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O espectro chinês ronda o macarthismo americano

 

No início de dezembro, o National Endowment for Democracy (NED), um think-thank destinado a financiar o modelo de democracia estadunidense e seus interesses, publicou um relatório chamado “Sharp Power”, analisando a influência sino-russa nos países em desenvolvimento. No capítulo sobre a América Latina, a nítida preocupação com a influência chinesa e sua interferência nos interesses americanos no continente – ou quintal, como se pensa por lá. Na região, ao contrário do investimento americano atual, predominantemente financista, a China investiu entre 2010 e 2016 cerca de 295 bilhões de reais.

O investimento chinês está concentrado no desenvolvimento produtivo, como o setor petroleiro e em mineração. Na Venezuela foram 28 bilhões de dólares na Faixa Petrolífera de Orinoco, no Brasil, empresas chinesas adquiriram 40% da espanhola Repsol e 30% da petroleira portuguesa GALP. Recentemente, a chinesa HNA adquiriu a concessão do aeroporto do Galeão (RJ), da Odebrecht, levada à quase insolvência pela Operação Lava Jato. No Peru, o consórcio MMG LTD adquiriu as minas de cobre Las Bambas. Isso tudo porque a América Latina não está contemplada pela OBOR, o que aumentaria ainda mais esses investimentos.

Nesta semana, Josh Rogin, colunista do The Washington Post, vocalizou a grita macarthista e acusou o senador Steve Daines de atuar como lobista chinês, citando um contrato de exportação de carne bovina do estado de Montana para a China no valor de 200 milhões de dólares, intermediado pelo senador. A influência chinesa ocorreria, nas palavras do jornalista, com a cooptação de influenciadores e stake-holders para promover a defesa do regime comunista. O argumento, entretanto, não vale para o lobby de Trump quando promoveu a venda de 300 aviões Boeing a empresas chinesas em sua visita ao país em novembro.

Para o macarthismo americano em versão 2.0, o crescimento e a expansão da influência chinesas são uma ameaça não apenas porque desafiam a supremacia dos interesses americanos, mas porque atualmente os EUA não podem nem querem reagir à crescente influência chinesa. Enquanto a China investe 1 trilhão de dólares na Ásia e na Europa, ironizou o jornalista David Ignatius, do blog PostPartisan, o governo ainda pode aprovar deformas e prosseguir desmontes, ocupa seu tempo protegendo empregos em minas de carvão e questionando a ciência climática.

De fato, os EUA não têm 1 trilhão de dólares para “pagar pra ver” diante do One Belt, One Road chinês, e a estratégia “America first” do presidente Trump está abrindo caminho para a influência de outros players globais, como a China e a Rússia. A retirada dos EUA via decreto do Acordo Transpacífico e a saída do país da Unesco são exemplos de como a política isolacionista dos EUA está abrindo espaço para a atuação de outros países.

O radicalismo ideológico vê esse cenário como uma conspiração chinesa, incapaz de encarar a própria incompetência de repensar o papel dos EUA em um mundo multipolar. Nesse mundo, a China dá sua resposta por meio do financiamento do desenvolvimento e da cooperação econômica, enquanto os EUA se fecham com Trump e os macarthistas 2.0.

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