Eleições 2020: A nova roupagem da velha direita

Vinícius Wu*

A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e a emergência de uma nova extrema-direita no Brasil dos últimos anos ensejou uma enorme controvérsia a respeito da classificação dos partidos políticos no país. Partidos tradicionalmente posicionados à direita de nosso espectro político se viram empurrados para o centro ainda que permaneçam exatamente os mesmos partidos de antes. O termo “centrão” passou a ocupar o léxico político da maioria dos analistas e atualmente parece mesmo difícil estabelecer algum consenso em relação a este tema.

>Segundo turno tem equilíbrio entre esquerda e direita, indicam pesquisas

Não é o objetivo deste breve artigo discorrer sobre esta polêmica. Porém, diante do dissenso estabelecido, uma análise sobre o desempenho dos partidos de direita nas eleições municipais não poderia começar de outra forma que não seja indicando quais agremiações serão consideradas como integrantes da direita brasileira na atualidade. Então, cumpre assinalar inicialmente que a análise se concentrará em três partidos: DEM, PP e PSD que na opinião do autor compõem o núcleo da direita tradicional brasileira.

Estes três partidos, em maior ou menor grau, possuem origens na antiga ARENA, apresentam programas conservadores e estão entre os partidos mais fiéis ao governo Bolsonaro. Além disso, ao lado do centrista MDB e do principal representante da centro-direita, o PSDB, são os partidos com maior enraizamento e capilaridade nacional. Juntos, governarão 1.789 prefeituras a partir de janeiro (sem contar eventuais vitorias no segundo turno) e podem ser considerados os grandes vencedores das eleições 2020.

A disputa municipal deste ano representa um passo adiante na superação da polarização entre PT e PSDB que por duas décadas dominou a paisagem política nacional sendo interrompida em 2018 pela emergência de Bolsonaro. Os resultados do primeiro turno indicam que o PSDB, partido de centro-direita que por mais de duas décadas liderou o bloco conservador, ficou mais distante de retomar a hegemonia outrora estabelecida sobre a direita tradicional - da mesma forma que o PT viu sua hegemonia sobre a esquerda sofrer novo abalo.

A velha direita brasileira com sua nova roupagem vai avançando sobre o espaço aberto pela avalanche bolsonarista de 2018. Ainda que partidos de extrema-direita como PSL e Patriotas tenham crescido (em número de prefeituras, vereadores e população governada) foi a direita tradicional quem mais se beneficiou da atual hegemonia conservadora na sociedade brasileira para ampliar suas bases municipais.

O DEM saltou de 268 prefeituras em 2016 para 459 agora. O partido de Rodrigo Maia terá 4.311 vereadores (eram 2.905) e governará mais de 16 milhões de brasileiros/as a partir de seus governos locais. Já o PP, que saiu com 495 prefeituras das urnas em 2016, passará a contar com 681 administrações municipais a partir de janeiro, além de 6.310 vereadores. Além disso, pulou de 9,9 para mais de 15 milhões de governados sob suas administrações municipais. E finalmente o PSD, que tinha 539 prefeituras, passará a contar com 649 a partir de janeiro. O aumento do número de vereadores também foi expressivo: de 4.642 para 5.652. E em relação ao número de governados submetidos a suas administrações municipais, o partido liderado por Gilberto Kassab será o maior do país, governando mais de 20 milhões de pessoas.

É sabido que não há uma relação direta entre as eleições municipais e as disputas nacionais. Estes partidos, inclusive, não formam um bloco coeso e nem contam com um nome consolidado no cenário nacional que os viabilize enquanto alternativa de poder. Mas parece óbvio que o fortalecimento de DEM, PP e PSD nestas eleições aumenta significativamente o poder de barganha destes partidos em direção à 2022. Sua movimentação será decisiva para a montagem do tabuleiro no qual se desenvolverá o jogo da sucessão presidencial. E considerando a história e o comportamento destes partidos no Congresso Nacional é possível, pelo menos, relativizar algumas das conclusões que circularam nos últimos dias acerca do resultado das urnas, dentre as quais a de que Bolsonaro sofreu uma grande derrota. Sem um nome que os viabilize, estes partidos podem perfeitamente se ver obrigados a apoiar Bolsonaro num eventual segundo turno contra a esquerda em 2022 e, no final das contas, o saldo deste ano pode acabar favorecendo o atual presidente.

O fato é que a direita sai fortalecida das urnas em 2020 e ainda é cedo para dizer para onde caminharão os três principais partidos deste campo político. Portanto, a ideia de que o Brasil caminhou para o “centro” parece bastante questionável. Apenas estabelecendo uma classificação partidária bastante imprecisa é possível afirmar que o centro venceu. E se os números nos permitem afirmar que DEM, PP e PSD saíram fortalecidos das urnas, então as eleições deste ano apenas reafirmaram a hegemonia conservadora estabelecida na sociedade brasileira a partir de 2016, beneficiando especialmente os partidos que compõem o núcleo duro da direita tradicional. Trata-se da velha direita brasileira, com uma nova roupagem, mas ainda assim, a mesma direita de sempre, com seus valores, idiossincrasias e uma boa dose de pragmatismo.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

*Vinícius Wu, é pesquisador da PUC-Rio. Twitter: @vinicius_wu

>Leia mais artigos do autor

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!