Tributo a Hobsbawn – por quem os sinos dobram

Esta colunista não podia deixar de prestar sua homenagem a Eric Hobsbawm, morto aos 95 anos, esta semana, em Londres, tantas vezes me reportei e citei seus textos e idéias ao longo dos seis anos que escrevo no Congresso em Foco. E, no caso, nada mais oportuno que me inspirar na resenha escrita pelo jornalista Terry Eagleton na London Review of Books, sobre seu último livro, publicado em 2011, “How to Change the Word: Marx and Marxism 1840-2011”, uma espécie de suma, de resumo do pensamento deste historiador socialista e humanista - o que comprova a constância e a persistência de suas atividades e quanto foi prolífera sua obra mesmo em idade tão avançada.

Nessa coletânea de ensaios, Hobsbawm lembra que não foi o colapso do bloco soviético que levou os comunistas mais fiéis a relegar à lixeira os cartazes de Guevara. O fato é que o marxismo já estava em pedaços muito antes da queda do muro de Berlim. Uma das razões da débâcle foi que o tradicional agente das revoluções marxistas – a classe trabalhadora – havia sido varrida do mapa devido às mudanças do sistema capitalista. Contudo, se o proletariado industrial encolheu, por outro lado Marx jamais disse que a classe trabalhadora fosse composta só de proletários da indústria.

Em Das Kapital, os trabalhadores do comércio aparecem no mesmo nível que os trabalhadores da indústria. Marx também sabia que o maior grupo de trabalhadores assalariados de seu tempo não eram os da indústria, mas os empregados domésticos, a maioria dos quais, mulheres. Marx e seus discípulos jamais supuseram que alguma classe trabalhadora pudesse avançar sozinha, sem construir alianças com outros grupos oprimidos. E, embora o proletariado industrial devesse ter papel de liderança, nada permite supor que Marx imaginasse constituir uma maioria para desempenhar seu papel.

Mas algo novo aconteceu entre 1976 e 1986. Acossada por uma crise de lucros, a produção de massa à moda antiga deu lugar à produção em menor escala, mais versátil, descentralizada e pós-industrial; a uma cultura “pós-industrial”’ de consumo, de tecnologia da informação e de serviços. A terceirização e a globalização tornaram-se a nova ordem do dia.

Mas isso não implicou em mudança essencial no sistema: só levou a geração de 1968 a trocar Gramsci e Marcuse por Said e Spivak. Ao contrário, o sistema estava então mais poderoso que nunca, com a riqueza ainda mais concentrada em poucas mãos e as desigualdades de classe crescendo rapidamente. Ironicamente, em razão disso, as esquerdas se lançaram em busca de saídas mais rápidas e mais fáceis, acomodatícias. Assim degradadas, as ideias radicais pareciam cada vez mais implausíveis. Segundo Hobsbawm, a única figura pública que denunciou o capitalismo nos últimos 25 anos foi o Papa João Paulo II. Duas ou três décadas depois, os covardes e fracos de coração assistiram à glória de um sistema tão exultante e inexpugnável, ao qual bastava manter em funcionamento os caixas eletrônicos do planeta.

Eric Hobsbawm, que nasceu no ano da Revolução Bolchevique, permaneceu amplamente comprometido com o campo marxista – fato que se deve destacar, porque, porque em seu livro, tal compromisso não é percebido, até pela consistência do saber do autor, que conviveu com tantas das turbulências históricas sobre as quais discorre com uma visão desapaixonada. Seria difícil conceber outro crítico do marxismo tão competente a ponto de refletir sobre suas crenças com tanta imparcialidade e equilíbrio. Hobsbawm, é claro, não tem a onisciência do Espírito-do-mundo hegeliano, apesar do saber cosmopolita e enciclopédico. Ele também pensa que Gramsci é o mais original pensador do ocidente pós-1917. Talvez queira dizer “o mais original pensador marxista”, mas isso também não fica claro. Walter Benjamin, com certeza, seria o candidato mais bem qualificado neste setor. O fato é que até os mais eruditos estudiosos de marxismo têm muito a aprender nesses ensaios.

Como Hobsbawm teria dito: houve revoluções praticamente sem derramamento de sangue e processos de reforma social horrivelmente sanguinários (do que o Brasil e toda a América do Sul são exemplares).

Assim como Edmund Wilson (1), EH reconhece em Engels (na obra “The Condition of the Working Class in England”) o pioneiro e o primeiro entre todos a abordar a classe trabalhadora sistematicamente. Na opinião de Hobsbawm, a análise que ali se faz do impacto social do capitalismo ainda não foi superada em vários aspectos. O livro não pinta seu objeto com cores suaves, mas a ideia de que todos os trabalhadores fossem famintos ou vivessem em miséria absoluta, ou que jamais ultrapassariam a linha da sobrevivência, não tem qualquer fundamento.

Marx antevia como inevitável a vitória do socialismo? Sim, como se lê no Manifesto Comunista, mas Hobsbawm não concorda que seja documento determinista. Isso porque ele não discute o tipo de inevitabilidade que estaria em questão. Marx escreve como se as tendências históricas fossem forças da natureza e operassem como as leis naturais; mas, ainda assim, nada explica porque, depois do capitalismo, viria o socialismo como resultado lógico. Se o socialismo é historicamente predeterminado, por que tanto empenho na luta política? A explicação está em que Marx esperava que o capitalismo se tornasse cada vez mais explorador e que a classe trabalhadora cresceria muito, em poder, em números e em experiência acumulada. Nesse quadro, os homens e mulheres trabalhadores, satisfatoriamente racionais, rapidamente encontrariam todos os motivos necessários para levantar-se contra seus opressores.

A verdade é que não se pode falar sobre o que homens e mulheres livres seriam obrigados a fazer em dadas circunstâncias, porque, se são obrigados a fazer, seja o que for, não são livres.

É possível que o capitalismo esteja nas últimas, à beira da ruína, mas nada assegura que, depois dele, venha o socialismo. Pode vir algum tipo de fascismo ou a própria barbárie. Hobsbawm nos lembra uma frase curta, mas muito significativa do Manifesto Comunista: o capitalismo, escreve Marx sinistramente, pode terminar “na ruína comum das classes concorrentes”. Não se deve descartar a possibilidade de que o único socialismo que talvez venhamos a conhecer será imposto por circunstâncias materiais, depois de uma catástrofe nuclear ou ecológica.

Como outros crentes do progresso infinito no século 19, Marx não considera a possibilidade do engenho humano avançar tanto no campo da tecnologia, que acabe por se autodestruir. Aí está uma das várias vias pelas quais se pode demonstrar que o socialismo não é historicamente inevitável, como de fato nada é. Marx não viveu o suficiente para ver como a democracia social consegue subornar qualquer paixão revolucionária.

Para EH, o que Marx tinha a dizer não era exatamente verdade, mas viria a ser, digamos, à altura do ano 2000, resultado da transformação operada pelo capitalismo. O ensaio de Hobsbawm sobre o Manifesto comenta “sua eloquência obscura e lacônica”, notando que, como retórica política, “ele tem força quase bíblica”. O Manifesto inaugurou um novo gênero, de que se serviram artistas como Futuristas e Surrealistas, cujo vocabulário audacioso e hipérboles fizeram obras de arte dos próprios manifestos. Aliás, o gênero literário “manifesto” é uma mistura de teoria e retórica, de fato e ficção, programático e performativo.

Nos anos 1840s, argumenta Hobsbawm, não era de modo algum improvável concluir que a sociedade estivesse às portas da revolução. Improvável, isso sim, seria a ideia de que, em meia dúzia de décadas a política da Europa capitalista estaria transformada. Mas a maioria desses críticos teria rejeitado a ideia marxista de que o pensamento humano é muitas vezes modelado e curvado, pela pressão de interesses políticos, fenômeno que atende pelo nome de “ideologia”. Só recentemente o marxismo voltou à agenda planetária, metido ali, ironicamente, por um capitalismo agonizante. Afinal, quando os capitalistas começam a falar sobre o capitalismo, você pode apostar: o sistema entrou em estado crítico.

Há muito mais a admirar em How to Change the World (Como mudar o mundo). Hobsbawm mostra uma simpatia moderada pelo pessoal de 1968, o que não surpreende num eterno membro do Partido Comunista. “Mas se algum pensador deixou marca visível no século 20”, diz Hobsbawm, “foi Marx”. Setenta anos depois de sua morte, para o bem ou para o mal, um terço da humanidade vivia sob regimes políticos inspirados por seu pensamento. Mais de 20% continuam a viver. O socialismo foi descrito como o maior movimento de reforma da história da humanidade.

Poucos intelectuais mudaram o mundo de modo tão definitivo como Marx. Algo mais para estadistas, cientistas e generais, não para filósofos ou teóricos da política. “Os únicos pensadores individualmente identificáveis que alcançaram status comparável”, escreve Hobsbawm “são os fundadores das grandes religiões do passado. Com exceção de Maomé, nenhum deles triunfou tão rapidamente, nem em escala comparável”. Mas poucos, Hobsbawm destaca, previram que seriam tão célebres igualmente pela miséria extrema e pelo exílio de judeu atormentado por furúnculos, um Marx que observou um dia, falando de si próprio, que ninguém jamais escrevera tanto sobre dinheiro, nem vivera com menos do que ele.

How to Change the World é o trabalho dum homem que chegou à idade em que a maioria se dá por feliz se conseguir levantar da poltrona sem apoio de enfermeiras ou parentes. Morto, este consumado mestre da pesquisa histórica vai fazer falta. Razão pela qual sua morte me diminui, diminui a todos.

Então, parafraseando John Donne: “Por isso não me perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”.

(1)In “Rumo à Estação Finlândia”

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