Michel Temer, muito além do buraco e da escada

Do lado do Palácio do Planalto, há um estranho buraco com uma escada. O turista desavisado que por ali passa é capaz de achar que está diante de uma estação de metrô. Não, não é metrô. Apesar de o metrô de Buenos Aires existir desde 1913, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer não pensaram que bastaria abrir alguns túneis a mais no ermo em que construíram Brasília quase 50 anos depois. Talvez tivessem resolvido um dos maiores problemas urbanos da cidade que fizeram, a falta de bom transporte público, onde ônibus caindo aos pedaços e vans absurdas concorrem com uma média de dois carros por família, que não têm onde estacionar e entopem as ruas nos horários de rush.

O buraco com a escada em questão leva aos anexos do Palácio do Planalto. No terreno logo após o prédio no qual despacha a presidenta Dilma há uma ladeira. Assim, o palácio fica num nível, e os anexos em outro mais abaixo, daí a necessidade da escada. O curioso no projeto de Niemeyer foi ter construído o acesso aos anexos por fora do Planalto: é preciso sair de um prédio, andar alguns metros na calçada e descer a escada.

Depois da escada, entra-se numa imensidão de corredores e divisórias. Ao final de uma delas, encontra-se o gabinete do vice-presidente. Amplo, mas escondido, e um bocado longe do gabinete da Presidência da República. É ali que hoje fica Michel Temer, o ex-presidente da Câmara e comandante supremo do PMDB. “Fica” parece o termo mais correto. Porque trabalhar, pelo menos trabalhar para o governo, Temer tem se queixado de fazer pouco.

Pelo menos é o que ele tem dito aos demais integrantes da cúpula peemedebista. Segundo o relato de um desses peemedebistas, Temer reclama que Dilma tem lhe delegado pouquíssimas tarefas. Como ex-presidente da Câmara, Temer acha que poderia contribuir para melhorar o relacionamento de Dilma com sua base de sustentação, que não anda lá essas coisas desde a derrota no Código Florestal e das demissões no Ministério dos Transportes, que atingiram o PR em cheio. Mas Dilma, aparentemente, sequer cogitou pedir essa ajuda a Temer.

O vice-presidente, assim, tem buscado ele mesmo encontrar tarefas. Ele foi, por exemplo, até Dilma oferecer-se para ajudar o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, na discussão de diretrizes para o combate ao narcotráfico e ao consumo de drogas.

Não que os antecessores de Temer tivessem tarefas demais. Marco Maciel, vice de Fernando Henrique Cardoso, era a discrição em pessoa, fazia questão de desaparecer naquele gabinete escondido do anexo do Planalto. José Alencar, vice de Lula, ficava como uma espécie de consciência crítica do empresariado, bradando em vão contra a política econômica, que segurava a inflação aumentando os juros. Foi útil em algumas crises, como quando Lula o botou para ser ministro da Defesa, na falta de algum outro civil que os militares obedecessem e respeitassem.

O que muda, no caso, é que Temer queria bem mais do que isso. Temer é o principal engenheiro da obra que levou o PMDB a se tornar o maior parceiro eleitoral do PT na eleição de Dilma. Quando ele se tornou o presidente do partido, pegou um PMDB com uma divisão que parecia de anedota: sempre havia duas alas no partido, uma no governo e outra na oposição; quando mudava o governo, a ala antes oposicionista crescia, mas a ala que antes era governista continuava existindo. Em 1998, na convenção nacional do partido, a briga entre as correntes que pregavam a candidatura própria de Itamar Franco e as que defendiam apoio à reeleição de Fernando Henrique foi tão intensa que terminou com a porta do plenário da Câmara, onde a convenção foi realizada, arrebentada. Na primeira eleição de Lula, a situação ainda era assim. O próprio Temer comandou o apoio oficial a José Serra. Perdeu, rebaixou-se na relação com o governo, que evitava tratar com ele e dirigia-se a José Sarney e Renan Calheiros quando queria conversar com o PMDB. Mesmo amargando um período de ostracismo, Temer manteve-se na presidência do partido. Depois do mensalão, conseguiu voltar a ser interlocutor peemedebista junto ao governo e, aí, começou a costurar a aliança para a eleição de Dilma.

Acabou-se a divisão anedótica, e hoje o PMDB, com poucas exceções como Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos, está todo no governo. Como artífice disso, Temer esperava usufruir agora da situação.

Ocorre que Dilma, de acordo com uma fonte do Palácio do Planalto, não confia em Temer. Não quer delegar tarefas políticas a ele, porque desconfia que ele as levaria aos resultados que ele Temer, pretende, que não seriam exatamente os resultados desejados por ela.

A verdade é que, além dos desejos de Dilma, que parecem legítimos, de sanear um pouco o trato com a coisa pública, há também uma forte disputa de poder dentro do governo. É aquilo que, na campanha, José Dirceu deixou vazar em um encontro com sindicalistas. Sem a sombra carismática de Lula, o PT tem com Dilma a chance de crescer no poder como partido. E o PMDB, no projeto construído por Temer, tem ambições semelhantes: pretende ser um parceiro tão poderoso quanto o PFL foi na era Fernando Henrique. E Dilma, por sua vez, nem sempre satisfaz o desejo de ambos: nem do PT nem do PMDB.

É por isso que os petistas já ensaiaram as suas rebeldias. Quando elegeram Marco Maia (PT-RS) presidente da Câmara no lugar de Cândido Vaccarezza (PT-SP) e Rui Falcão como presidente do partido. E é também por isso que Dilma levou Glesi Hoffmann para a Casa Civil e Ideli Salvatti para as Relações Institucionais.  Na queda-de-braço política que se estabeleceu, Dilma opta pelo PT. Mas por um PT que seja dela, que não é exatamente o PT que a direção do partido gostaria. Por isso também, Temer fica meio isolado em seu gabinete, literalmente num plano inferior.

Finalmente, um último comentário: a cada dia, fica mais evidente que Dilma elegeu-se com uma arquitetura política, mas pretende governar com outra. Mais uma vez, vale a citação a Garrincha: ela combinou como os “russos”?

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