Temer e o dilema entre ser governo e o impeachment

O vice-presidente Michel Temer é a síntese do dilema que vive o PMDB. Na manhã desta quarta-feira (23), ele avisou a senadores e ministros do partido que tinha cancelado a sua participação, no próximo dia 29, em um seminário acadêmico a ser realizado em Lisboa. O evento é promovido pelo Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), entidade idealizada pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A razão da suspensão da viagem era a reunião do diretório nacional do partido marcada para o mesmo dia do compromisso em Portugal, em que a legenda decidirá se fica ou não no governo, e se apoia ou não o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. À tarde, Temer mudou novamente de ideia e anunciou que manterá a viagem, para evitar constrangimento.

Temer está sob pressão. De um lado, seu principal assessor, o ex-ministro da Aviação Civil Eliseu Padilha, corre com as articulações pró-impeachment da presidente junto com parte da bancada de deputados e o presidente da Fundação Ulisses Guimarães, Moreira Franco. Do outro, os ministros da Saúde, deputado Marcelo Castro; da Ciência e Tecnologia, deputado Celso Pansera; e dos Portos, Hélder Barbalho, avisam que são contra o desembarque do partido do governo e rejeitam o impeachment. Temer passou o dia conversando com esses dois grupos. Vai à viagem a Portugal e ninguém na cúpula do partido sabe ainda se a reunião do diretório nacional será mesmo mantida no dia 29.

Na convenção nacional realizada no último dia 12, o partido tinha decidido conceder prazo de um mês para que os ministros da legenda entreguem seus cargos e proibiu que qualquer filiado ocupasse novos postos. Mas isso não impediu que o secretário-geral do partido, o deputado Mauro Lopes (MG), assumisse o ministério da Aviação Civil. Lopes esteve ameaçado de expulsão pela comissão de ética da legenda, mas Temer destituiu a relatora do caso e engavetou, por enquanto, a polêmica.

Mas criou novo impasse um telegrama de outro assessor de Temer, o ex-deputado Rocha Loures, enviado nesta quarta-feira (23) antecipando a data da reunião do diretório para o dia 29, para definir se o partido fica ou deixa o governo. O líder da legenda no Senado, Eunício Oliveira (CE), é contra a mudança na data. Alega que a manobra divide o partido em um momento de maior crise. Eunício também esteve com Temer e confessou sua preocupação com a polêmica interna. Outro que teve com Temer foi o senador Jader Barbalho (PMDB-PA), pai do ministro Hélder. Reiterou a Temer ser contra a mudança na data da reunião do diretório e também contra o impeachment e a favor da permanência da legenda no governo.

Os dois setores do partido se distanciam a cada turno. Há deputados de oposição que pretendem expulsar colegas e dirigentes da legenda que se rebelem contra uma provável decisão do diretório de exigir o desembarque do governo. A pressão sobre Temer, presidente nacional da sigla, vai aumentar. O presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), já disse que não vê razões técnicas para o impeachment e defende a manutenção do apoio político a Dilma. O clima no PMDB não está tranquilo nem favorável.

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