Mulher, a auto-homenagem

A humanidade é como uma ave: possui duas asas; uma é o homem, outra é a mulher. A ave só poderá alçar voo se as duas asas forem impelidas por uma mesma força. (aforismo da Comunidade Bahá-í pronunciado no Plenário do Senado por Gleisi Hoffmann, PT-PR)

Não vou homenageá-la hoje, caríssima flor. Aliás, permita que me dirija a você no discurso direto, olhos nos olhos, que quero ver o que você faz (vênia, mestre, vênia). Aliás, quase sei: mulheres são auto-homenagem ambulante, e quem sou eu para ousar concorrer com vocês em loas e reverências.

Este é o quarto ano consecutivo em que tenho a honra – daquele tipo de honra que se traduz em paz e faz um bem danado – de publicar, “neste site de política!” (repito as aspas do ano passado), um texto-declaração dirigido a você. E aqui cabe um agradecimento ao chefe, ele mesmo um romântico nato, dos que fazem serenata para a amada. Encare-os (os textos) como quiser. Afinal, certos escritos só são concluídos de fato (será mesmo que eles acabam ao ponto final?) quando são lidos. Mas peço – aliás, suplico – que não os desdenhe, não os desmereça, sequer imagine-os como mera peça de retórica ou instrumento de galanteio. Não precisamos disso, não é mesmo?

Sem presunção, e sinceramente, acho que tenho certa predestinação: dia 8 de março é véspera de meu aniversário, mas não é só por isso que escrevo minhas declarações coletivas de amor. Eu as escrevo também porque tenho orgulho justamente de ser seu vizinho de calendário. Relembremos as loas, pois.

Em 2010: Sobre Iemanjá, Clarice e a “menina do pedido de criança” (as três marias)

Em 2009: Mais flores em vocês

Em 2008: Flores em vocês

Quero apenas falar, escrever um pouco sobre você, que mais parece espécime de outra dimensão. Outro plano do céu ou do mar. Homenagem até o comércio faz. Como já disse, você é auto-homenagem ambulante. E, na entressafra 2010-2011, caprichou e se superou – enquanto nós, pobres e mortais homens, seguimos em nossa truculenta marcha: Dilma é a primeira presidenta (com “a” ao final, viu, majestade?) do Brasil; Marta superou de longe o controverso Fenômeno; a Flip levará a Paraty a sublime “argentinice” de Pola Oloixarac; e, para ficar em apenas cinco exemplos, Diana Krall continua a encantar e La Whinehouse, a inebriar.

(pausa para o suspiro taquicárdico: Kylie “Perfeição” Minogue canta e me olha neste momento na TV, no vídeo em que liberta uma pomba branca depois de celebrar a montanha humana de amor, em “All the lovers”. A música não é lá uma obra prima, mas Kylie e sua voz sussurrada o são...)

 

Voltando ao terceiro parágrafo. Sobre Dilma, a isenção jornalística em um texto livre só me permite dizer que ela é discreta. E firme. E imponente como uma Margareth Tatcher tupiniquim, mas sem a gelidez frígida da mulher de ferro britânico (viu como estou a léguas da pieguice, ousando até insultar a nobreza?). Dilma chora se José Sarney comenta, a portas fechadas, se sua filha Roseana sangra (o diagnóstico foi sangramento intestinal). Dilma é nossa “dama de ferro”, mas sin perder la ternura jamás. E – graças a Deus, finalmente! – você é uma mulher a nos guiar.

O que dizer de Marta? Ah, Marta... Queria um domingo inteiro ao seu lado, para uma boa pelada em campo de várzea e um churrasco ao som de Cartola. Seus cinco títulos consecutivos como melhor jogadora de futebol do mundo não deveriam ter sido concedidos pela Fifa, mas pelo próprio planeta, em uníssono, a entoar o grito de (teu) gol. Quando você era magricela e jogava descalça com os alagoanos cabras-machos de Dois Riachos, mal podia imaginar que o nome daquela cidade do interior era analogia ao teu reinado: Pelé, o rei do futebol, esperou por décadas quem usasse a outra coroa e lhe fizesse companhia no trono, e eis que você nasceu. Louvada seja, rainha. Tuas lágrimas são poderosas como riachos, rios, mares.

E Pola Oloixarac? Não vou falar muito sobre a beldade das novas letras, 33 anos, até porque muito a respeito já vem sendo dito. E, humilde observador da cena (a literária, sim, mas muito mais a feminina), acompanhei algumas coisas dignas de registro sobre a escritora. Como a bela capa da edição de 1º de março da Ilustrada (Folha de S.Paulo). Pola é linda, tem um olhar meio embriagado, meio absorto ante o mundo que se lhe descortina, um “olhar anti-olhar”, digamos: Pola não quer ver, quer sorver... como se chama maresia de lago? Talvez Clarice Lispector tenha perguntado isso alguma vez, ou até já tenha a palavra. Pola não quer ver: quer beber com os olhos o “sereno” (era assim que minha avó chamava) do lago Nahuel Huapi (Bariloche), em cuja beira sua “casa de cinema” está erguida.

O repórter Fabio Victor (meu xará, mas sem acento) e o fotógrafo Eduardo Knapp (Folhapress) devem ter tido bons momentos beira-lago com a “nerd assumida” que “vive entre hackers e escreve artigos sobre tecnologia”. “Pola surfa. Canta num dueto que musica poemas de uma duquesa do século 17”, registra a reportagem. Precisa dizer mais alguma coisa? Ah, mais uma: Pola assina um blog sobre suas congêneres orquídeas. Blog de família, coisa decente. De família orchidaceae.

Pausa para outro suspiro - este, extrema e sinceramente respeitoso e não taquicárdico: Gleisi Hoffmann...

Uma presidenta, uma atleta, uma escritora. E duas cantoras. Sobre Diana Krall e sua figura hipnotizante, é melhor calar. Veja, você que é da mesma “espécie” que ela, o tanto que a cantora é uma deslumbrante homenagem à mulher.

Sobre Amy Whinehouse... Bem, sobre a autora de Back to black, um dos melhores discos dos últimos anos, é melhor ouvir. Apenas mais uma confidência: até hoje não sai da minha cabeça aquela foto na varanda de um hotel em Santa Tereza, na qual Amy leva seus seios para tomar um ventinho. Eu estava a alguns quilômetros dali, na Gávea, mas quase fui até lá para gritar bis em frente à hospedaria.

Lá em cima eu escrevi que não o faria – mas, traindo a própria palavra, não conseguiria finalizar este texto sem uma homenagem. Mais uma, aliás. A primeira está lá mesmo no primeiro parágrafo, cara semideusa, um link entre tantos links que mostra o devoto Chico a “cantar a alma feminina”. “Tenho lá em casa várias almas para me ensinar”, graceja o sortudo. Trata-se de trecho do documentário Chico Ou o país da delicadeza perdida, de Walter Salles e Nelson Motta, em que um pouco da influência da mulher na vida e obra de Chico Buarque é mostrada para televisão francesa, em 1990. Chico sempre me acompanha em minhas declarações de amor a você, ele “aparece” nos três textos anuais anteriores.

A outra... Ah, a outra tem bem menos mestria, e pode não estar à sua altura, mulher das nuvens. É apenas mais uma flor ofertada por este escrevedor idólatra e eternamente apaixonado: duas estrofes. Uns versinhos que, se não são um Chico, contêm a sacrossanta insignificância de um Fábio. Escrevi na madrugada de ontem. Espero que goste – o verbo é dirigido às quase 100 milhões de damas brasileiras, em especial, e a cada uma entre as bilhões de pétalas do planeta.

Leia também: Mulheres, com muito orgulho e coragem

p.s. 1: eu tenho um amigo tricolor (cara de bom gosto...), jornalista, carioca, e cuja árvore genealógica tem um fruto especialíssimo. De forma que, dessa vez, o tom de homenagem é proposital e inevitável – nuance este que Rudolfo Lago já registrou com excelência e conhecimento de causa em sua coluna. Salve Alzira Soriano, eleita prefeita de Lajes (Rio Grande do Norte) há 71 anos. À época, Dilma ainda nem estava nos planos da genética.

“Trata-se de uma mulher que ficou viúva aos 22 anos. Seu marido, Thomaz Soriano de Souza, morreu de gripe espanhola em 1919. Minha bisavó teve que se virar sozinha, com duas filhas nascidas e mais uma na barriga. Assim forjou-se aquela que, em 1929, se tornaria a primeira prefeita da América Latina, motivo na época de matéria até no New York Times”, escreveu Rudolfo (confira o texto publicado na coluna);

p.s. 2: não tenho dúvidas de que o universo conspira positivamente em meu benefício nesta época. Não interajo muito no Facebook, essa febre que não me deixa de cama ou por mais de meia hora na frente do computador. Pois não é que, ontem (7), resolvi dar uma voltinha virtual? Eis que descubro o que uma colega de faculdade – tinha de ser mulher... – postou: o excelente editorial declamado na TV por Rachel Sheherazade, a formosa jornalista paraibana. Com a firmeza de uma leoa e poder de persuasão de uma criança sorrindo, ela vai direto ao assunto, de forma mais incisiva e aprazível do que faz José Nêumanne Pinto. E, belíssima qual colombina cobiçada, desanca o ôba-ôba alienado da folia de Momo. Nota 10. Em todos os quesitos (principalmente harmonia...);

p.s. 3: as coincidências me acompanham quando eu escrevo esta homenagem anual. Em 2010, o acaso (é este o termo mais adequado) estava personificado nas atrizes Carolina Dieckman e Thais Araújo, mal a tela se iluminava. Hoje (escrevo a partir das 16h desta segunda carnavalesca, dia 7), quem me surpreendeu quando liguei a TV foi esta moça aqui no link ("A incorporação foi desativada mediante solicitação", informa o Youtube), Natalie Imbruglia. Para quem gosta, vale lembrar.

Ode II

Eu, diminuto espasmo de vida
Herdo de teu colo a coragem atrevida
O abraço irresponsável do ventre, tua fortuna nua
Uterina sensação de ter a lua

Você inteira em todos os meus lugares
Porque tudo de bom é o que se quer
Quero mesmo é o amor em verso e prosa
Em tuas linhas escrito e decifrado, amor transformado em mulher.

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