Hannah Arendt e a atualidade

Diana Leiko*

Lembro-me bem do caso de uma mulher na cidade de Guarujá, litoral de São Paulo, que ganhou espaço nos principais veículos de comunicação do Brasil, em 2014. Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi espancada por dezenas de moradores do bairro de “Morrinhos” onde, segundo anúncio na página “Guarujá Alerta”, havia uma pessoa naquela região que sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra. A foto dessa suposta pessoa, que mais tarde descobriram que nunca existiu, foi publicada na rede social e os agressores a confundiram com a vítima.

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A forma brutal como o crime ocorreu – a mãe de duas crianças foi arrastada e agredida durante cerca de duas horas – é apenas um dos tantos casos que passaram a ganhar os noticiários com muito mais frequência desde então. O motivo? Fake news.

É inquestionável que boatos não só incentivam discursos de ódio, como levam a atos de extrema crueldade. Por isso Hannah Arendt é tão assustadoramente atual. A pensadora alemã de origem judia, que vivenciou os horrores do Holocausto, dedicou boa parte de sua vida à reflexão da natureza do “mal”.

Em 1961, Hannah foi convidada pela revista The New Yorker a cobrir o julgamento de um dos criminosos de guerra do período nazista, Adolf Eichmann. O depoimento do acusado foi o ponto de partida para que a analista política desenvolvesse o conceito de “banalidade do mal”.

Eichmann, segundo ela, era um burocrata. Ele só cumpria ordens sem qualquer reflexão sobre os atos que cometia. Tanto não tinha consciência que se declarou inocente durante o julgamento: “Com o assassinato dos judeus não tive nada a ver. Nunca matei um judeu. Nunca matei um ser humano". Declaração que sustentou até a hora da sua execução: “[...] Foi exigido de mim obedecer às leis da guerra e da minha bandeira. Eu estou preparado”.

À época, a pensadora escreveu: “Ele parecia acreditar que, atrás da escrivaninha, suas mãos estariam limpas”. Transpondo para a realidade de hoje, seria: "Ele parecia acreditar que, atrás da tela, suas mãos estariam limpas”. Tantos casos de linchamento virtual fomentados por notícias falsas são provas de que pessoas comuns acabam vendo o mal como algo normal.  Ou melhor, o mal como algo banal que se pratica seja para sustentar uma ideologia ou por dever, assim como fez Adolf Eichmann, sem medir as consequências.

Esse mecanismo transforma em normal o que a história já mostrou: até onde a maldade pode levar a humanidade e os estragos que um Estado totalitário pode causar numa sociedade. Com o ressurgimento de velhas ideologias de ódio e discriminação das minorias - que a extrema-direita, sobretudo, ressuscita -  a mensagem de Hannah Arendt se torna ainda mais importante.

A monstruosidade não está na pessoa, está no sistema que banaliza o mal. Assim como faz a militância virtual bolsonarista, recentemente desmascarada em reportagem da revista Crusoé.

Não se trata apenas de um grupo de pessoas que se identifica com a linha de pensamento do presidente Jair Bolsonaro, mas de todo um sistema que permite que parte dessa militância esteja instalada em cargos públicos pelo Brasil, remunerada pelo erário. O próprio Estado sustenta uma máquina de fake news, que alimenta o discurso de ódio e insufla ainda mais os ânimos entre esquerdistas e bolsonaristas.

Homens banais como Eichmann podem influenciar o resultado de eleições, acabar com reputações, destruir vidas e, em casos mais extremos, matar inocentes, como fizeram os moradores do bairro Morrinhos, no Guarujá.

*Diana Leiko é jornalista

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