Ribeiro, que ele mesmo - fiel ao seu estilo sedutor - batizou como 'Beijódromo'. O DCE da UnB tem o nome de Honestino, que ainda batiza o Museu Nacional, na Esplanada dos Ministérios. A ponte que cruza o lago Paranoá teve, por dois anos, o nome de Honestino, mas uma decisão da Justiça, em 2017, devolveu ao lugar o batismo original Ponte Costa e Silva, o general que firmou o AI-5 que liberou a repressão mais sangrenta que fez desaparecer Honestino e tantos outros. O capitão Azevedo morreu em fevereiro de 2010 — e não tem um só espaço com seu nome na UnB que ele ultrajou e oprimiu. Azevedo foi descartado no lixão do esquecimento.

Lamento o revisionismo histórico do capitão Bolsonaro e daqueles que, de forma apressada, carimbam como terroristas todos os que chegaram ao limite da própria vida para confrontar o arbítrio. É uma leviandade que fere os fatos, a memória e principalmente a universidade, a nossa universidade. Foi na parcela mais consciente, mais insubmissa, mais generosa da juventude que se buscou a força do bem para o bom combate, o justo combate ao mal da força e da prepotência.

Esse bando de irmãos estava aqui, na universidade. Para eles, Shakespeare escreveu, em Henrique V :

“... E nenhuma festa de São Crispim acontecerá/ Desde este dia até o fim do mundo/ Sem que nela estejamos lembrados;/ Nós poucos, nós poucos e felizes, nós bando de irmãos;/ Pois quem hoje derramar seu sangue comigo,/ Será meu irmão; seja ele o mais vil que for/ Este dia enobrecerá sua condição.”

“We few, we happy few, we band of brothers...”

Foi da universidade, desse bando de irmãos, que se elevou o protesto mais veemente, a rebeldia mais indignada, o gesto mais altivo contra o mal, a prepotência, a força. Repudiando o que fizeram aqui, ao atropelar a sagrada autonomia da Universidade, denunciando o que fizeram ali, ao afrontar o sagrado império da lei, ao violar a Constituição, o Parlamento, os tribunais, as liberdades, ferindo os direitos humanos, machucando o corpo humano.

Muitos jovens deste país poderiam ter calado, ter sufocado, ter consentido com o que se fazia e desfazia. Mas, reagiram, buscaram as ruas, as escolas, os parlamentos. Quando esses espaços foram cercados, ocupados e desfigurados pela força, foram obrigados à resistência e ao confronto extremo. No limite do insuportável, abandonaram famílias, carreiras, amigos, afetos e a luz do dia para um combate desproporcional, arrojado, irrestrito, utópico contra a violência que atingia a todos. Não fizeram aquilo porque eram mandados, comandados, teleguiados. Fizeram tudo aquilo porque queriam, porque sentiam, porque deviam, pelo justo imperativo da sobrevivência, pelo forte motivo da urgência, pelo simples dever de consciência. Arriscaram suas vidas, acabaram suas vidas lutando e combatendo por nossas vidas.

Que se diga ao capitão Bolsonaro: esses jovens foram resistentes, como a Resistência francesa que lutou contra o invasor e o opressor nazista. Foram inconfidentes, como os heróis da conjuração mineira que anteciparam o grito por liberdade. Foram combatentes, como os jovens do exército brancaleone de George Washington que desafiaram o Império britânico para estabelecer os fundamentos do regime democrático. Foram insurgentes como os negros que combatiam o apartheid na África do Sul.

Lutaram pela liberdade contra a opressão de exércitos, regimes e sistemas que só sobrevivem à custa da liberdade dos outros. Fizeram levantes sancionados pelo direito imemorial e universal à luta contra a tirania.

Que se explique ao capitão Bolsonaro: guerrilha não se confunde com terrorismo, definido sim pelo deliberado objetivo de infundir terror entre a população civil, sob o risco assumido de vítimas inocentes – como no caso do terror consumado do 11 de Setembro nas Torres Gêmeas de Nova York, como no caso do terror frustrado da bomba do DOI-CODI no Riocentro do Rio de Janeiro. É por isso que ninguém, nem mesmo um cínico, se atreve a escrever "terroristas de Sierra Maestra" ou "terroristas do Araguaia". Eram guerrilheiros, não terroristas.

Que se esclareça ao capitão Bolsonaro: terrorista era o Estado, que usou da força e abusou da violência para alcançar e machucar dissidentes presos, indefesos, algemados, pendurados, desprotegidos diante de um aparato impiedoso que agia à margem da lei, na clandestinidade, nos porões, torturando e matando sob o remorso de um codinome, encoberto na camuflagem de um capuz.

Que se lembre ao capitão Bolsonaro: terroristas eram os assassinos de Honestino Guimarães, Vladimir Herzog, David Capistrano da Costa, Manoel Raimundo Soares, Stuart Angel Jones, Manoel Fiel Filho, Paulo Wright, Zuzu Angel e tantos outros.

Ulysses Guimarães ensinou, na promulgação da Constituição de 1988: "A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram. Quando, após tantos anos de lutas e sacrifícios, promulgamos o estatuto do homem, da liberdade e da democracia, bradamos por imposição de sua honra: temos ódio à ditadura. Ódio e nojo".

Aos guerrilheiros que combateram a ditadura, minha emoção. Aos cínicos, como o capitão Bolsonaro, meu lamento.

Ao cinismo se soma, também, a visão obtusa que o capitão-presidente tem de áreas cruciais para a qualidade de vida dos brasileiros. Para o Ministério da Educação, o capitão teve um bom lampejo inicial: a indicação de um respeitado ex-reitor de Pernambuco, Mozart Neves Ramos, que presidiu esta ANDIFES em 2002. O nome não emplacou porque recebeu um absurdo, inexplicado veto da bancada evangélica, que tem influência bíblica sobre o novo governo.

Emparedado pela religião, o capitão-presidente não chegou ao exagero de convocar um general, mas trouxe alguém que os molda. O colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, brasileiro naturalizado há 20 anos, é professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), passagem obrigatória para majores e tenentes-coronéis que ambicionam ser generais, o topo da carreira. O homem da Educação de Bolsonaro é, como seu capitão comandante, um nostálgico da ditadura. Vélez escreveu no seu blog: “1964 é uma data para lembrar e comemorar... ela nos livrou do comunismo”.

Vélez criticou a Comissão Nacional da Verdade, que investigou as violações aos direitos humanos pela ditadura e responsabilizou os cinco generais-presidentes pelos 434 casos de mortes e desaparecimentos praticados por 377 agentes públicos do regime militar. Para o mal-educado Vélez, a CNV foi “mais uma encenação para a ‘omissão da verdade’... a iniciativa mais absurda que os petralhas tentaram impor”. Assombrado ainda pelos demônios da Guerra Fria do século passado, Vélez diz que “os regulamentos do MEC fizeram os brasileiros reféns de um sistema de ensino afinado com a tentativa de impor à sociedade uma doutrinação de índole cientificista e enquistado na ideologia marxista...” E por aí vai o emérito professor dos futuros generais!...

O novo chanceler, Ernesto Araújo, vem também do baixo clero do Itamaraty. Como seu chefe, idolatra Donald Trump, para ele, ”o único que pode salvar o Ocidente”. Missão frívola dada pelo capitão ao chanceler, segundo Araújo: “Libertar o Itamaraty do marxismo cultural”.

Tudo, no iminente governo do capitão, é coisa de comunista! Araújo diz ter uma cruzada sacrossanta: “Ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista, um sistema anti-humano e anticristão pilotado pelo marxismo cultural. A fé em Cristo significa lutar contra o globalismo... abrir-se para a presença de Deus na política e na história”. Traduzindo isso aí, como diz Bolsonaro: o Brasil acima do globalismo, Deus e Trump acima de todos...

O saudosista Vélez e o messiânico Araújo são duas invenções — que o capitão engoliu — de uma figura ainda mais bizarra, um brasileiro enquistado há uma década numa pequena cidade da Virgínia, nos Estados Unidos. Olavo de Carvalho é um exótico ex-astrólogo que se tornou, via internet, um guru do clã Bolsonaro e da direita radical brasileira.

Autoproclamado filósofo, embora sem título universitário, Olavo foi muçulmano e marxista na juventude e agora, na maturidade dos 70 anos, converteu-se em cristão fundamentalista e em conservador extremado. É recomendável tirar as crianças da sala, antes de ouvir suas arengas aberrantes no YouTube, onde ele troca as vírgulas por palavrões cabeludos. Na sua alucinada arrogância, o ex-professor de astrologia e alquimia investe contra alguns dos cérebros mais brilhantes da humanidade. Para Olavo, Charles Darwin é o pai do nazismo, Isaac Newton é burro, Galileu Galilei é charlatão e Albert Einstein é uma fraude.

Da cabeça amalucada de Olavo, que faz a cabeça do capitão-presidente, são excretadas algumas das frases mais grotescas do anedotário nacional. Alguns exemplos: “O general Geisel era comunista”, “cigarro não dá câncer”, “querem trocar a religião católica por uma religião biônica mundial”, “a Pepsi-Cola usa células de fetos abortados como adoçante”, “o nazismo e o FMI são de esquerda”, “a astrologia é a única ciência com discurso racional do começo ao fim”, “não há a menor prova do sistema heliocêntrico de Copérnico”.

Mais um pouco, e o atrevido Olavo ainda vai convencer o crédulo Bolsonaro de que a terra é, de fato, plana!... Olavo é autor de um best-seller que já vendeu 320 mil exemplares, intitulado O Mínimo que Você Precisa Saber para não Ser um Idiota. Pelo conteúdo desmiolado de seu desarranjado processo mental, Olavo certamente não leu o mínimo que deveria para não ser um idiota...

Certa vez, numa mesa do mítico bar Veloso, em Ipanema, o humorista Millôr Fernandes definiu para o compositor Tom Jobim: “O mundo tem muitos idiotas, Tom, mas felizmente estão todos nas outras mesas...”. O admirável mundo novo da internet, para nossa infelicidade, trouxe gente como Olavo de Carvalho para as mesas de todos nós! E, para azar do Brasil, inoculou Olavo na cabeça de Bolsonaro.

Como expressão da minguada importância que dedica ao Meio Ambiente e aos Direitos Humanos, o capitão deixou por último a definição das duas pastas. Para o Meio Ambiente, Bolsonaro chamou o advogado Ricardo Salles, fundador do Movimento Endireita Brasil, que no ano passado tentou vender 34 florestas e estações experimentais de madeira em São Paulo, apesar de ser o secretário de Meio Ambiente do Governo Alckmin.

Alinhado com o seu capitão — que desistiu de fazer no Brasil em 2019 a Conferência do Clima, a COP 25, e ameaça abandonar o Acordo de Paris endossado por 195 países —, Salles apareceu batendo continência para outra maluquice do futuro governo: “A discussão sobre aquecimento global é secundária. É uma discussão inócua, agora...”, trovejou o ministro. Ele apenas ecoa outra predatória ideia do astrólogo Olavo, que desclassifica toda a agenda ambiental do planeta como um reles, pueril “alarmismo climático”.

Só no ano passado, segundo a ONG alemã GermanWatch, 11.500 pessoas morreram por conta de ciclones, deslizamentos, inundações e furacões, entre outros desastres. Eles provocaram danos econômicos que chegam a 375 bilhões de dólares. O Brasil perde 1,4 milhão de hectares de vegetação natural por ano, mais que a metade da área de Alagoas. Só em abril, o desmatamento da Amazônia foi 84% maior do que no mesmo período do ano passado. A grande floresta perdeu 20% da vegetação nos últimos 50 anos.

O dióxido de carbono, apesar da ignorância acumulada de Bolsonaro e Olavo, é o gás da poluição que provoca o efeito-estufa, desequilibra a natureza e eleva a temperatura do planeta, derrete os polos e dizima espécies de mamíferos, aves, peixes e répteis. De 1970 para cá, essa população diminuiu em 60%.

Esse irresponsável ‘alarmismo’ levou um choque brutal de realidade na sexta-feira, 14, aqui mesmo no Brasil. Em Antonina, cidade do litoral refrescante do Paraná, um dos Estados mais frios do país, a sensação térmica na manhã de sexta-feira chegou a 57ºC!

[Atualização: na tarde de terça-feira, 18, no mesmo instante em que esta palestra era dada, Antonina bateu seu próprio recorde, com uma temperatura de 44,3ºC e umidade relativa de 75%, números que, combinados pela ferramenta Heat Index, elevou a sensação térmica na cidade a inacreditáveis 100ºC (!),o exato ponto de ebulição da água ao nível do mar]

Se isso não é consequência do aquecimento global, capitão Bolsonaro, só pode ser coisa da ‘ideologia globalista ou do sistema anticristão do marxismo cultural!... Ontem, segunda-feira, 17, na própria cidade onde mora o capitão, o Rio de Janeiro fervia com uma sensação térmica de 45ºC. Só pode ser perfídia de comunista! E o verão nem começou...

Finalmente, para fechar o espetáculo, Bolsonaro escolheu a ministra dos Direitos Humanos. A pastora Damares Alves logo viralizou na internet com um vídeo de 2016 onde ela aparece, quase possuída, diante dos fieis de sua igreja batista em Belo Horizonte, lembrando o dia em que, com 10 anos — prestes a cometer suicídio —, teria ficado cara a cara com Jesus num pé de goiabeira. Ela narrava o seu drama pessoal, de uma criança traumatizada aos 6 anos pelo abuso sexual que sofreu de um pastor evangélico. É uma catarse de forte conteúdo emocional, que comoveu muitos e assustou outros tantos.

É sempre tocante um depoimento transtornado pela memória de uma criança violentada, um ato bestial que todos condenamos. Mas, a purgação pública de Damares, que se expôs na igreja como pastora, sem imaginar que seria ministra dois anos depois, tem um grave problema. À mulher de César... Ou melhor, à mulher ministra de Bolsonaro não basta ser sensata. É preciso parecer sensata.

É bom lembrar que a expiação dramática de Damares, no limite de um surto nervoso, não é o depoimento de uma criança de 10 anos, mas a narrativa de uma mulher então na maturidade de seus 52 anos. O desempenho carregado de angústia e agonia da pastora, beirando o desequilíbrio emocional, não passa uma boa impressão sobre a sensatez que se espera de uma ministra mentalmente equilibrada que precisa tratar com bom senso dos temas complexos de sua pasta — Mulher, Família e Direitos Humanos.

A questão mais grave que envolve Damares não é o constrangedor relato sobre Jesus no pé de goiaba. Ela ainda defende valores conservadores e religiosos contra o abortamento num país onde 1 milhão de abortos induzidos, proibidos por lei, são praticados anualmente. O aborto inseguro e clandestino causou a morte de 203 mulheres em 2016, um óbito a cada dois dias, duas mil mortes nos últimos 10 anos, segundo o Ministério da Saúde. Damares promete continuar na luta para manter essa criminosa ilegalidade.

Um temor ainda maior é a visão religiosa extremada que a ministra tem sobre a relação criança e escola, ferindo frontalmente o princípio civilizado da separação entre Estado e Igreja, consagrado na Constituição que expressa a soberania do Estado laico. Na mesma igreja onde contou sobre Jesus e a goiabeira, Damares expressou uma perversão que o repórter Bernardo Mello Franco, de O Globo, revelou ao país: sua funda descrença na escola e sua fé radical na igreja.

Disse Damares: “Chegou a nossa hora. É o momento da igreja de Jesus ocupar a nação. É o momento de a igreja governar. As instituições piraram. Só uma não pirou: é a igreja de Jesus... A escola não é mais lugar seguro para nossos filhos. O único lugar em que seu filho está protegido é o templo, a igreja...”!

Dessa vez, não era um surto, nem um depoimento alucinado. Era apenas a firme convicção da pastora que virou ministra. E isso é muito mais grave do que o desvario na goiabeira... O capitão Bolsonaro deveria, num sermão particular com Damares, explicar a ela que este não é o momento da igreja governar. Nem agora, nem nunca, já que vivemos numa democracia, não num Estado teocrático. O Brasil não precisa ser ‘ocupado’ por nenhuma igreja. As instituições não piraram e ninguém precisa subir em pé de goiaba para descobrir o lugar certo para nossos filhos. A escola, que dispensa qualquer desatino místico, será sempre o lugar certo, seguro e sensato para as crianças brasileiras.

Essa é a inacreditável barafunda de pensamentos obtusos, definições esdrúxulas, bobagens explícitas, boçalidade galopante e rombuda burrice que parecem intumescer alguns cérebros do iminente Governo Bolsonaro.

São evidências assustadoras que resumem uma overdose acumulada de militarismo redivivo, uma visão retrógrada da realidade, uma clara intolerância intelectual, um medieval fundamentalismo religioso e uma absurda repulsa a marcos civilizatórios consagrados nos países mais avançados do mundo. O Brasil de Bolsonaro — de seus avatares autoritários e astrólogos influentes, de seus diplomatas e professores impregnados de ideologia que fingem combater, de seus fanáticos pirados pela fé e pela salvação divina —, o Brasil do capitão ameaça uma marcha batida pelos coturnos da insensatez, na contramão do progresso, do conhecimento e da história.

Os direitos humanos — que hoje celebramos aqui — estarão sempre ameaçados quando a estupidez interdita a inteligência. A Universidade é nossa última trincheira de resistência.

Reitoras e reitores, por favor, resistam à imbecilidade e à ignorância!

* Jornalista e autor de Operação Condor: o sequestro dos uruguaios (editora L&PM, 2008). Foi consultor da Comissão Nacional da Verdade. E-mail: cunha.luizclaudio@gmail.com

 

Do mesmo autor:

Os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e o governo Bolsonaro

O lamento do jornalista: o sequestro dos uruguaios e os tempos de Bolsonaro

 

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