Quando éramos “Bolívia”

A lembrança foi feita por um dos meus irmãos, Gustavo. Em 1982, Ronald Reagan esteve no Brasil, e foi recebido pelo então presidente, o general João Figueiredo. No almoço em sua homenagem oferecido por Figueiredo, Reagan propôs um brinde ao povo da ... Bolívia.

Quase 30 anos depois, no discurso que fez no Theatro Municipal, no Rio de Janeiro, Barack Obama ensaiou várias palavras em português. Citou um trecho da canção “País Tropical”, de Jorge Benjor. O filme “Orfeu Negro”, inspirado em peça de Vinicius de Moraes. Comentou que haveria no mesmo dia um jogo de futebol “do Vasco ou do Botafogo”. Obama pretendia fazer um discurso na Cinelândia, cancelado por razões de segurança, porque sabia que ali fora o palco da passeata das Diretas e de outras manifestações importantes da vida política e social brasileira. Conhecia e dizia admirar a participação de Dilma Rousseff na luta contra a ditadura militar. Enfim, Obama sabia muito bem aonde estava no dia 20 de março de 2011.

É até possível que, pessoalmente, o conhecimento de Obama sobre o Brasil não seja menos superficial do que era o de Reagan. Que tudo o que disse o atual presidente dos Estados Unidos tenha sido apenas fruto do trabalho de pesquisa sobre o país feito por sua assessoria. Mas Reagan também tinha assessores. Se quisesse – e tomasse mais cuidado –, não confundiria o Brasil com a Bolívia.

O fato é que, nestes 30 anos, mudamos, tanto nós quanto os Estados Unidos. E a gafe de Reagan em comparação com o empenho de Obama em demonstrar conhecimentos sobre o Brasil é um exemplo veemente disso.

Em 1982, o Brasil vivia uma imensa crise econômica e era uma ditadura militar em declínio. Pertencia a um grupo de países latinoamericanos que combinava então, para os Estados Unidos, desimportância e subserviência. Na lamentável sucessão de seus generais patéticos, a América Latina vivia um momento de influência mínima no mundo. Por outro lado, todos os seus governantes, de um modo geral, mostravam-se prontos para seguir as orientações norte-americanas a um estalar de dedos. Assim, para Reagan, tanto fazia estar no Brasil ou na Bolívia. Tratava-se apenas de uma visita diplomática protocolar.

Não sejamos ingênuos. A vinda de Obama ao Brasil ainda é a visita do presidente da nação mais poderosa do planeta a um país que ainda está longe de poder se considerar superpotência. Mas, fora isso, todo o cenário mudou. O próprio Obama é fruto disso. Depois de anos refinando uma política que consistia basicamente no domínio – político, econômico, cultural – do mundo, os Estados Unidos foram atraindo para dentro de si pessoas dos povos que subjugavam. Até o ponto em que a elite branca e protestante americana teve que sucumbir à ascensão desses povos. O atual presidente negro e de nome árabe está bem longe de ser descendente de algumas das famílias que chegaram a Massachusetts no Mayflower.

Hoje, quem passa por uma crise econômica são os Estados Unidos. E é o seu presidente que tenta encantar os brasileiros para que consumam mais produtos norte-americanos.

Por seu lado, o Brasil passou praticamente incólume pela crise. E, junto com outros países do bloco emergente, aumentou consideravelmente a sua inserção na discussão dos principais temas mundiais. Uma mudança de postura que começou especialmente no governo Lula. Ainda que essa mudança de postura possa ter levado a episódios questionáveis, como na deposição de Manuel Zelaya em Honduras ou na tentativa frustrada de intermediar uma negociação nuclear com o Irã, o fato é que o Brasil torna-se um ator no mundo que não pode ser ignorado.

Por isso, Obama sabe bem que não esteve na Bolívia. Será que Jackson do Pandeiro está vendo lá de cima o Tio Sam começar a entender  que samba não é rumba?

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