Durante pandemia, brasileiro precisa de solidariedade em mão dupla

José César da Costa*

Nas últimas semanas, as redes sociais e os grupos de Whatsapp viralizaram histórias de pequenos empresários que pedem socorro. São comerciantes que dedicaram suas vidas àquele pequeno negócio familiar e que agora, diante da crise causada pela covid-19, correm o risco de fechar suas portas.

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Foi o caso, por exemplo, de um comerciante de plantas em São Paulo, que teve de fechar o seu negócio por 70 dias e percebeu que, do jeito que estava, não conseguiria se sustentar por tanto tempo. Nelson Simeão, de 80 anos, mantém sua loja há 50 anos. Diante do desespero, se deixou ser fotografado com uma placa com os seguintes dizeres: “ajude-me a sair da falência”. Nelson não pedia dinheiro. Queria apenas sua clientela de volta.

A imagem correu o Brasil e o negócio — que antes da covid-19 atendia cerca de 25 pessoas por dia — recebeu mais de 80 clientes após a divulgação da imagem. Em menos de uma semana já eram mais de 500.

Assim como Nelson, temos em todo o país milhares de microempreendedores que pedem socorro. E a palavra da vez, como se viu no caso acima, é solidariedade. O brasileiro sente as dores do comerciante, da pequena quitanda da esquina e se apresenta para oferecer a mão.

Isso fica mais claro quando anônimos, artistas e influenciadores abrem espaço em suas redes sociais para divulgação de pequenas empresas que passam por dificuldades. O Instagram até lançou o selo “Apoie as Pequenas Empresas”, que permite que o usuário indique aos seus seguidores um negócio.

Do outro lado temos a resiliência e o compromisso do empreendedor. No Brasil, existem 6,4 milhões de estabelecimentos comerciais. Desse total, 99% são micro e pequenas empresas (MPE). As MPEs respondem por 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado.

Por muito tempo, o empresário brasileiro carregou nas costas o estigma de ser o defensor de modelos econômicos que contrapunham trabalhadores e empresários, como se lutar por uma economia mais dinâmica e próspera significasse se colocar na contramão dos interesses sociais. Hoje vemos empresários de todo o país unidos pela manutenção de milhões de empregos. São eles que estão batendo na porta dos bancos, pressionando os poderes Legislativo e Executivo, assumindo riscos para manterem empresas abertas e postos de trabalho preservados.

Mais do que um braço da pujante economia brasileira, as MPEs converteram-se em agentes importantes de justiça e responsabilidade social. Constituem-se hoje como uma das frentes que, de uma forma ou de outra, colaboram para a diminuição das desigualdades, para o combate à miséria, para o aumento do nível educacional e promoção de oportunidades para os cidadãos. Os reflexos da crise que vivemos se perpetuarão por anos. O país e as empresas não vão se recuperar da noite para o dia e terão de se adequar a uma realidade desconhecida. Essa será uma tarefa árdua que dependerá de um esforço que envolverá todos os espectros da sociedade.

Atitudes de empatia e sinergia demonstradas por lideranças empresariais e, principalmente, por cidadãos como os clientes de Nelson Simeão, dão mostras da capacidade de recuperação e solidariedade do povo brasileiro. Um traço da nossa gente que, de certa forma, foi aflorada pela pandemia e que, esperamos, não se perca nunca mais.

*José César da Costa é presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, é empresário do ramo de construção civil e materiais de construção há 38 anos e formado em Administração. Foi presidente da FCDL-MG no período de 2007 a 2013. Atuou ainda como vice-presidente do Conselho Deliberativo do SPC Brasil. É presidente da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) desde 2017.

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