Estamos fazendo as escolhas certas?

 Gustavo Fruet *

Os efeitos da reforma Tributária, da reforma da Previdência e de outras medidas de contenção nas contas públicas do país podem levar muitos anos para aparecer.

Mas certamente, os cortes no orçamento da educação terão efeitos no curto prazo.

É um contrassenso falar em desenvolvimento social e econômico reduzindo recursos e afetando diretamente a pesquisa científica brasileira.

Exemplos recentes confirmam que países que investiram estrategicamente em educação conseguiram ganhos econômicos significativos, com reflexos diretos no padrão de vida da população.

O caso mais impressionante é o da Coréia do Sul. No início da década de 1960, os coreanos viviam período de pós-guerra, com índices de desenvolvimento econômico, taxa de analfabetismo e renda semelhantes aos do Brasil. Os três anos de combate (1950-1953) com os vizinhos do Norte foram devastadores!

Porém, em menos de 60 anos as coisas mudaram bastante por lá. Hoje o PIB per capita dos sul coreanos (US$ 27,4 mil) é quase três vezes maior que o dos brasileiros (US$ 9,8 mil).

A decisão dos asiáticos de investir pesado em educação – principalmente no ensino básico – foi determinante para esta transformação.

Por lá, a cada dólar e meio investido na educação superior, de custo mais elevado, os coreanos colocam um dólar na básica.

Aqui, para quatro dólares colocados na graduação, apenas um é repassado aos ensinos fundamental e infantil. E olhe que esses dados são anteriores aos anúncios recentes do governo federal de cortes em educação e pesquisa.

O exemplo da Coréia do Sul é didático, mas talvez possa parecer um pouco distante da nossa realidade.

Por isso vou recorrer ao algo mais próximo.

Quando assumimos a Prefeitura de Curitiba, em janeiro de 2013, fizemos a opção de concentrar os investimentos na educação, reservando 30% do orçamento para este fim.

Em apenas três anos os resultados apareceram e capital do Paraná assumiu o posto de melhor educação pública das capitais do país.

Em 2011, o Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico (Ideb) de Curitiba era 5,8. Em 2013, subimos para 5,9. E, em 2016, saltamos para 6,3, ficando em 1º lugar entre as capitais.

O potencial brasileiro!

Em maio deste ano, visitei o Instituto Tecnológico de Transportes e Infraestrutura (ITTI) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Apenas com base neste encontro, afirmo que é um erro subestimar os pesquisadores brasileiros.

É impressionante a quantidade e qualidade de projetos desenvolvidos pelos alunos da Universidade com a supervisão dos professores do ITTI. As pesquisas e projetos do Instituto são inclusive utilizados pelo governo federal, com custos reduzidos, na execução de grandes obras estruturantes como transposição de rios, construção de pontes e rodovias, soluções de infraestrutura e logística.

Impressionante também os relatos dos diretores sobre como os cortes anunciados irão afetar o ITTI.

No início de setembro, participei também da visita técnica da Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara dos Deputados ao Parque Tecnológico de Itaipu (PTI). Os sistemas desenvolvidos em setores como iluminação pública, mobilidade, biogás e a adaptação de espaços às condições ambientais e climáticas colocam o Brasil na vanguarda da ciência mundial.

Destaque para o Laboratório Vivo de Cidades Inteligentes, Living Lab, parceria do PTI com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). 

E em setembro também, relatei medida provisória para prorrogação de contratos de profissionais que participam dos projetos do cargueiro KC 390 e do caça Gripen, da Aeronáutica.

Todas essas estruturas e iniciativas, que agora mostram resultados, foram construídas ao longo de décadas de investimentos.

E esse modelo está sendo desmontado. Todos esses temas têm que ter uma lógica, uma costura. 

É preciso que as reformas, incentivo à pesquisa científica, educação, orçamento e marco regulatório façam parte de um pacote de desenvolvimento do país. Fazendo uma analogia, cada uma dessas áreas faz parte de um sistema integrado, como um computador. Ou seja, se um componente eletrônico quebra ou não está funcionando como deveria, compromete o desempenho geral, podendo até mesmo parar a máquina. No nosso caso, o país também pode parar. Será que estamos fazendo as escolhas certas?

* Gustavo Fruet é deputado federal pelo Paraná e vice-líder do PDT na Câmara dos Deputados

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