Uma pomba-do-mato decola a partir da copa de um abacateiro

A iminência de uma guerra nuclear no Oriente Médio, a partir de Damasco. A Europa - como diz meu amigo Paulinho de Tharso - pronta para virar geléia. O colapso xavecando o quarto cavaleiro que roda bolsinha nas esquinas de Wall Street: já fizeram contato visual, e parece que vai rolar um programinha barra-pesada. Eu aqui, do alto dessa colina sem nenhuma vontade de dichavar listas nem de fazer qualquer tipo de associação, esgotado. Como se Damasco já tivesse ido - a minha foi - pro beleléu. Se tenho algum sentimento autêntico, é a inveja de mim mesmo, ou melhor: invejo aquilo que eu fui quando, na época em que eu era a bola da vez, me sabotei com tanto empenho e selvageria. Os suplementos culturais do país – jornais, revistas, tevês, Gabis & Gabrielas, etc – me acusavam de ser um gênio. Depois de passar a vida sendo tratado como um imbecil, nada mal. Embarquei. Foi bom. Foi ótimo. Só um imbecil ou um gênio de verdade para não vestir a carapuça. Conheci dezenas de pessoas em questão de poucos meses, fiz um milhão de amigos e passei a acreditar que, além de gênio, eu também devia ser um cara legal.

A função precípua de um gênio é realizar desejos. Fui cobrado. E aí descobriram que eu não era nem um gênio nem um imbecil. Me diverti um bocado, e não desperdicei a oportunidade de realizar meus desejos. Zoei demais. Somente sendo um filhodaputa – acredito nisso –, eu não perderia minha alma de uma vez por todas. Hoje estou sozinho. Dei de ombros para a genialidade que não me dizia respeito e, agora, depois de dez anos, percebo que fui muito inocente e ao mesmo tempo muito arrogante: apostei que o talento prevaleceria em detrimento do jogo sujo. Claro não.

Além do jogo sujo, o ramerrame de sempre e, da minha parte, a preguiça de acompanhar a história se repetir ao som de Chitãozinho & Xororó. Francisco de Assis voltou desiludido da Síria, Paulo de Tarso se converteu a caminho de Damasco. Eu sei que a roda do mundo vai girar, talvez gire a partir de uma hecatombe. Se eu fosse um megalômano diria que contribuí significativamente para colocar mais um graveto de lenha nesse reator nuclear, como não é 100% o caso, deponho a favor da vida depois da morte, e acredito na vida antes da morte também. Otimista ? Sei lá, eu escrevi meus livros. E chamo a lição de casa de vingança.

Cheguei onde queria. À guisa de testamento e roupa suja lavada em público, queria pedir desculpas aos inocentes que destruí no meio do caminho, aos filhosdaputa, porém, aos que mereceram, eu os destruiria e os amaria irrestritamente se fosse o caso, outras mil vezes, portanto fodam-se. O balanço é um desastre, vá lá, mas eu fiz a coisa que devia ser feita, My Way numa versão – muitas vezes – redondamente enganada. Arrependimento nenhum. Assino embaixo de todos os minutos que permaneci pasmo, pelo transe e pelo tesão viveria tudo outra vez.

Um muro de diamantes coberto de ervas daninhas, e daí? Quando rezo o Pai Nosso – difícil me livrar dessa mania –, não me atenho mais ao esforço sobrenatural de perdoar nem de ser perdoado, às vezes não consigo passar daquele trecho que diz para ser feita a vontade Dele, assim na terra como no céu. Ou seja. Aguardo. Persisto na espera, e assimilo apenas a parte mais dolorida da lição. Perdi? Se perdi, foi porque voltei para casa de mãos abanando e braços abertos. Não encontrei a garotinha de olhos tristes e amendoados que chorava por mim na porta da escola. Vou fazer de conta que ela é o bem que vai me cobrir e me enterrar junto às outras maldições, e desse modo me reconciliarei com os quarenta e seis anos que a esperei. A verdade, filha, é que não floresci. Escolhi ser o pesticida, e você naturalmente não vingou, eu bem que tentei, mesmo sabendo que minha vocação era o deserto, acreditei que podia fertilizar, se não fosse assim, sucumbiria ao meu próprio veneno e não conseguiria sequer enganar a mim mesmo, e isso, enganar a si mesmo e à distinta platéia, ao menos nisso, logrei êxito, meus poucos leitores são testemunhas dos engodos que, desde meu primeiro livro, eu empenhei como se fossem a última vez. Dessa vez é.

Depois de tudo – vejam só –, o máximo que consegui foi chegar até o alto dessa colina e pedir pelo amor de Deus. Ah, daqui de cima eu vislumbro o desastre que foi minha vida. Talvez tenha valido a pena. Quem disse que uma vida não valeu a pena somente porque não deu certo? Daqui de cima a vista é magnífica, o ar é puro e quando eu gritar pelo amor de Deus pela última vez, tenho certeza que uma pomba-do-mato vai decolar a partir da copa de um abacateiro. Deixo os direitos autorais dos meus livros para a Apae. Não tenho mais nada a dizer nem coisa alguma a acrescentar. Ninguém ia dar bola mesmo. Iguais a eles, têm mais de milhão. Iguais a mim, nem tanto.

Qual a diferença entre um sujeito se jogar dentro de um caminhão de lixo (Sergio Leone, Era uma Vez na América), e um xarope esperar a próxima pomba-do-mato decolar a partir da copa de um abacateiro?

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