Ordem Secreta dos Monogâmicos (procura-se o fundador)

“Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa!, é de colher... — não tem nenhum valor” (Vinicius de Moraes)

Luis Fernando Verissimo negou a paternidade – não poderia ser diferente: monogâmico, logo, fiel. E eu acredito. Ninguém tão monossilábico pode se dar ao luxo da poligamia e do desvario das bastardices. Há que ser prolixo para a presa em questão não ter tempo de contra-argumentar e fugir do bote. Verissimo, não. Até porque se ele tivesse de fundar uma “ordem secreta”, teria sido o Internacional um disfarce desportivo para o Partidão, e o Beira Rio uma grande arena para a troca de inconfidências. Afinal, quem fundou a Ordem Secreta dos Monogâmicos?

Antes das explicações, aviso que esta crônica é uma confissão. E um serviço de utilidade – não sei se pública. E é também uma espécie de carta de auto-recomendações, com fins de pedido de adesão, para ver se ainda há um lugarzinho na seleta irmandade mencionada no título. O fato é que, na última quinta-feira – 14 de julho de 2011, a segunda vez em que entrevistei Verissimo –, ousei telefonar para a casa do escritor por volta das 20h30.

Verissimo jantava. Dali a 15 minutos, tranquilizava-me a gentil e exclusiva Dona Lúcia, eu poderia voltar a fazer contato. “Mas seja pontual, porque hoje vai ter jogo do Internacional, e o Luiz vai assistir”, sentenciou, depois de eu ter explicado que falaria com ele sobre um certo texto (homônimo daquela ordem secreta). A partida, que depois se revelaria uma derrota por um gol do Inter para o Corinthians, estava marcada para as 21h. Tradução: eu tinha pouquíssimos minutos, isso se ele realmente concordasse em falar comigo, para arrancar as declarações que transcrevo logo abaixo.

“Já era”, pensei. Não bastasse invadir a privacidade de algo sagrado como o jantar (para Verissimo, o jogo), eu ainda tive a pachorra de sequer procurar saber, com o devido cuidado, se naquela noite o Colorado jogaria. Para que raios existe o Google, ora boas? Eu, homem das cavernas, pressentia: não conseguiria falar com ele naquela noite. Ainda bem que sexto sentido de homem é de quinta. E Verissimo, ao invés de esperar a peleja, sei lá, entoando mais uma vez o hino de seu clube, atendeu à minha suada ligação. Rumores davam conta de que ele sabia de algo.

Foram dois minutos e pouco de diálogo. Gravei a seguinte conversa com meu celular:

Luis Fernando Verissimo - Ordem Secreta dos Monogâmicos?

Este Repórter - Sim.

LFV - Não lembro, não... Faz muito tempo, é?

ER - Faz algum... Não se lembra, né?

LFV - Não... Qual era o teor da crônica?

ER - Dizia que os monogâmicos eram uma espécie em extinção. E ao passo em que é cada vez mais difícil existir monogâmicos, eles vêm sendo muito valorizados – numa analogia com os animais raros.

LFV - Acho que isso não é meu, não. (a resposta agora tinha o peso de um paralelepípedo em queda livre, tendo caído do cume do Everest, lançado contra a imprecisão)

ER - Não? (minha insistência era o alvo do tal projétil)

LFV - Acho que não.

ER - Pois é... Mas o fato é o seguinte: aqui no Congresso (eu falava do Comitê de Imprensa do Senado, e estava só; não queria quebrar, como faço agora e já havia feito com o entrevistado, a corrente oculta da confraria) existe um movimento, digamos, tácito, nos bastidores, de pessoas que, na condição de monogâmicos, têm se inspirado no senhor como símbolo, modelo de homem que, casado há muito tempo, poderia representar bem a satisfação de ser monogâmico. Eu vou escrever uma crônica exatamente sobre isso...

LFV - Olha, eu sou monogâmico convicto, mas esse texto acho que não é meu, não. (a repetição das negativas acelerava a gravidade, e o rochedo continuava caindo)

ER - O senhor compartilha dessa visão de que os monogâmicos são uma espécie em extinção?

LFV - Parece que sim, né? Do que jeito que está indo a coisa...

ER - (risos) – apenas meus: eu ria da dificuldade de extrair mais de 12 palavras de Verissimo em uma resposta. Mas também por estar feliz ao menos de ter conseguido conversar com o mestre. E resolvi emendar:

ER - E quais seriam as vantagens de ser monogâmico?

LFV - Olha... (longa pausa pronunciada em uma espécie de grunhido) Uma certa paz que a pessoa tem quando encontra um companheiro com quem dá certo. Então, tem uma vida mais tranquila.

ER - Ainda mais com esse enxame de más notícias envolvendo relacionamentos amorosos, não é mesmo? É uma espécie de segurança... (frustrada tentativa de alongar a conversa)

LFV - É... Exatamente.

ER - Tá certo. (rendição) Eu não vou alongar a conversa, mas para mim já é suficiente só o fato de ter conseguido falar com o senhor.

LFV - Tudo bem... Como é o seu nome mesmo?

Caprichei na pronúncia de meu nome – até porque aquela entrevista que fiz há anos com Verissimo, sobre a estreia em Brasília do evento literário “Sempre um Papo”, até virou capa do caderno de Cultura do Correio Braziliense, mas foi assinada por um tal de “Da Redação”. Estagiários devem pronunciar o próprio nome, em alto e bom som, para serem lembrados.

O resto da conversa são tietagem e gentilezas abreviadas por parte de Verissimo – o jogo estava por começar. Desliguei o telefone com a mesma sensação que tive na primeira vez em que entrevistei Veríssimo: missão quase cumprida. Embora de compridas ambas as entrevistas nada tivessem. Se ele escreve tão bem, porque deveria falar além da medida?

Dona Lúcia já havia desconfiado da autoria do texto mencionado no primeiro telefonema daquela noite – calejada para esse tipo de armadilha, imagino, ela perguntou onde eu o havia lido. O que eu não disse, nem a ela nem ao marido, é que a monogamia parece não me querer entre os integrantes da ordem – eis aqui a confissão. Porque monogamia é arte, e eu sou jornalista. E, peixe fora d’água, fui informado de que a mulher da minha vida ainda não está preparada para tanto amor que tenho. Enquanto a solitude me castiga e aprimora, resigno-me até o dia em que, como Verissimo, o tempo me transforme em artista. É como diria outro mestre: “Quem sabe a solidão, fim de quem ama” (Vinicius de Moraes, em “Soneto de Fidelidade”).

Utilidade íntima

Observador do que se insinua pelas dependências do Congresso, e ele mesmo um dos insufladores do silencioso levante, um amigo que prefere o anonimato (bem ao estilo da conspiração monogâmica) resumiu à perfeição: “Aquele que vai à caça de várias parceiras o faz, às vezes inconscientemente, para preencher o sufocante vazio interior que só pode ser preenchido pela companhia ideal. Apesar dos instintos e da crescente tolerância, é a monogamia consciente e voluntária que pode dar sentido a um relacionamento”. A reflexão parece ter saído de minha cabeça.

O Parlamento não parece lá ser o lugar ideal para práticas monogâmicas e tributos à fidelidade, tamanha é a promiscuidade de alguns que passam por lá – vide infidelidade partidária, pra ficar numa modalidade branda de poligamia. Mas foi lá que, encandeado por uma luz azul adornada de raios solares, eu tive a revelação de que sou um “monogâmico convicto”. Por toda a duração da chama. Lúdica, única, cálida, intrigante, etérea, natural e eternamente.

Em tempo: revirei as vísceras da internet, e de alguns arquivos (inclusive pessoais), em busca do autor de Ordem Secreta dos Monogâmicos, bem como procurei o próprio texto. Nada encontrei. Até que eles apareçam, sugiro-vos a leitura de “Os frágeis alicerces da monogamia”, de Rafael Carmargo Delerue.

PS.: Zuenir Ventura, em texto publicado na edição de sábado de O Globo (“Do que é capaz a internet”, Opinião, 16 de julho): “Uma das crônicas do Verissimo, ‘quase’, faz muito sucesso. Só que ele nunca a escreveu”.

PS.2: para continuar no jornal fluminense e no campo das coincidências, se elas existirem. O “gente boa” Joaquim Ferreira dos Santos registrou em sua coluna, na edição de 3 de julho, que Verissimo estava com sua mulher a bordo de um voo do Rio para Porto Alegre, em 30 de junho, quando houve um alarme falso de bomba. O avião, diz Joaquim, chegou a ser esvaziado. “Vem crônica boa aí”, previu.

PS.n (de "nada a ver com o assunto"): nosso cachorrinho Bob Marley fugiu. A casa está triste. É um fox schnauzer impetuoso como os donos, e se perdeu na noite gélida da Asa Norte, em Brasília. Orações, pensamento positivo, boas energias, informações e lenços nessas horas são bem-vindos. O bom filho à casa torna.

PS.a (de "atualização", feita às 21h45 de domingo, 24/7): nunca tive dúvidas sobre a força dos leitores. Bob Marley voltou. A casa volta a ser feliz.

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