Simplismo é meter o pé na porta antes de procurar a chave

"Nas relações com o Legislativo, o simplismo é a regra. 'Já mandei o projeto da Previdência ao Congresso, agora a bola está com eles'. Pois não está", escreve Paulo José Cunha

O senso comum ensina que a melhor solução para qualquer problema é a mais simples, certo? Errado. Meter o pé na porta facilita a entrada, sim. Mas causa um enorme prejuízo. Melhor procurar a chave.

Na maioria dos casos, problemas complexos exigem soluções igualmente complexas. O atual governo, no entanto, tem apostado em fórmulas mágicas e ligeiras capazes de oferecer soluções a todos os males que acometem o país. Mas não age com simplicidade, e sim com simplismo. Só como exemplo: negociação é simplicidade. Autoritarismo é simplismo.

O governo faz confusão entre uma coisa e outra. Pois a simplicidade se caracteriza pela ausência de excessos. Cinge-se ao essencial, limita-se ao que efetivamente interessa. Uma mulher bonita com maquiagem discreta, cabelo arrumado de forma quase casual, vestindo roupa confortável e sem rebuscamentos e usando adereços simples mas expressivos chama a atenção pela simplicidade. Tudo contribui para realçar a beleza natural da dama. Nada além. Olhe para uma perua empavonada e vai saber do que estou falando.

O simplismo, no entanto, como frisa Helena Cardoso (Mente & Ciência) “é uma tendência à simplificação, ignorando ou desprezando elementos necessários para completar um todo, para resolver um problema, analisar e enxergar uma situação, enfim, lidar adequadamente com a complexidade das coisas por meio de análises e julgamentos irrealisticamente simples”.

A reduzida “capacidade intelectual” do governo

O atual governo faz exatamente isto. Como a reduzida “capacidade intelectual” de seus integrantes impede a avaliação de soluções complexas para problemas complexos, sempre opta pelo simplismo de fórmulas mágicas e rápidas. Exemplos? Ah, não faltam. Vamos a eles.

Problemas de insegurança exigem ações que vão da educação à geração de empregos, da reforma da legislação ao aperfeiçoamento das ações de inteligência para conter, por exemplo, a ação do crime organizado, do reaparelhamento das polícias à repressão ao crime.

O que fez o atual governo? Optou por facilitar a posse de armas pelos cidadãos. E se prepara para ampliar o direito ao porte. Solução simplista para problema complexo. Em vez de ajudar a solucionar, tende a agravar o problema. Tudo bem que Moro tenta aprovar um pacote da segurança. Mas a primeira ação foi, sim, simplista e perigosa.

Alguém se lembra de alguma palavra daquele discurso em Davos?

Para enfrentar a indisciplina e a criminalidade nas escolas, em vez de medidas pedagógicas avançadas e políticas públicas adequadas, com resultados a médio e longo prazos, optou por incentivar a militarização, desconsiderando o fato de que o conceito de educação está mais próximo do exercício da liberdade e da rebeldia do que da ordem unida dos quartéis.

Na política externa, em vez de avaliar com atenção a complexidade das questões da Venezuela e do conflito Israel x Palestina antes de tomar posição, alinhou-se automaticamente aos Estados Unidos e deu o assunto por encerrado. Aquele discurso em Davos foi pelo mesmo caminho: na dúvida, vamos falar bem pouquinho. Uma solução simplista. Falou menos que pouco. E não disse nada de aproveitável. Ou alguém aí ainda lembra de alguma palavra das poucas que pronunciou?

Autoritarismo rima com simplismo

Na educação, o simplismo se repete. Já que podem aparecer números capazes de comprometer o governo, o melhor é não avaliar nada pra não fazer marola. E assim foi suspensa a avaliação do ensino básico, ideia de jerico depois revogada por força das reações contrárias. Para melhorar o grau de civismo, vamos obrigar os alunos a cantar o hino nacional. Solução simplista que não leva a rigorosamente nada. – E se aparecer algum estudante que não queira cantar? Filma e manda a gravação aqui pra gente que nós damos um jeito. Só pra lembrar: autoritarismo rima com simplismo.

Pra facilitar a adesão dos militares ao projeto de reforma da previdência a solução simplista foi dar aumento a eles, em troca do “sacrifício” a que serão submetidos. A ideia está dando uma gritaria dos diabos, até porque parece – e é – uma tremenda discriminação com a massa geral dos contribuintes.

Para se opor aos que condenam as atrocidades cometidas durante a ditadura militar, outra medida simplista: enviou aos quartéis uma ordem do dia mandando celebrar a data. Eu escrevi “celebrar”, e não registrar, como vieram explicar depois, tentando se desculpar pelo exagero. Deu em alguma coisa? Sim, no efeito contrário, pois os meios de comunicação cuidaram de divulgar o teor e ficou clara a intenção autoritária e regressiva embutida no texto. Ditadura é ditadura. Todas as tentativas de reescrever a história fracassaram.

O Itamaraty e a Educação nas mãos de um guru de araque

Nas relações com o Legislativo, o simplismo é a regra. “Já mandei o projeto da Previdência ao Congresso, agora a bola está com eles”. Pois não está, porque o processo de negociação é de outra ordem, bem mais complexo. Passa por convencimento, acordo, conversa, saliva e distribuição de poder – sim!, distribuição de poder, pois o atual modelo de presidencialismo de coalizão assim o exige. E vai precisar sair da zona de simplista de conforto e enfiar o pé na estrada pra conseguir, e até mendigar, sim, os votos capazes de aprovar o projeto.

Desde a escalação da equipe de governo, o simplismo impera. Na dúvida, chama um militar, que é dos nossos. Resultado: é o governo mais militarizado da história. Mais até do que os governos da ditadura... militar! O que ninguém garante é que pelo simples fato de ser militar significa que seja competente para ocupar o cargo. Igualmente, em vez de buscar a competência, vamos delegar a um guru – Olavo de Carvalho – a escolha de ministros estratégicos como os da Educação e das Relações Exteriores. Uma solução simplista que deu no que deu. E continua dando.

Simplismo é a busca da solução mais rápida, desprezando a análise mais apurada dos diversos aspectos envolvidos, desconsiderando eventuais consequências negativas. Já simplicidade não é o oposto de complexo: é o oposto de complicado. ​

Einstein defendia a simplicidade, mas se opunha à simplificação, ao simplismo, que todo governo deve evitar. O buraco do Brasil é mais embaixo, bem abaixo do simplismo reducionista e imediatista. Para achar as soluções é preciso ir fundo. Muito fundo.

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