Africana e ativista contra racismo se torna ministra do novo governo israelense

Por Sionei Ricardo Leão* 

A advogada, de 39 anos, Pnina Tamano-Shata, foi nomeada no último domingo (17) ministra da Imigração do Governo de Israel. Africana de origem, nascida na Etiópia, ela se destaca pela luta contra a discriminação racial e em prol da integração dos membros de sua comunidade na sociedade israelense. Atualmente, os beta Israel (forma como os judeus etíopes se identificam) são cerca de 140 mil cidadãos vivendo em várias regiões do país. 

Pnina Tamano-Shata é conhecida e reconhecida por ter liderado protestos como, em 2015, desencadeados por incidentes entre judeus etíopes e forças policiais israelenses. A campanha sensibilizou o governo a formalizar um comitê especial no Ministério da Justiça, que publicou o Relatório Palmor. Esse documento define metas e diretrizes para se reduzir e debelar resquícios de preconceito, especialmente os que afetam os Beta Israel. 

> Não à apropriação de símbolos judaicos!

Em 2016, Pnina Tamano-Shata foi agraciada com o Prêmio Unsung Hero, do Drum Major Institute. Recebeu a comenda das mãos do presidente de Israel, Reuven Rivlin e Martin Luther King III, filho do ícone americano de direitos civis Martin Luther King Jr. e presidente do Drum Major Institute. 

Um ano antes, em 2015, a atual ministra havia sido laureada com o Prêmio da Irmandade Internacional de Cristãos e Judeus. No mesmo período, Pnina Tamano-Shata constou na lista do jornal The Marker como uma das cem personalidades israelenses mais influentes daquele ano.

Em declaração à imprensa israelense, Pnina Tamano-Shata disse que para ela todo esse reconhecimento representa um marco e o fechamento de um ciclo.  “Da menina de três anos que imigrou para Israel sem mãe em uma jornada pelo deserto, através do crescimento em Israel e das lutas que liderei e ainda lidero pela comunidade, integração, aceitação do outro, e contra a discriminação e o racismo”, comentou. 

Nascida em 1981 na vila de Wuzaba, na Etiópia, ela desembarcou em Israel aos três anos de idade, ou seja, em 1984, junto com o pai e cinco irmãos – a mãe só conseguiu migrar posteriormente. Os recém-chegados num primeiro momento residiram num centro de absorção em Pardes Hanna. Após quatro anos, em 1988, a família mudou para Petah Tikva, onde vive atualmente. 

Pnina Tamano-Shata serviu nas Forças de Defesa de Israel (IDF). Foi sargento de operações no Comando da Frente Interna. Em 2002, iniciou estudos de direito, o que a levou a atuar como instrutora para adolescentes em risco e a ter uma atuação social em bairros desfavorecidos de Petah Tikva.

Ela se auto define como advogada, ativista social e ex-jornalista. É mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Tel Aviv e bacharel em Direito pela Ono Academic College.

A trajetória política de Tamanu-Shata iniciou-se em 2004, ao ser eleita presidente da União dos Estudantes Etíopes de Israel. Foi uma das fundadoras, em 2006, da Sede da Luta pela Igualdade Social dos Judeus Etíopes. Durante esse período, teve também experiências no mundo da mídia quando apresentou o programa de notícias ‘Friday at Five’ no canal 1 de Israel. 

Em 2012, concorreu a 19º legislatura do Knesset (parlamento federal de Israel) pelo do partido Yesh Atid, liderado por Yair Lapid. Aos 31 anos, foi eleita tornando-se a única mulher israelense de origem etíope a conquistar um mandato federal. 

Membro da coligação Azul e Branco, liderada pelo novo primeiro-ministro israelense Benny Gantz, ela integrará um governo de unidade com o Likud, partido do ex-premiê Benjamin Netaniahu. 

O Azul e Branco reúne três legendas de centro: Resiliência de Israel, Atid e Telem. A aliança almeja ocupar um espaço plural na política do país, com meta de representar eleitores de várias tendência ideológicas e religiosas. O nome da coligação simboliza a bandeira nacional. 

 Por programa, o Azul e Branco defende pautas como limites de tempo para o cargo de primeiro-ministro, vetar políticos acusados de crimes de disputar cadeiras no Knesset, investir na educação primária, expandir o sistema de saúde e retomar negociações de paz com a Autoridade Palestina. 

A pasta de Tamanu-Shata cuida de uma demanda vital à vida dos judeus-israelenses, ou seja, o direito da Lei do Retorno, conferida a pessoas de várias regiões do planeta. No caso dos etíopes, o ministério investe quatros vezes mais em recursos para suprir fragilidades que eles têm em comparação com migrantes de países mais ricos. 

Os Beta Israel são cerca de 140 mil pessoas atualmente no país. Tamano-Shata não é a primeira a se destacar. Há personalidades no meio militar da própria política, na educação e na cultura. No entanto, o governo reconhece que os judeus etíopes ainda apresentam indicadores socioeconômicos inferiores a sociedade de modo geral. Portanto, a nova ministra pelo histórico e reputação, inicia a gestão sobre grandes expectativas.  

*Jornalista, pesquisa cultura judaica. Integra o grupo da Carta do Oriente Médio da Associação Cultural Israelita de Brasília (ACIB) 

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