O Massacre de Maio: a memória

No dia 3 de junho, a TV Brasil passou um programa da série Brasilianas, onde o jornalista Luiz Nassif lembrou o 7º aniversário do maior massacre feito num país Ocidental desde 1945, salvo no caso da Argentina, onde os massacres da ditadura cobraram entre 30 e 40 mil mortos.

Em maio de 2006, o Primeiro Comando da Capital iniciou uma série de ataques a objetivos do estado de São Paulo. O PCC é, como todos sabem, um grupo delinquencial. Entretanto, não foi tão sabido o fato que esse grupo se criou como um aparelho armado reativo logo após do brutal massacre de Carandiru (1992), para revidar novos genocídios policiais. O democídio de Carandiru, segundo alegações do governo, custou 111 mortos, mas, segundo fontes independentes (como o prestigioso médico Dráuzio Varela) teria custado muito mais. Muito menos divulgado, ainda, foi que o PCC começou os ataques em maio de 2006, quando a polícia de SP extorquiu em larga escala os parentes dos detentos.

Diz-se que, em três semanas, houve 564 mortos e a mídia menciona os policiais executados, e diz que os bandidos mortos teriam caído em confrontos com a polícia. Entretanto, um grupo minoritário de promotores e defensores públicos, fez plantão junto aos necrotérios e arriscou sua vida para provar que a enorme maioria dos mortos era de pessoas desarmadas, inofensivas, que nada tiveram nunca a ver com qualquer forma de crime, jovens entre 11 e 31 anos, que foram “apagados” pelas costas e\ou com tiros de baixo para cima, e\ou com rajadas de metralhadora, enfim, com métodos que não deixavam qualquer dúvida sobre a mão da polícia. Sete anos depois, a mesma mídia (salvo em seus setores psiquiatricamente mais disfuncionais, como as revistas neofascistas, os programas policiais, etc.) evita repetir os mesmos mitos que usaram durante o massacre e prefer “esquecer” da data.

Os policiais mortos eram 59, o que significa que o Estado de SP sacrificou quase nove mortos por cada um de seus agentes caídos. Lembrem que as Waffen SS, durante a ocupação a Polônia, mandavam matar cinco prisioneiros quaisquer por cada algoz do Reich que fosse abatido. As 500 mortes que não eram de policiais nem sequer foram investigadas. A Secretaria de Segurança chegou a fazer algo, que não se fez nem mesmo na Alemanha até 1938: impossibilitar o exame dos cadáveres, ocultando durante vários dias as mortes acontecidas.

Tanto o blog quanto o programa televisivo de Nassif são os que, de maneira mais corajosa, honesta e inteligente defendem os direitos humanos. Nesse programa, Nassif reuniu o defensor público do Estado,  Antonio Maffezoli;  o presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe); e o diretor adjunto da organização Conectas Direitos Humanos, Marcos Fuchs. Todos eles fizeram observações interessantes, mas o próprio Nassif foi quem teve a atitude mais enérgica.

Ele criticou a inoperância do princípio de federalização dos crimes contra os direitos humanos, que foi aplicado apenas duas vezes, sem qualquer entusiasmo e, portanto, sem resultado. Nassif manifestou, no final do programa, que se envergonhava de pertencer a uma sociedade em que se praticavam estes crimes brutais, e acusou os membros dos ministérios públicos que se tornaram cúmplices dos bárbaros assassinatos. Também criticou o governo federal por sua indolência, devido a que, por interesses políticos e econômicos, não deseja entrar em conflito com o governo de São Paulo. “Qualquer coisa é mais importante para eles que a vida humana” disse Nassif, em tom indignado.

Encerrou o programa afirmando que nunca, em sua longa carreira de jornalista, tinha tomado conhecimento de um crime tão hediondo. É importante ressaltar a relevância deste grupo de comunicação, tendo em conta o silêncio cúmplice da maioria da mídia, no caso de um fato tão sangrento que não se registra em Ocidente desde as últimas chacinas nazistas.

Cabem algumas observações sobre assuntos colaterais.

O representante de Conectas sugeriu que a polícia de SP precisava mais preparação e recursos técnicos. O apresentador perguntou se esse era o caminho, sendo que parecia que aqueles crimes eram propositados e não produto de qualquer erro o excesso. O participante fez um sorriso embaraçado e não respondeu. Devemos notar que todos os humanos temos medo da repressão, mas quando nosso medo é excessivo, deveríamos procurar outra atividade que não seja de ativista de DH.

É necessário ter em conta que o estado de São Paulo, desde tempos imemoriais, tem desenvolvido uma política sistemática de social cleansing contra pobres, negros e estudantes, e que a política sanguinária que continuamente golpeia os setores populares é o resultado tanto da tradição integralista e fascista das elites do estado, como do surgimento de um neonazismo presentes em todos os aspectos, da repressão policial e o aviltamento do ensino até os massacres coletivos como Pinheirinho, os julgamentos forjados e o estímulo ao fanatismo fundamentalista.

Sem falar, ainda, da personalidade patológica dos membros da equipe da secretaria de segurança naqueles dias de maio.

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