O guarda da esquina como ameaça. Outra vez

A lista inclui ainda bizarrices, como o inquérito aberto pela polícia, a pedido do Ministério Público de São Paulo, para investigar suposto crime de apologia às drogas cometido pelo médico Elisaldo Carlini, que no ano passado promoveu seminário sobre o assunto e ousou incluir na lista de painelistas o líder de uma igreja rastafári, que faz uso ritual da maconha.

O religioso não compareceu, pois cumpria pena por tráfico de drogas, condenado por plantar uns 30 pés de maconha em sua propriedade, mas o médico, um dos maiores especialistas na pesquisa sobre drogas psicotrópicas do Brasil, especializado em psicofarmacologia pela Universidade Yale, nos Estados Unidos, e um dos criadores do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), teve que se explicar para as autoridades por abordar tema tabu.

Aqui um parêntese: não se vê em qualquer discussão oficial sobre o que fazer contra o tráfico de drogas estudo sério sobre medida adotada em diversos países, como Estados Unidos e Uruguai, onde o consumo de drogas é regulamentado, o que quebrou um dos pés do crime organizado. Em outros, como Chile, Argentina, Colômbia e Venezuela, o uso não é considerado crime. Especialistas de renome no mundo advogam a regulamentação do uso como maneira mais eficaz de acabar com o poder dos traficantes. Aqui se prefere prender, prender e prender, o que atinge mais a população negra e pobre e contribui para o caos do sistema penitenciário, que retroalimenta a violência. Fecha parênteses.

A onda repressora e totalitária, sem respeito aos direitos individuais, é exercida e legitimada por autoridades de diversos escalões. Pode ser vista no suicídio do então reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Luiz Carlos Cancellier, preso e impedido de voltar ao campus pela Polícia Federal com base em acusações ainda não especificadas. Na tentativa de censura a disciplinas de universidades públicas que se propõem a analisar o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff como um golpe de Estado. E na propagação irresponsável de notícias falsas que pretendem denegrir a história e a luta de Marielle Franco.

Essa onda é visível ainda em atos repressivos que podem ser considerados banais, mas que não podem ser tolerados sob pena de tornarem atual não apenas a profecia de Pedro Aleixo como o famoso poema do pastor luterano Martin Niemöller contra os nazistas, aquele que diz: “Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei... No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar...”

Esse preâmbulo é apenas para contextualizar um desses atos aparentemente banais, testemunhado por minha filha Clara, 22 anos, e que teve como vítimas colegas dela de faculdade. O grupo se dirigia a uma manifestação contra a morte de Marielle nesta terça-feira (20), no Rio, quando um pelotão de seguranças do metrô invadiu o vagão e retirou os estudantes aos safanões. Um deles chegou a ficar com a perna presa entre o trem e a plataforma.

Veja o vídeo:

 

Os seguranças estavam atrás de alguém que tinha pulado a catraca e entrado no comboio sem pagar o bilhete. Na dúvida, retiraram todos os que ostentavam na roupa adesivo com a imagem de Marielle. A reação desproporcional e arbitrária visava localizar um suspeito cuja descrição provavelmente batia com a da maioria dos estudantes. Na dúvida, retirem todos. Na dúvida, são todos culpados. Na dúvida, desçam a porrada.

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