Antimaláricos, caipirinha e pandemias

Gutemberg Fialho *

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou a iniciativa Solidariedade, a qual se propõe a arrecadar fundos e organizar ações para enfrentar o novo coronavírus. Entre as ações está a realização de estudos clínicos para definir a melhor terapia a ser adotada. O esforço é global, porque demanda a comparação de resultados entre grupos de pacientes aos quais se ministra ou deixa-se de ministrar determinado medicamento.

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Os quatro estudos, que estão em andamento e ainda não apresentaram resultados conclusivos, tomaram o Remdesivir, a combinação Liponavir e Ritonavir, a Interferon Beta e a Cloroquina e Hidroxicloroquina para começar a busca pelo tratamento.

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No Brasil a indicação do uso da Cloroquina e da Hidroxicloroquina no tratamento dos pacientes infectados pela covid-19 virou uma batalha na arena política, nas mídias tradicionais e redes sociais – os políticos e a opinião pública se tornaram especialistas em infectologia, biologia, química e farmacologia de uma tacada só e do dia para a noite.

Pouco se fala do potencial das três outras terapias sob a lupa da OMS ou de outras que ainda propõem o uso do plasma sanguíneo de pacientes já recuperados da doença (que é pesquisado na USP, aqui no Brasil), o antiviral Atazanavir (pesquisado pela Fiocruz) ou o Favipiravir (desenvolvido no Japão).

Em 1918, no advento da gripe espanhola, também houve no Brasil disputas ideológicas, econômicas e de crenças em relação ao tratamento e a busca da cura. Dois medicamentos, entre as diversas panaceias anunciadas então, ficaram gravados na história. Um alinhado com a medicina científica que ganhava força na época: o quinino, usado no tratamento da malária. O outro era prescrição da medicina popular da época: um preparado de limão macerado, mel, alho e um tanto de cachaça. Mais tarde, este último ficou conhecido como caipirinha. Nenhum dos dois ficou conhecido por curar a gripe.

Por estranho que pareça, esse registro da invenção da caipirinha consta da Revista Brasileira de Farmácia (edição 89). No futuro pode ser que venhamos a achar a defesa desarrazoada feita hoje de uma ou outra terapia contra a covid-19, sem a devida validação científica, algo tão esdrúxulo quanto soa termos lutado contra a gripe espanhola tomando caipirinha.


O fato é que a humanidade, não só aqui no Brasil, anseia pela cura e os testes com os medicamentos já conhecidos se mostram a forma mais prática e rápida de desenvolver uma prática terapêutica. Mais rápido não significa imediato, no entanto. O desenvolvimento da terapia envolve a determinação da droga a ser usada, a dosagem dela, a interação com outros princípios ativos e a condição do paciente definida tanto por aspectos como idade, peso e sexo até pré-condição de saúde. Além disso, essa terapia tem de ser economicamente viável para uso generalizado.

Não há nem garantias de que algum desses tratamentos seja validado. A cura pode vir de algum outro completamente fora do nosso campo de percepção – algo sendo pesquisado de forma séria e distante dos holofotes, para que se possa fazer ciência sem a pressão dos interesses político-partidário-ideológicos, da opinião e das crenças populares. A ciência, indispensável para nos livrar da ameaça do novo coronavírus, leva em conta premissas, mas tem alicerce em experiência e método. Não é um jogo de tentativa e erro, nem tem como mudar resultados para agradar a quem quer que seja. Se o fizer, deixa de ser ciência.

Não existe um elixir mágico que vá cair do céu para nos salvar. E se for esse o pensamento que nos conduz na busca da terapia, estamos fadados a continuar lutando contra as pandemias fazendo caipirinha.

* Gutemberg Fialho é médico, advogado, presidente da Federação Nacional dos Médicos e do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal.

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