Sobrevivendo à covid-19 e ao pior dos desgovernos

Estamos em rota para nos tornarmos os campeões do mundo da pandemia. Com uma subnotificação de casos e óbitos muito significativa já deixamos para trás – escrevo nos primeiros dias de junho - a marca dos 34 mil. Nossa curva é fortemente ascendente,  longe da estabilização. Inevitavelmente vai se acentuar com o fim de boa parte das medidas impostas por prefeituras e governos de estado.

Isso é agravado pelo descalabro presidencial. Bolsonaro é de todos o chefes de estado do mundo o maior aliado do vírus. A rigor, dentre muitos incompetentes e lentos temos apenas três realmente negacionistas: Bolsonaro, Alexander Lukashenko (Belarus) e Donald Trump. E ele. Ele é o pior deles. Trump começou dizendo que era uma gripezinha à toa, multiplicou trapalhadas diversas, não traçou uma estratégia nacional coerente, por vezes ouvindo e por vezes ignorando seu conselho científico – pelo menos tem um com cientistas respeitados. Virou garoto propaganda da Cloroquina. Lukashenko propôs soluções mais simples: vodka e sauna.

Bolsonaro os deixou para trás. Numa reunião ministerial falou em armar o povo para resistir às prefeituras e governos do estado, multiplicou happenings onde, além do fechamento do STF, do Congresso e do novo AI – 5, deu o exemplo para dezenas de milhões de pessoas sobre como se comportar face à gripezinha, todos juntos e misturados.

Demitiu por pura ciumeira um ministro da Saúde que tentava fazer algo, fez o substituto sair em menos de um mês e agora tornou-se ministro por pessoa interposta. Tendo como ponto principal da agenda promover a Cloroquina, remédio que não funciona e pode fazer mal, e promove o “liberou geral” que veremos em efeito nos próximos dias. O exemplo vem de cima.

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Milhares mais morrerão. Nos países que estão flexibilizando o isolamento social – após o pico nacional ou regionais - há uma estratégia que passa por forte indução comportamental, abertura escalonada e outros cuidados. Aqui, estados e municípios tentam o mesmo mas ainda num momento de alta da curva, com problemas de infraestrutura de saneamento, super densidade de habitação e transportes, e cultura notória de indisciplina urbana, falta de respeito às regras e negligência que são peculiares à nossa cultura.

Temos o poder estadual e local tentando fazer alguma coisa e o presidente da República boicotando perversa e sistematicamente. Não passado, lamentou que a ditadura não tivesse matado mais 30 mil pessoas. Essa lacuna já foi compensada.

É obvio que se acumulam crimes de responsabilidade e atos de subversão e seu afastamento é a única solução digna para o país. A situação está madura para um desenlace constitucional.

A hipótese da um autogolpe de estilo Fujimori é evidente. É o que ele mais deseja, mas não tem massa crítica para conseguir. Seus congêneres pelo mundo afora partiram de fortes maiorias eleitorais (Nicolas Maduro o herdou de Hugo Chavez; Rodrigo Duterte tem maioria no Congresso, Erdogan, Putin, Kaczinski e Modi maiorias eleitorais continuadas), são águias de voo mais alto. Bolsonaro é um colegial perto destes ditadores ou semi-ditadores.

O que vai fazer? Mandar o cabo e o soldado fecharem o STF e, o tenente e o capitão o Congresso? Baixar o AI-6 ? Em pleno drama da pandemia, o máximo que Bolsonaro pode fazer é determinar alguma desobediência à ordem judicial e colocar algumas centenas de milicianos nas ruas. Promover mais bagunça e indisciplina.  E depois?

Estou pasmo com certos militares! Sempre os tive como profundamente avessos à bagunça, à indisciplina, ao ridículo, à quebra de hierarquia, ao desrespeito aos seus comandantes, à manipulação indevida da bandeira brasileira e à subversão da ordem. Há algo mais subversivo do que formar milícias e distribuir “armas para o povo”?

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A sociedade brasileira, ao contrário da dos anos 1960, está saturada de armas. Bolsonaro é totalmente incapaz de implantar uma ditadura militar centralizada com ele próprio de ditador no estilo centro americano. Pode, no entanto, criar a “síndrome dos estados falidos” onde haverá milhares de ditaduras armadas, em favelas, bairros, periferias, localidades, estados, cidades, quarteirões. Há vários países onde isso já aconteceu e o caminho principal sempre foi a quebra do monopólio das Forcas Armadas sobre o armamento de guerra e as milícias sobrepujando as Forças Armadas.

“O povo armado” já foi fetiche-mor da extrema esquerda. Hoje é do fascismo tresloucado. O exemplo dado pelo ministro Celso de Mello, da República de Weimar, é pertinente embora limitado. Hitler, como Bolsonaro, tinha 32% do eleitorado, mas as milícias que se tornaram suas ao longo do tempo existiam desde o fim da I Guerra e o nazismo era um enorme movimento de massas, não meia dúzia de gatos pingados fazendo carreata.

Deus, nos poupe de tanto ridículo.

O perigo mortal

Estamos no Brasil entrando no momento mais grave da pandemia, com uma população desorientada e o pior dos governos. A hora é de uma ação local, comunitária solidária, fraterna e inteligente. Nada de pânico porque já estamos no olho do furação. São as dezenas, talvez centenas de milhares de mortos que nos aguardam no maior problema sanitário e de segurança nacional já vivido pelo Brasil. Por isso, vou terminar comentando como limitá-las, até onde consegui me informar em tudo que li.

1 – A forma principal de contágio, de longe, é  o contato a pouca distância em ambiente fechado o que incluí os transportes coletivos. Pessoas sem máscara trocam gotículas com vírus que penetram pelo nariz, boca e olhos.

2 – A maior incógnita são os aerossóis. Até que ponto a covid-19 é capaz de se alojar em partículas em suspensão (poeiras etc.) e, inclusive, ser disseminado pelo ar condicionado central de escritórios, lojas, salas de espetáculo. Casos assim foram identificados mas não se conhece seu peso nem mesmo qual a capacidade de contágio do vírus nessas condições.

3 - A máscara é fundamental. Além da proteção considerável contra espalhar e contrair é simbólica de uma atitude de resistência da população ao vírus. Por isso mesmo uso-a mesmo andando de bicicleta, a grande distância de quaisquer outras pessoas. Precisamos ser vistos com ela, dar o bom exemplo.

4 – Lavar as mãos toda hora e levar consigo a garrafinha de álcool gel é importante. Também não sabemos que proporção de contágio provêm do contato com superfícies tocadas, mas é certo que exista.

5 – A imensa maioria das pessoas se contagiou em casa em contato com familiares e amigos sintomáticos ou assintomáticos. Tão importante quanto os respiradores e as UTI é contar com alojamentos para poder isolar pessoas, que não estejam em estado grave dos seus próximos durante o período de quarentena. No Brasil isso não está sendo olhado com a devida atenção.

6 – É preciso ter uma política inteligente de testagem – usar técnicas de amostragem estatística - e de boa qualidade. É importante poder rastrear os contatos de pessoas infectadas e usar aplicativos de celular para tanto.

7 – Sem cair no total isolamento social – ainda é possível que tenhamos que regressar a ele - temos de fazer o sacrifício de limitar ao máximo o número de pessoas com as quais interagimos. Vai contra nossa cultura gregária  de sociabilidade mas limita a transmissão.

Relance#

Tanta coisa que não sabemos: por que o vírus afeta de forma tão drasticamente diferente as pessoas? Não é apenas idade. Tenho um amigo de 98 anos, o Vladimir Levin, que está se recuperando em Nova York, há jovens que morrem.

Outras pessoas (bastantes) ficam com sequelas graves de variados tipos não sabemos quanto tempo. Os próximos três meses é possível que tenhamos remédios antivirais que bloqueiem ou limitem a doença. No início de 2021 talvez, uma (ou várias) vacinas, oremos.

Trump e Bolsonaro, a dupla de garotos-propaganda da Cloroquina, além de prestar um péssimo serviço às pessoas o faz ao próprio remédio. Eficaz para lúpus e malária (em, certos casos), em tese, poderia  funcionar para uma situação específica da covid-19 quando o grande problema não é a infecção, em si, mas a demasiado forte, frequentemente mortal, reação imunológica inflamatória. Isso precisaria ser estudado com método e precisão.

Só um imbecil, como o da Casa Branca, o tomaria preventivamente. Minha filha há alguns anos tratou com algum sucesso uma persistente reação imunológica anti-virótica com Plaquenil, que é seu nome comercial, depois encontrou um remédio melhor.O problema é tentar fazer dele uma panaceia para capitalizar politicamente “a cura”

Se fosse anódina, tudo bem, o diabo é que a cloroquina é tóxica e frequentemente desencadeia arritmia cardíaca, por isso precisa ser estudada pela ciência com seriedade, sem esses patetas metendo o bedelho.

*Alfredo Sirkis é escritor, jornalista e ex-parlamentar.

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