O futuro na mão dos emergentes

Em artigo recente para o Valor Econômico, Dani Rodrik, professor de economia política internacional de Harvard, especula que “talvez, pela primeira vez na história moderna, o futuro da economia mundial esteja nas mãos dos países pobres. Os Estados Unidos e a Europa marcham como gigantes feridos, vítimas dos seus excessos financeiros e paralisia política. Parecem condenados, por seu pesado endividamento, a anos de estagnação ou crescimento lento, ampliando a desigualdade e possíveis conflitos sociais.”

Ao contrário, a maior parte do resto do mundo, entretanto, está cheia de energia e esperança, segundo Rodrik. Aliás, dirigentes governamentais na China, Brasil, Índia e Turquia estariam mais preocupados com crescimento excessivo do que com pouco crescimento. Sob determinados parâmetros, a China já é a maior economia no mundo; os mercados emergentes e os países em desenvolvimento já respondem por mais de metade da produção mundial. A empresa de consultoria McKinsey qualificou a África, eterno sinônimo de fracasso econômico, de terra dos "leões em movimento".

Baseado no romance em quadrinhos Super Sad True Love Story (Verdadeiro Caso de Amor Supertriste) de Gary Shteyngart, ele considera que a ficção reflete melhor esta mudança de clima e, assim como a maioria da produção recente de filmes catastróficos de Hollywood, funciona como guia, refletindo os temores do inconsciente político americano, indicador sintomático do que vem por aí.

Situada num futuro próximo, a história se desenrola contra o pano de fundo de um EUA financeiramente arruinado sob uma ditadura de partido único e envolvido em mais uma inútil aventura militar no exterior - dessa vez na Venezuela. Todo o trabalho real nas empresas é feito por imigrantes qualificados; faculdades da Ivy League adotaram os nomes de suas homólogas na Ásia a fim de sobreviver; a economia está endividada junto ao banco central da China e

"dólares ancorados ao yuan" substituíram a moeda tradicional como ativo seguro preferido.

Contudo, Rodrik se pergunta: serão os países em desenvolvimento realmente capazes de puxar a economia mundial? Grande parte do otimismo sobre suas perspectivas econômicas é resultado de especulação. A década anterior à crise financeira mundial foi, sob muitos aspectos, a melhor de todos os tempos para os emergentes. O crescimento disseminou-se para muito além de um pequeno número de países asiáticos e, pela primeira vez desde a década de 1950, a grande maioria dos países pobres experimentou o que os economistas chamam de convergência - um estreitamento do diferencial de renda em relação aos países ricos.

Esse, no entanto, foi um período peculiar. Os preços das commodities estavam elevados, beneficiando países africanos e latino-americanos em especial, e o financiamento externo foi abundante e barato (aqui ele esqueceu de mencionar que o Brasil, por exemplo, pagou sua dívida junto ao FMI). Além disso, muitos países africanos recuperaram-se de longos períodos de guerra civil e declínio econômico. E o rápido crescimento alimentou, de modo geral, um aumento no volume do comércio mundial até níveis recordes.

Em princípio, um baixo crescimento pós-crise nos países avançados não bloqueará, necessariamente, o desempenho econômico dos países pobres. Em última instância, o crescimento depende de fatores do lado da oferta - investimento e aquisição de novas tecnologias - e do estoque de tecnologias que podem ser adotadas pelos países pobres e que não desaparece quando o crescimento dos países avançados fica lento. Assim, o potencial de crescimento dos países atrasados é determinado por sua capacidade de eliminar o atraso em relação à fronteira tecnológica - e não pela velocidade com que a própria fronteira está avançando.

A má notícia é que ainda não temos uma compreensão adequada sobre quando esse potencial de convergência é concretizado ou sobre o tipo de políticas que gerem crescimento auto-sustentado. Mesmo casos de inquestionável êxito têm sido objeto de interpretações conflitantes.

Alguns estudiosos atribuem o milagre econômico da Ásia a mercados mais livres, ao passo que outros acreditam que intervenção estatal foi o fator decisivo (aqui, é óbvio que a intervenção estatal operou o milagre, uma vez que as políticas de “livre mercado” aplicadas pelo FMI, FED e investidores só fizeram quebrar os “tigres asiáticos”, senão vide Naomi Klein: “A pilhagem na Ásia e a queda do segundo Muro de Berlim” em A Doutrina do Choque, pg. 313) E a aceleração excessiva de crescimento, após algum tempo, perdeu impulso (“naturalmente”...).

Segundo o autor, os otimistas estão confiantes que dessa vez será diferente. Eles acreditam que as reformas da década de 1990 - melhor política macroeconômica, maior abertura e mais democracia - colocaram o mundo em desenvolvimento em curso de crescimento sustentado.

(Errado, foram as reações e a implementação de políticas anti-neoliberais CONTRA as reformas da década de 1990 ou, o “Consenso de Washington”, é que botaram os emergentes no mapa do desenvolvimento, quanto ao “mundo desenvolvido”, seu apocalipse começou precisamente após 1990).

Voltando a Rodrik: este observa que recente relatório do Citigroup, por exemplo, prevê que o crescimento será fácil para países pobres com populações jovens: “Mas minha leitura das evidências é mais cautelosa. É bom que políticas inflacionárias tenham sido extirpadas e a governança melhorado em grande parte do mundo em desenvolvimento. De modo geral, essas mudanças criaram uma resistência da economia a choques, evitando colapsos econômicos. Mas desencadear e sustentar crescimento rápido exige algo mais: políticas orientadas para a produção que estimulem mudanças estruturais e fomentem emprego em novas atividades econômicas. Crescimento baseado em afluxos de capital ou booms de commodities tendem

a ser de curta duração. Crescimento sustentado requer a elaboração de incentivos para encorajar investimentos do setor privado em novos setores - e fazê-lo com um mínimo de competência adequada.”

“A grande questão para a economia mundial é se os países avançados atolados em dificuldades econômicas serão capazes de abrir espaço para o rápido crescimento dos países em desenvolvimento cujo desempenho dependerá em larga medida de sua incursão em setores industriais e de serviços, onde os países ricos têm sido tradicionalmente dominantes. As consequências para o nível de emprego nos países avançados seriam problemáticas, especialmente tendo em conta a escassez de empregos com altos salários. Consideráveis conflitos sociais poderão tornar-se inevitáveis, colocando em risco o apoio político a aberturas econômicas. Em última instância, parece inevitável uma convergência maior na economia mundial pós-crise. Mas uma grande reversão na sorte dos países ricos e pobres não parece economicamente provável nem politicamente viável.”.  Ainda não.

De qualquer forma, a julgar pelo nosso autor – salvo a cautela e alguns erros obtusos (óbvios, devido ao seu ponto de vista harvardiano), devidamente apontados por esta colunista – os horizontes geopolíticos estão mudando. Sobretudo para nós, emergentes, e para melhor. Antes de tudo, é preciso acreditar em nós mesmos e não esquecer a norma histórica implacável: civilizações ascendem enquanto outras declinam. É fatal. E a julgar pela ficção hollywoodiana, o inconsciente político já indica o que vem por aí. E não é nada bom. Para eles.

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