A revolta da catraca

A mecha foi uma causa justa expressa em uma reivindicação bisonha: a da gratuidade dos ônibus. O fósforo, um aumento de vinte centavos, em São Paulo. O combustível, uma repressão policial desproporcional e brutal com ampla repercussão na mídia e nas redes sociais.

O resultado, ontem, em várias cidades do Brasil foi uma mobilização massiva da juventude –predominantemente de classe média – que pelo número lembra a passeata dos cem mil, em 1968, as “diretas já”, em 1985, o “Abrace a Lagoa”, em 1986 e por aí vai. Há muito tempo não se via tanta gente nas ruas.

Uma mobilização dessas reflete um fenômeno de sociedade não evidente de véspera e de leitura difícil no ato. Produz uma grande exaltação, um orgasmo cívico, depois tende a decair deixando de herança uma nova geração militante que tenta dar alguma consequência política, organizativa ou até eleitoral à coisa, em geral com resultados aquém do esperado, naquele grande momento.

A violência associada ao processo, à do vandalismo e da truculência policial, é uma espécie de efeito colateral, a não ser que fuja ao controle completamente, o que, em geral, não costuma ocorrer com mobilizações majoritariamente de classe média, mas que pode acontecer se o movimento vier a se   alastrar  massivamente para o lumpesinato urbano ou for de alguma forma infiltrado por organizações criminosas.

Num certo aspecto, de fato, lembra 1968. Mas não o 68 daqui, mas o de Paris, em maio daquele ano. Aqui foi claramente uma revolta contra uma ditadura que reprimiu violentamente (“Sexta-feira sangrenta”), tolerou brevemente (“Cem mil”) e depois reprimiu de novo e de forma selvagem (AI-5). O tom final foi dado pela munição real e depois pelas câmaras de tortura.

Paris, em 68, começou em Nanterre e na Sorbonne com um tipo de revolta  contra um "mal de sociedade" e de cultura muito mais difuso. O presidente, general De Gaulle, conquanto autoritário não era um ditador, a situação econômica, sobretudo comparada à de hoje, era boa, praticamente o auge dos 30 anos gloriosos do pós-guerra que se encerrariam na crise do petróleo de 1973.

A França, ainda que governada pela direita, era um “Estado de bem-estar” mergulhado numa cultura conservadora onde a numerosa juventude, a geração dos baby boomers sentia-se oprimida na escola e em casa por uma onipresente e obtusa caretice.

A liderança visível, meu bom amigo Dany Cohn-Bendit, tendia para o “libertário”. Era um gênero de anarquista light que deu o tom na imprensa pelo seu talento de comunicador. Foi expulso da França (era cidadão alemão) e o movimento, já em descenso, acabou nas mãos de marxistas revolucionários (trotskistas) e marxistas-leninistas que durante os vinte anos seguintes nos seus inúmeros componentes grupusculares atomizados enquadraram a herança de maio.

Os ganhos palpáveis – aumentos salariais e avanços trabalhistas – foram do movimento sindical liderado pela CGT, dominada pelo Partido Comunista, que fora hostil aos estudantes mas pegou uma carona ao convocar  greve geral.

De Gaulle chegou a cogitar colocar o Exército na rua, fez uma visita secreta ao General Massu, que comandava as tropas francesas na Alemanha (eram tempos de guerra fria), mas logo desistiu. O movimento acabou se esvaindo por si só.

post-festum foi bastante rápido: uma manifestação de quase um milhão de pessoas na Av. Des Champs Elysées em apoio o velho presidente (que, no entanto, renunciaria no ano seguinte ao perder um referendo sobre um tema meio aleatório de ordenamento territorial).

Logo depois, em eleições antecipadas, deu-se a maior vitória da direita francesa em toda sua história, correspondendo a uma derrota arrasadora dos partidos de esquerda. A maioria eleitoral repudiou o maio de 68.

O movimento herdado de maio continuou a rebrotar nas ruas, periodicamente,  conduzido pela geração 68, nos anos 70 e 80 sem nunca mais alcançar aquele grau de efervescência e de participação.

Maio de 68 mudou pouco na política francesa e socialmente trouxe algumas vantagens trabalhistas depois consolidadas na era François Mitterand, nos anos 80. Aportou principalmente, de forma desdobrada no tempo, uma profunda mutação cultural e de costumes: na sexualidade, nas artes, na cultura de um modo geral.

Resultou também num grande individualismo que, hoje, muitos responsabilizam pelo que identificam como "erosão do civismo", dos "valores do trabalho" e, até, pela crise da previdência pelos efeitos da satisfação imediata de consumo e da aposentadoria precoce. Tornou-se moda – pouco convincente – culpar 68 penas mazelas da França de hoje.

Há algumas analogias entre aquele movimento e o que vivemos ontem no Brasil. Ausência de uma opressão aguda, de uma liderança unificadora, de uma causa ou plataforma coerente para além de um “mal estar” de sociedade. Um corte levemente libertário e utópico. Uma sensação dos partícipes de estar fazendo história e um olhar desconfiado da chamada maioria silenciosa.

Não estamos vivendo uma situação de desemprego em massa ou de arrocho salarial, muito menos de opressão política aguda, o que normalmente seriam consideradas – mas nem sempre resultam em – causas justas de revolta.

Vivemos talvez o final de uma era de bonança consumista (inflação?), certamente de decadência acentuada do establishment político, uma sensação de frustração e falta de uma liderança nacional inspiradora. Dilma, de certa forma, lembra as professoras e professores autoritários (e pais e mães)  contra os quais, primordialmente, iniciou-se a revolta de maio 68 nas escolas e nos lares. Muito embora ela própria seja da geração 68.

Aumento de vinte centavos dos ônibus, gastos com obras da Copa do Mundo e, claro, “a corrupção dos políticos”  e a violência policial são os alvos desse mal de sociedade, difuso, que  mobilizou algumas centenas de milhar em 11 cidades brasileiras. Há como fazer disso uma plataforma de ação minimamente consistente que mude algo na mobilidade urbana hegemonizada pelo modelo rodoviarista? Que mude algo na política institucional decadente? Na participação da sociedade na gestão dos seus problemas?

Essa pergunta permanecerá sem resposta durante um bom tempo. Passeatas não resolvem problemas. Elas sinalizam problemas e nem sempre com precisão. Os problemas são eventualmente solucionados pela energia e pela disposição que essas passeatas geraram permeadas pela revitalização das instituições que questionaram.

Outras vezes esses movimentos simplesmente se esvaem, não deixam lastro histórico nem avanço concreto relevante. Foi de certa forma o que ocorreu com o movimento dos “indignados” na Espanha. Consagrou a queda da social-democracia presa na armadilha da “austeridade” na zona do euro. Prenunciou uma grande vitória eleitoral da direita  que aprofundou essa “austeridade”, agravando o desemprego, sobretudo o jovem, para níveis simplesmente dantescos contra uma longínqua promessa de recuperação que tarda. Parte dos “indignados” está emigrando. Alguns foram trabalhar na Alemanha.

Qual a resultante dessa “primavera” do nosso outono, só Deus sabe. No entanto, se formos focar na causa primeira da mobilização, a crise da mobilidade urbana para além dos vinte centavos, haveria uma plataforma concreta que já apresentei e repito:

1 - ampliação do prazo dos bilhetes únicos intermodais e criação de um vale-transporte para trabalhadores da economia informal em certas condições e contrapartidas;

2 - levantamento e divulgação de planilhas das empresas de ônibus;

3 - uma campanha pela internet dando "notas" a cada ônibus, cada rota e cada empresa;

4 - ouvidoria para os serviços de ônibus com monitoramento dos mesmos em tempo real e possibilidade de intervenção rápida (um motorista que cometa uma barbaridade no trânsito ser imediatamente identificado e sancionado no ponto final);

5 - ampliação substancial dos sistemas cicloviários (particularmente SP onde há muito pouco e desconexo) e da oferta gratuita de bicicletas pagas pela publicidade;

6 - implantação da 'taxa de congestionamento' mediante um pedágio urbano eletrônico precificada também em relação ao padrão do veículo e suas emissões;

7 - fim de subsídios à indústria automobilística, mantendo-se apenas os concedidos a veículos elétricos e híbridos álcool-eletricidade.

Não incorporo a gratuidade dos ônibus não só porque é irrealista, economicamente,  mas porque é injusta socialmente. Os ricos e a classe média podem e devem pagar pelo transporte público que utilizam – e exigir qualidade – os pobres devem ter suas passagens subsidiadas em variados graus.

É possível que a prefeitura petista de São Paulo acabe, de fato, anulando os 20 centavos como forma de dar ao movimento uma vitória que o desmobilize. Provavelmente não vai adiantar, pois o gênio já está fora da garrafa...

Está na hora de enfrentar radicalmente o modelo rodoviarista e a hegemonia do automóvel nas nossas cidades. Mas quem pendurará o guiso no pescoço desse todo-poderoso felino?

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