A falência do Estado dos contêineres de lixo

"Quando o Estado não consegue prover a mais básica das necessidades do ser humano (comer!), ele já está falido há muito tempo."

André Giusti*

Em uma segunda-feira, mas precisamente dia 25 de março passado, por volta de dez da noite, um sujeito remexia os contêineres de lixo do condomínio onde moro, em um bairro de classe média de Brasília, capital do país.

Não deveria ter 30 anos.

Achei que trabalhasse com reciclagem e recolhesse latinhas e papelão.

Não.

Ele estava pegando comida. E estava chorando, envergonhado. “Eu tô com fome, moço... com fome”, e me olhando, levou desesperado à boca metade de um sanduíche que alguém jogou (desperdiçou) no lixo.

A menos de 100 metros dali, há um templo religioso abandonado, entregue ao matagal e aos mosquitos. Há pelo menos dez anos lhe falta serventia. Todo imóvel precisa exercer uma finalidade social, diz nossa Constituição. Caso contrário, o Estado pode (e tem que) tomá-lo do proprietário e canalizá-lo para seu objetivo previsto na Lei Magna.

Não sou expert em soluções de governo, nada entendo de políticas públicas, mas como contribuinte sou muito bom em me indignar contra a inação estatal e da sociedade.

Se aquele templo inútil fosse um restaurante popular, bancado com nossos impostos, com almoço e janta a R$ 2, R$ 3, o homem que revirava o lixo do meu condomínio (para comer!) teria ao menos parte de sua dignidade preservada.

Quando o Estado não consegue prover a mais básica das necessidades do ser humano (comer!), ele já está falido há muito tempo. Falido há bem mais tempo do que qualquer regime previdenciário com suas regalias, segregações e descalabros.

*André Giusti é jornalista e escritor. Trabalha atualmente como assessor parlamentar no Senado. Mantém blog e site em www.andregiusti.com.br

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