Sapiens: mais do que econômica, uma estagnação civilizatória

Estava concentrado na história do Brasil e pensando as razões pelas quais padecemos de estagnação civilizatória, quando um amigo me presenteou com este instigante volume Sapiens, uma breve história da humanidade, do historiador israelense Yuval Noah Harari e na lista dos mais vendidos no mundo e no Brasil.

Digo instigante pois, se a narrativa é extremamente objetiva e quase em ritmo de thriller, as conclusões estão longe de me convencer, na medida em que coloca o homem como a única espécie capaz de se criar, negando, portanto, um princípio fundamental da tradição judaico-cristã, exposto no primeiro mandamento de um único Deus Criador.

Mas insights brilhantes nos conduzem a uma leitura frenética do livro. Como o que define a Revolução Francesa de 1789 como o evento em que o homem substitui o mito do direito divino dos reis pelo mito da soberania do povo. E o que são os mitos, segundo a própria argumentação do autor, se não a essência da cultura como criação humana (imaginário social, ideologias, religiões, seja o que for de simbólico), habilidade singular da espécie Sapiens, e que explica a sua superioridade em face das demais. Realidade imaginada, segundo a terminologia do autor, para a própria definição de cultura.

Outra faceta do autor que me causou espécie é sua visão das Américas do Norte e do Sul como um único continente, sobretudo quando se refere a eventos da América do Norte e a nenhum  da América do Sul. Se o próprio autor concorda com a tradicional partição do mundo em sete continentes, há que separá-los, quer seja por razões culturais, quer por razões geográficas.

Mas a partir de sua distinta habilidade de criar cultura, a espécie Sapiens é descrita como protagonista de três grandes revoluções: a cognitiva, a agrícola e a científica-industrial. Sendo esta última revolução o início do fim da espécie Sapiens e sua substituição por algum ser que o autor especula como da autoria da própria espécie. Uma espécie que cria uma outra espécie. Para um judeu, convenhamos que se trata de uma ousada ruptura para com o fundamento moral da própria religião judaica. O que nos leva a crer que é de ordem moral a sensação de abandono da humanidade no rastro das poeiras galácticas. Tanto é que seu atual livro, Homo Deus, é uma extensão deste último capítulo do Sapiens e não apresenta nenhuma luz no breu infinito de nossa ignorância.

O homem tomando o lugar de Deus, num paroxismo romântico radical da arrogância iluminista, como senhor de seu destino. Sobre uma das maiores superações civilizatórias da humanidade que trata exatamente do rompimento do código mosaico sobre o código de Hamurabi, o autor passa batido e nem sequer menciona o que vem a ser um novo paradigma da própria instituição da justiça, e não a simples revanche até então praticada. O grande insight sobre a espécie humana é o fato de que é a única a criar cultura, ou ordens e  realidades imaginadas, a estabelecer redes de cooperação nunca antes vistas entre as demais espécies, que sempre exigirão prévio conhecimento dos indivíduos de um grupo para superar a desconfiança e cooperar.

Religiões, ideologias e moedas nada mais são do que estes fantásticos sistemas de cooperação mútua entre desconhecidos, para além do núcleo familiar dos clãs primitivos. Mas o que revela um viés romântico-esquerdista na concepção dos valores morais da tradição humanista, e para além da negação da justiça, é a contradição entre igualdade e liberdade, quando o autor sustenta que a busca da igualdade para a maioria dos indivíduos leva, necessariamente, à limitação da liberdade dos que estão em melhores condições, o velho sofisma de que a distribuição da riqueza se faz necessariamente pela perda da riqueza de uns para eliminação da pobreza de muitos, o chamado jogo de soma zero. Uma concepção de igualdade social de viés evidentemente socialista e não liberal.

Outro aspecto altamente discutível é a concepção globalista e multiculturalista do autor como opção civilizatória, quando a tolerância do poder local do cidadão diante de poderes governantes centrais admite um relativismo moral que desconsidera hierarquias de patamares civilizatórios. A mesma tolerância pregada pelos governantes em face da invasão islâmica da Europa repete a tolerância de crença dos judeus em face do nazismo. Tolerância que leva necessariamente à relativização do maior valor moral, a vida, concebido como valor absoluto para a perenização da própria humanidade.

Insights como o que afirma o dinheiro e as moedas como o mais universal e mais eficiente sistema de confiança mútua já inventado, é realmente o que valem neste livro. Leia-se, então, o valor da honra, desde os mandamentos negativos do código mosaico, como o próprio sistema de confiança mútua exponencializado pelo capitalismo concorrencial contemporâneo. Num mundo em que moedas de valor intrínseco (medido em metais valiosos) são substituídas por moedas virtuais, trata-se de uma evolução e tanto!

Outro momento de rara felicidade é quando o autor identifica o advento dos impérios como condição de possibilidade das próprias descobertas científicas, hierarquizando, inclusive, as ordens sociais imaginárias: o dinheiro, os impérios e, só depois, as crenças religiosas e ideológicas (o que temerariamente o autor sinonimiza).

Outro momento definitivo é quando o autor localiza a revolução científica da era atual na detonação das bombas atômicas contra o Japão em 16 de julho de 1945, quando o homem passa a ter consciência de que pode extinguir-se a si mesmo, a toda raça humana e a toda biosfera, meio caminho para a garantia da quimera da paz mundial kantiana, pondo um fim na escalada de se considerar deus de si mesmo. O homem, enfim, pode determinar seu destino de deus destruidor, mas jamais de criador!

Com extrema ironia o autor reivindica o Prêmio Nobel da Paz para o físico alemão criador da bomba atômica Robert Oppenheimer, uma vez que só a partir daí o homem passou a ter consciência de que pode se auto-extinguir. Quando nos últimos anos ficou patente também que não foram as guerras o que causou as maiores dizimações da espécie, mas sim a fome, as epidemias e os cataclismos naturais. Podendo se criar a si próprio, através de avanços científicos da engenharia genética, da vida biônica e da inteligência artificial, o homem poderia recriar a natureza que destrói diariamente? Qual, enfim, o sentido de sua própria natureza, este Sapiens que pode se transformar num Homo Deus, perguntaria Yuval Noah Harari?

O sentido do romantismo esquerdista de querer que líderes governantes valham mais do que a triste realidade histórica segue o desejo de milhões de cidadãos. A tentação totalitária do dirigismo político de poucos iluminados que leva sempre à opressão da maioria. Do intervencionismo econômico de autoridades estatais e burocratas ilegítimos que joga milhões de cidadãos empreendedores na estagnação econômica e civilizatória. Filme em cartaz no Brasil até recentemente e em breve num cinema americano perto de você.

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