Touché, Élora

“O atleta, apesar de ser muito forte, é muito frágil. É muito fácil derrubar um atleta no Brasil.” (Élora Pattaro)

“Meu nome é Élora, eu sou atleta de esgrima, e eu estou – pelo menos eu estava – na equipe que está se preparando para as Olimpíadas Rio 2016. Estou saindo da equipe, porque cheguei a um ponto em que me vi completamente sem ajuda, sem patrocínio. A confederação cortou minhas competições – eu acho que, em grande parte, porque eu me uni ao movimento dos atletas de esgrima para pedir um pouco mais de transparência, porque a gente não estava entendendo como a verba estava sendo investida. Infelizmente, ele não quiseram nos dizer como está sendo usado esse dinheiro.”

O leitor está diante da apresentação em que Élora Ugo Pattaro, esgrimista de 29 anos, mostra como somos um país de meia tigela quando se trata gestão, respeito ao patrimônio nacional, aos atletas, à decência. Quando se trata (da falta) de vergonha na cara, em suma. Teremos Olimpíadas no Rio de Janeiro, no ano que vem, mas há muito deixamos de ter caráter. Um dia tivemos?

 

 

É claro, o escrevedor destas linhas está em franca generalização, e o que mais há é gente bacana, decente, de bem, neste país tropical. Mas a causa é nobre. Foi devido ao vídeo em que Élora desabafa sobre o que a faz sentir “vergonha de competir pelo Brasil” – a corrupção também no esporte – que resolvi deixar loas e metalinguagem de lado e, neste Dia Internacional da Mulher, deixar que nossa corajosa atleta nos encha os olhos, e ouvidos, e alma. Neste oitavo ano consecutivo em que escrevo, aqui no Congresso em Foco, sobre e para a razão de minha vida, Élora deu o tom de uma poesia amargurada, e por isso mesmo ainda mais bela.

“A corrupção chega na gente, não tem como evitar. A gente acha que são só os grandes escândalos no Brasil, mas isso afeta todas as camadas [...]. É muito triste o ponto a que a gente chegou no Brasil com a corrupção”, declarou, e não estava a falar sobre a famigerada lista da Operação Lava Jato. “Eu amo o Brasil, mas a grande verdade é que eu tenho vergonha de competir pelo Brasil.”

Não vou permitir que as denúncias da moça se sobreponham à intenção dessas linhas – a auto-homenagem é cotidiana, e o que tenho feito anualmente, nesta coluna, é apenas amor de homem para mulher. Não vou investigar o tipo de corrupção a que Élora faz referência, embora tenda a acreditar – piamente – no que foi dito. Até porque já competi, e vi de perto o que ela relatou. Não é o caso, aqui, fomentar a polêmica em busca de cliques (aliás, nunca será). Trata-se da Mulher, com m maiúsculo, e o filmete que me pôs no rumo deste texto. Nos vemos depois do vídeo-ode.

 

Élora começou na esgrima aos 13 anos. Foi vice-campeã mundial, categoria cadete, em 2003, mas no vídeo diz que não é competidora “top”, a ponto de vencer os jogos olímpicos do Rio, por exemplo – já venceu, porém, nos quesitos franqueza e humildade. Depois de participar das Olimpíadas de Atenas, em 2004, deu uma pausa no esporte. Voltou aos treinos em 2009. Mas não aguentou a safadeza alheia. Como também não a suporto, dei ouvidos a Élora neste sábado (7), véspera do dia-mor, e fiz uma não-entrevista que me deu uma felicidade docemente clandestina (veja o essencial da conversa na transcrição abaixo).

“As confederações deveriam ser eleitas pelos atletas, e não do jeito que é feito atualmente, que dá abertura para todo tipo de abuso. Não é de hoje que isso acontece”, disse-me a espadachim valente, sugerindo minha próxima pauta no Congresso.

Se o vídeo serviu para a busca de um caminho limpo, por parte de quem parece estar sujo? “Ninguém veio falar comigo. Não tive qualquer comunicação direta”, lamentou, acrescentando que o único contato foi feito por uma emissora de rádio, que sugeriu-lhe a ideia de fazer um “cara a cara” ao vivo e em rede nacional com o presidente da Confederação Brasileira de Esgrima. “Achei meio estranho...”

Bem, eu não chorei ao assistir ao vídeo de Élora, ao contrário da colunista da Folha de S.Paulo Mariliz Pereira Jorge (tenho chorado menos do que gostaria, aliás; quase todo tipo de lágrima me alenta). No artigo “Vergonha de competir pelo Brasil”, Mariliz abre seu – importantíssimo – texto dizendo que o fez. Deve tê-lo feito em meio a um misto de sensações indizíveis.

“Élora não tem culpa de ter se dado bem com um sabre (mais leve das armas de esgrima). Ela também não tem culpa de ter nascido no Brasil. Élora não tem culpa de nada, mas está sendo penalizada por tudo isso. Por ser esgrimista num país como o Brasil. Aqui quem vence vira herói. Tem que ser herói mesmo para não desistir. Sinto pena de Élora e de tantos outros que se perdem por falta de apoio do governo, de patrocínio das empresas, por causa de gente bandida que mete no bolso o escasso dinheiro que deveria servir ao esporte”, bradou Mariliz, estendendo a mim o nó na garganta. Tinha que ser mulher.

Arquivo pessoal
Mas discordo da colunista num ponto: Élora tem culpa de algo. A culpa por este texto é sua, querida guerreira. A propósito, obrigado por achar um tempinho no paraíso apenas para me dar o agrado dos dois dedos de prosa. Oferecer-te-ia versos, mas você o fez antes. Em seu dia, o presente é nosso.

Não é uma entrevista, mas um delicioso papo matinal de sábado. Leia:

Eu: Este texto é publicado pelo oito ano consecutivo...

Élora (que mais parecia a entrevistadora, tamanho o interesse na conversa e, inicialmente, o monossilabismo): Legal...

Em seu vídeo, você fala de duas coisas que eu faço: esporte e denúncia. Ontem, aliás, ficamos até tarde no Supremo Tribunal Federal, às voltas com a tal lista do petrolão...

Meu vídeo tem ligação com tudo o que está acontecendo, na real. É o cúmulo que isso [corrupção] chegue no esporte!

E a decisão de não participar dos jogos olímpicos do ano que vem? Difícil?

Difícil sempre é, né? Foi um processo, na verdade, de frustração com o que estava ocorrendo, com as coisas que eu percebi. Fui guardando todas essas coisas. Ao longo dos anos, fui percebendo o que estava acontecendo. Nossa posição de atleta é muito vulnerável, muito difícil, não temos a quem recorrer. Do jeito que a confederação deixa a entender as coisas, os atletas têm medo – não pode vazar informação, senão todo mundo vai perder o apoio. É um jeito de manipular a gente para ninguém saber o que está acontecendo.

Vi isso aqui em Brasília, em uma competição... Mas sua decisão é irreversível?

Olha... Sim. Por tudo o que coloquei no vídeo, não quero mais [competir pelo Brasil]. Fiquei revoltada com tudo o que vivi, que eu vi. A não ser que tenha uma mudança muito significativa, eu não quero mesmo.

Pois é... Mas eu fiquei muito feliz quando vi seu vídeo. Estava pensando em outra abordagem para este texto, mas seu vídeo mudou tudo! Você fala de uma forma muito firme, franca...

Com sinceridade. É o que toca as pessoas, é o que elas precisam ouvir. Dá para falar a verdade, fazer as coisas de um jeito certo. Acho que precisa alguém, sei lá, dar um empurrãozinho para as pessoas começarem a se mexer.

Você é mulher, uma atleta nacionalmente importante, e seu vídeo é muito pertinente nesta semana da mulher. Tomara que inspire muitas mulheres a fazerem o mesmo.

Assim espero. A gente precisa de gente se manifestando. Senão nada nunca muda. Mas eu fiquei muito estressada depois que rolou esse vídeo, e começou a ter muita repercussão. Me senti com muita responsabilidade, e tentei evitar ficar vendo muita notícia. Pouco contato com jornalista, para não me expor muito, porque essa não é a ideia. Eu dei o meu recado, já, né?

Queria que você também desse seu recado neste dia especial. Sei que isso é meio clichê, mas queria que você dissesse como é ser mulher e esportista no Brasil.

A mulher vem ganhando muito respeito em todas as áreas. Acho que cabe à mulher brasileira se afirmar mais, porque o espaço está aberto. Acho que a mulher conseguindo se afirmar, tendo a autoconfiança de não depender de homens, ou não achar que precisa de homens para fazer as coisas, muito vai acontecer, muito vai mudar. A gente precisa da visão feminina em uma porção de áreas, porque o jeito de lidar com as pessoas é diferente, tem uma preocupação maior com as pessoas, com as relações. E não com interesses, que, em geral, é o que deixa sujar o esporte. Sei lá... No próprio caso de nossa confederação, são pessoas que não têm amor pelo esporte, não estão interessadas nem no esporte nem nos atletas. Minha visão é que a mulher tende a dar mais valor, e a gente precisa muito disso para conseguir mudar as coisas, o jeito com que as coisas são feitas.

Onde é que eu assino?

(risos) Agora mesmo, no almoço, eu estava vendo – não sei qual foi o programa – a lista dos investigados da Lava Jato, e reparei: só tem homem, né? (risos)Três mulheres...Pois é, deputado, senador, tudo homem, sempre homem. Gente, pelo amor de Deus... Precisamos de menos gente brigando pelas coisas...

Olha, Élora. Eu sou um homem que honra nosso gênero, viu? Esteja certa disso.

(risos) Pois é. Tudo está muito distorcido. Precisamos de um feminino para dar uma equilibrada.

Também acho, mas eu sou suspeito para falar – o Dia Internacional da Mulher, aliás, é 8 de março, e meu aniversário é no dia seguinte. É uma época especial...

Meus parabéns! (risos) Que legal!

Eu entendo o papel do homem e da mulher, porque é o mesmo: sermos felizes e fazermos o bem. E ponto final.

É... Mas está precisando haver uma equilibrada, as mulheres precisam se levantar mais. A energia masculina é muito legal, mas acho que ela está tão exagerada que acaba distorcendo demais a maneira como as coisas são feitas.

A energia masculina precisa da feminina. E vice-versa.

Exatamente.

A gente vive nessa sociedade ridiculamente machista, e a maioria dos países do mundo também é assim. Uma pena. O mundo seria muito melhor se não fosse assim.

É. E as mulheres não podem ter medo de se expor, pois a mulher tem uma força muito grande. Quando ela fala as coisas vindo da alma, não tem como não ouvir. Acho que é, um pouco, o caso desse vídeo, porque veio da alma, mesmo, o que eu disse. Eu sei que representa muita gente, por isso que eu disse. Acho que muitas outras mulheres precisam fazer isso, também. Que se exponham, falem!

P.s.: não tem verso, mas tem música. Como em todos os anos. Neste, Raveonettes. Apenas. E palmas para a baixista/vocal, Sharin Foo.

http://youtu.be/Akl3k1kcPvY

 

P.s.2 (pra quem tem paciência):

Mulher com H (2014)

O azul onírico do plenário em verso e Rosa (2013)

A mulher quando as ruas eram de fogo (2012)

Mulher, a auto-homenagem (2011)

Sobre Iemanjá, Clarice e a “menina do pedido de criança” (as três marias) (2010)

Mais flores em vocês (2009)

Flores em vocês (2008)

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