Salto sobre a omissão

Um amigo, visitante de São Paulo há décadas, no seu caminho do centro para o aeroporto de Guarulhos, sabendo de meu incômodo com o assunto, faz referência à poluição do rio Tietê e me envia suas impressões de quem quer salvar a natureza em plena metrópole.n

Conta-me ele que testemunha, desde os anos 80, a degradação do rio, bem como todas as tentativas de despoluição e de melhora do entorno. Algumas vieram, é claro. Mas a degradação ainda não se foi.

Assim como existem e ainda persistem os rios e praias poluídos Brasil afora, confirmando uma lamentável realidade brasileira de raríssimas exceções.

Mas, como paulista, fico apenas no caso de São Paulo – e de tudo o que sei que envolve a questão do Tietê e da mentalidade prejudicial sobre água neste país – para escrever este artigo. Deixo o seu Brasil das suas esquinas, caro leitor, para que você mesmo faça sua análise.

O caso do rio Tietê, bem como de outros da cidade e do estado, passa por uma série de razões muito maior e de extensa omissão coletiva que explica a degradação das fontes de água.

São ocupações ilegais, resultado do drama da moradia e da ineficiência do controle e ação das prefeituras que, uma vez habitadas e ocupadas, geram esgoto em áreas de proteção privada ou ambiental e que, justamente por isso, não podem receber serviços públicos como coleta e tratamento enquanto não forem legalizadas. A lei que impede a regularização de áreas indevidas para habitação é obedecida. A que gerou a ocupação ilegal, não.

O fato simples de constatar isso é que, por consequência dessa inconsequência, enquanto as pessoas estiverem ali vão continuar a gerar esgoto que vai parar em valas e canais abertos pela incontinência, e que desaguarão em algum outro córrego que alimentará o Tietê ou qualquer outro rio brasileiro. A água sempre vai rio abaixo.

Por outro lado, no mundo legalizado, ligações clandestinas dos que podem, mas não querem pagar pelo serviço, desviam o esgoto para canalizações de captação de água de chuva na típica esperteza de quem jamais conseguirá, pela estupidez exuberante que ostenta, que aquela infecção intestinal de que foi vítima na praia poluída é resultado do caiçara do extenso litoral deste país que fez o mesmo que ele.

No caso específico do Tietê, tem ainda casos de cidades como Guarulhos, na cabeceira do rio, que tratam muito menos esgoto do que geram; a incapacidade da própria Sabesp em tratar tudo o que coleta nas cidades onde detém o serviço, incluindo São Paulo, pelas razões acima e por insuficiência de investimento; ausência de uma política nacional séria, viável e de longo prazo para preservação de mananciais (rios nunca são municipais ou estaduais, apenas, porque passam por várias cidades e estados ou são afluentes de rios maiores).

Mas o que eu creio ser o problema maior é que rio e praia poluídos nunca comoveram a maioria dos brasileiros. Esgoto no rio é feio de se ver, horrível de se cheirar, é intragável, na pele, insuportável, e faz um barulho imenso por causa dos males que causa.

Mesmo com os cinco sentidos humanos afetados, a poluição de rios e mares não comove, não mobiliza a maioria que, inadvertidamente, ou ignora o assunto ou pula a vala de esgoto para seguir seu caminho de alienação.

O sujeito vai à praia imprópria para banho, pula o canal de esgoto que deságua no mar e diz que o final de semana foi ótimo. É um fenômeno!

Ou seja, o sentido maior da civilidade, a consciência coletiva, nem para o bem próprio, não existe nessas pessoas. E elas são, ressalte-se, a maior parte.

Costumo dizer que, quando chego a uma cidade aqui ou no exterior, mesmo sem conhecer bem o lugar que visito, meço a qualidade de vida local, a civilidade dos habitantes, por dois itens muito simples e facilmente acessíveis: se o rio da cidade é limpo e se as calçadas são boas pra se andar. Não tem erro!

Por aí, você consegue enxergar o quanto aquela população e seu governo são comprometidos com meio ambiente, à saúde, o direito de ir e vir, à civilidade.

E essa coisa de rio poluído me incomoda há muito. No início dos anos 90, eu, ainda um jovem repórter do segundo ano da escola de jornalismo, fui processado por um prefeitinho da minha cidade, no interior de São Paulo, porque denunciei, em um jornal local, a farsa dele de ter desviado recursos obrigatórios da educação para canalizar um córrego da cidade.

Tão certo estava que fui absolvido pela Justiça.

Mas o córrego continuou poluído, sem canalização, aberto e fétido. E a educação das crianças muito aquém.

A cidade convive com tudo isso, condenada a conviver com a omissão de seus moradores porque não se envolveram com o caso, apesar da denúncia escancarada aos olhos de todos.

Eu não desisto desde 1992, quando sofri esse processo. E continuei a ser um incomodado operante em denúncias e acompanhamento público de ações governamentais.

É duro. A poluição do Tietê é desalentadora. E só é mais visível do que em outras cidades brasileiras porque proporcionalmente a cidade é muito maior que o rio, incapaz de diluir o esgoto, a ignorância dos cidadãos e a ineficiente gestão dos governos. Não porque em outras capitais ou cidades as pessoas geram menos esgoto, tratam muito mais ou fazem algo melhor. É só resultado da equação tamanho da cidade x tamanho do rio.

A civilidade brasileira com a questão da água é solidariamente ínfima no país todo.

Isso diminui a dor ou conforta os paulistas e paulistanos? Não deveria.

Não há zona de conforto sob rios e praias poluídos para ninguém em lugar nenhum. A constatação inquietante acerca do Tietê é bem-vinda porque ressalta uma omissão social.

E provoca.

Sinta-se provocado e incomode-se também.

É o único jeito de alguma coisa acontecer. Incomodados movem o mundo, acredite.

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