Uma coisa é interesse público. Outra, é populismo

"Sem base parlamentar organizada, a saída que o capitão vem encontrando é o apelo direto e emocional às massas populares, sem intermediação de partidos ou corporações"

“O povo sabe o que quer / Mas o povo também quer o que não sabe”, cantou um dia Gilberto Gil. E sintetizou uma verdade que anda fazendo falta ao governo Bolsonaro, que confunde propositalmente interesse público com populismo. Trata-se de uma manobra altamente perigosa porque a sintonia com o interesse público significa agir de acordo com o que mais pode trazer bem-estar para a população – inclusive às vezes adotando medidas impopulares, mas necessárias. Já o populismo é a ação política com claro interesse em manipular ou agradar a massa popular, com exclusiva finalidade a conquista, manutenção ou ampliação do poder político. É o que o capitão tem feito a torto e a direito.

Numa retrospectiva do governo Bolsonaro é possível verificar que, sem base parlamentar organizada (ou desorganizada, ou seja, sem base alguma), a saída que o capitão vem encontrando é o apelo direto e emocional às massas populares, sem intermediação de partidos ou corporações, como sindicatos e associações. E a adoção de medidas de cunho puramente demagógico, às vezes sob o argumento de que apenas está “cumprindo promessa de campanha”. Outras, pura e simplesmente tentando agradar setores cujo apoio é mais facilmente cooptável.

O resultado é explosivo. E a conta desse comportamento que, ao fim e ao cabo é apenas demagógico e irresponsável, mais dia menos dia será apresentada. E nós é que teremos de pagá-la. Os fatos falam por si. Vamos a eles.

Arma o povo e lava as mãos

Do início do governo - se é que se pode chamar isto aí de governo - até os dias de hoje, fora as tumultuadas e irrefletidas reformas da previdência e da segurança, todos os demais atos emanados do palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios têm como única finalidade fazer afagos a esse ou aquele agrupamento social ou profissional, sem atenção às nefandas consequências que deles advirão. Seja para manter os votos depositados nas urnas, seja para tentar agregar novos apoios.

O primeiro e de maior atoarda foi o decreto das armas. Com ele, Bolsonaro falou para dentro – dos quartéis, das corporações policiais e, valha-nos Deus!, até mesmo das milícias com as quais seu governo tem nítidas e comprovadas ligações. (Um seu filho chegou a condecorar um miliciano condenado. É pouco ou quer mais?) Ao mesmo tempo, de forma irresponsável e demagógica, tenta isentar-se da responsabilidade constitucional de assegurar a segurança da população, deixando nas mãos dos próprios cidadãos, totalmente despreparados para tal tarefa, o trabalho de enfrentar a bandidagem de armas nas mãos.

A política do faroeste caboclo

O decreto dos cortes na educação, inicialmente sob o argumento ridículo de que as universidades e outras instituições superiores estariam fazendo “balbúrdia”, rapidamente revelou sua verdadeira intenção: dar um coice na área de inteligência onde mais se concentra a oposição ao pensamento de extrema-direita de seu governo. Ou seja, o corte, que depois veio ampliado sob a esfarrapada desculpa de economia de recursos, na verdade teve um único endereço: dar um presente aos extremistas que ofereceram apoio para a chegada do capitão ao Palácio do Planalto.

O projeto de reforma nas leis de trânsito, por sua vez, completa o trio dos atos encharcados da mais descarada demagogia. O objetivo é, nada mais nada menos, o de abrir o sinal verde para quem gosta de avançar o sinal vermelho, com a flexibilização da regra de segurança baseada no limite de velocidade. E deixar ao arbítrio do condutor a segurança das crianças, com a flexibilização na cobrança do uso da cadeirinha, medida adotada no mundo inteiro. Tudo em nome do combate a uma tal de “indústria das multas”, desculpa sempre levantada pelos que defendem para si o direito de usar o duplo zero – a licença para matar inventada por Ian Fleming quando criou James Bond, o agente 007.

Pode não saber dizer, mas sabe o que quer

Os acólitos do capitão idiotamente aplaudem tais medidas, por contemplarem as reivindicações de quem pouco ou nada se preocupa com a preservação da vida – o decreto das armas e o projeto da mudança nas leis de trânsito. E a construção do futuro – o corte das verbas da educação superior.

O povo sabe o que quer, sim. Quer segurança. Mas a dona-de-casa não quer ter de empunhar uma arma para enfrentar os bandidos num assalto à sua casa e assim garantir sua segurança. Nem quer o relaxamento geral das regras de trânsito porque sabe que isso põe em risco a sua vida e a vida de sua família. Nem quer a redução das verbas da educação porque sonha com uma boa formação para os filhos. E sabe que essa formação depende de investimentos por parte do governo.

“O povo sabe o que quer. Mas também quer o que não sabe”. Não sabe verbalizar, mas não quer nada que venha se voltar mais à frente contra sua própria vida, contra seu próprio futuro.

Para pensar:

A deputada federal Christiane Yared indagou outro dia da tribuna: "Eu não sei o valor de uma cadeirinha. Sei quanto custa um caixão, eu paguei o caixão do meu filho”. A deputada é do PL do Paraná, aliada do presidente.

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