A exclusão da Abril e o futuro dos canais pagos

Nelson Hoineff*

Passou quase despercebido o anúncio feito pela editora Abril de suspender, a partir de 30 de junho, as atividades de dois de seus novos canais de TV por assinatura, o Ideal e o Fiz TV. No anúncio, a Abril atribui a decisão ao afunilamento promovido pelas operadoras de TV por assinatura.

É uma denúncia de extrema gravidade. Há poucos meses, a mesma Abril envolveu-se numa guerra contra a Sky pela decisão da operadora de retirar de seu lineup uma das redes de TV mais populares entre os jovens, a MTV Brasil.

As operadoras são hoje os filtros entre o espectador e as redes de TV por assinatura que se criam no país. Duas delas detêm cerca de 80% do mercado. Na medida em que cresce o mercado de TV por assinatura, as operadoras mais se aproximam do papel de uma concessionária de TV aberta. Hoje, a TV por assinatura chega a menos de 10% dos brasileiros, enquanto a TV aberta chega a mais de 95%. Parece muita diferença, e é. Deve-se notar, contudo, que tanto na Europa ocidental quanto nos EUA, os índices de penetração já são quase idênticos – oscilando entre 94 e 98%.

Se a Abril encontra dificuldades para colocar nas grades das operadoras os canais que produz, pode-se imaginar o que acontece com empresas menores. O Ideal é um canal de negócios, e o Fiz TV uma rede montada para jovens com uma configuração bastante original, onde grande parte do conteúdo é gerado pelo usuário. Não é razoável imaginar que um ou outro não desperte o interesse do assinante.

Mais limitações ao usuário

A estrutura de distribuição de canais pagos no Brasil é caótica desde seu nascedouro – e, como resultado da baixa penetração, o business não está fechando, exceto para quem tem a ventura de ser programador e operador ao mesmo tempo. As modificações propostas no Congresso pelo PL29 são tão abrangentes e sofreram tantas interferências que a esta altura tem-se menos certeza de sua aprovação que de sua eficácia.

O negócio da TV por assinatura nasceu e cresceu como alternativa às limitações naturais da TV aberta. No Brasil, “alternativa” deixou de ser uma palavra adequada. A TV por assinatura reza pela cartilha da TV aberta, segue a mesma lógica, exclui os que já estavam excluídos, inclui os que já estavam incluídos.

A decisão da Abril não resulta apenas no fechamento de um atraente mercado de trabalho para profissionais de televisão brasileiros. Ela implica em mais limitações impostas ao usuário – e como tal tem que ser estudada. É nociva para as próprias operadoras, que precisam diversificar para crescer. Se no mercado de TV por assinatura do Brasil não existe lugar para uma das maiores empresas de comunicação do país, não parece muito promissora a vida de empresas e produtores menores que se aventurem a fazer televisão fora do padrão e da lógica comercial que dominam e ainda assim não estão dando certo.

*É jornalista, produtor e diretor de televisão. Escreve para o Observatório da Imprensa.

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