Será que eu sou eu mesmo?

Houve um tempo em que eu achava que eu era eu mesmo, que eu morava na minha casa e dava expediente no meu local de trabalho. Bom, isto era o que eu achava até aparecer lá no Tribunal Regional Eleitoral, ao tempo em que o presidia, o processo de renovação de um certificado relacionado à área de informática.

Logo de cara fui convocado a apresentar duas cópias autenticadas da minha carteira  de motorista. Como o direito de espernear é constitucional, eu timidamente cheguei a argumentar, em voz baixa e com tom respeitoso, que eu era eu mesmo, que havia tomado posse lá no TRE em sessão pública, devidamente registrada pelo Diário Oficial. Meu tímido protesto, no entanto, foi logo sufocado pela expressão "é assim mesmo, eles exigem e sem isso a renovação não será possível". Deve estar certo - afinal, quem não sabe dirigir carro não deve poder dirigir um Tribunal. Pelo menos foi a esta conclusão que cheguei.

Em seguida  fui chamado a apresentar duas cópias autenticadas do meu comprovante de residência. Até aquele momento, eu achava que habitava a minha casa – afinal, as administrações municipal, estadual e federal sabem onde ela fica já há uns 30 anos. Mas eis que me comunicaram que eu teria que comprovar onde moro com a conta do meu telefone celular.

Aí eu comecei a não entender mais nada! O horror tomou conta da minha pessoa! De uma hora para a outra, eu passei a morar onde eu achava que morava só enquanto uma conta de telefone celular emitida por uma empresa privada atestasse isso. Passei a me dar conta, naquele momento, que o registro do meu endereço, constante dos bancos de dados oficiais, não serve para nada no mundo real.

Como são comuns os casos de fraudes nos cadastros das empresas privadas, algo largamente noticiado, passei a ter pesadelos com a possibilidade de que minha operadora de telefone celular diga que alguém que não eu mora lá em casa, ou que eu não more lá. A partir daquele momento cheguei à conclusão de que tenho que manter a assinatura de um celular até morrer, sob pena de virar um "sem-casa" de uma hora para outra.

O mais incrível foi constatar que o Estado não aceita uma informação do próprio Estado sobre onde moro! Ele só confia se meu endereço e nome estiverem em uma conta de celular. Fiquei preocupado por minha esposa – como todas as contas lá de casa estão em meu nome ela simplesmente não mora lá. Aliás, talvez ela nem exista.

Mas o desfile de absurdos não acabou aí. Fui convocado a apresentar duas cópias autenticadas do meu título de eleitor. Vejam que curioso: o presidente do TRE, que lá só pode estar após comprovar ser eleitor, tem que apresentar duas cópias autenticadas do seu título para renovar o certificado digital do órgão que só pode presidir por ser eleitor! Confuso, não?

O mais cômico é que o prazo para a renovação vencia naquele dia. O jeito foi eu determinar a expedição da segunda via do meu título de eleitor para mim mesmo, e assinada por minha própria pessoa, para provar que eu era eleitor!

É assim que o Brasil perde bilhões com a burocracia, enquanto assiste, impassível, à morte de vinte crianças a cada dia, vítimas da falta de um simples esgoto.

Dizem alguns filósofos alemães que o Estado foi criado porque as pessoas dependem dele para existir – afinal, é ele a nos dar nome, qualificação e direitos. "Se não o Estado, quem?", exclamaram os maiores filósofos da humanidade. Hoje, eu já posso responder esta pergunta: as operadoras de telefonia celular do Brasil.

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