Sacrificar-se pela humanidade

O horário do encontro de Jaci com Emanuel e Oxalá se aproximava, deixando a pequena Lua apreensiva. É que ela ainda não havia escolhido a história que contaria aos seus amigos. Não que faltassem narrativas repassadas pelo seu povo nos vários cantos e recantos da sua vasta Pindorama. Ao contrário, eram tantos os saberes transmitidos pelos ancestrais de cada etnia que a escolha se tornava uma árdua tarefa. Orgulhosa das tradições e culturas de sua gente, queria impressionar pela riqueza do tema que exporia em emoção. E aflita ficou quando escutou os sons que anunciavam a chegada de seus convidados.

Tîa nde Karuka! – saldou Jaci os seus convidados, na antiga língua tupi.

– Boa tarde! – responderam, conjuntamente, Emanuel e Oxalá.

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Ta pe-îu-katu! – seguiu em cumprimento Jaci, dando boas-vindas aos amigos e os convidando a entrar em sua lunar moradia.

– Não via a hora de chegar aqui – confessou Emanuel. – Eu precisava de um acalento. Não é fácil relaxar quando essas criaturas desumanas matam em nosso nome. Estou muito triste com as notícias enviadas por Muhammad.

– Exu me disse que também recebeu mensagens alarmantes do Afeganistão. Pessoas desesperadas penduradas em aviões e o medo estampados em rostos que confiavam nos governantes locais e internacionais – lamentou Oxalá. – Outra vez o povo sendo sacrificado nas brigas das grandes potências políticas, nas disputas econômicas e nas guerras nada santas.

– Realmente o “sacrifício pela humanidade” não significa “sacrificar a humanidade” – emendou Jaci. – Conhecemos muito bem essa História.  As chamadas “guerras santas” foram responsáveis pelo genocídio de meu povo. Mudam-se os lugares, a época e os personagens, mas a matança é sempre a mesma. As mulheres e as crianças sendo as principais vítimas.

– Daí Mateus ter escrito: “Misericórdia quero e não sacrifício” – lembrou Emanuel. – O que acontece no Afeganistão é a repetição de um genocídio histórico...

– Histórico e consentido em várias partes do mundo – concluiu Oxalá. – Mas vamos acalentar o coração de Emanuel, Jaci, conte-nos a história que você selecionou.

– Então, jovens! – agradeceu Jaci. – Eu estava em dúvidas sobre o que narrar, mas vocês me ajudaram a decidir.

– Sempre gentil, Jaci – sorriu Emanuel. – Mas vamos à sua narrativa.

– Escolhi uma que me contou Ceuci – seguiu Jaci – Vou narrar a história de Yaci-May. O pai dela era pajé Irê e a mãe Anhiã, muito respeitados pelo povo seterê-mawé. A menina cresceu amada por todas as pessoas e até pelos pássaros que acalentavam seus sonhos e quereres. Quando atingiu a idade de casamento, os pretendentes se encheram de esperança. E não eram poucos, inclusive os deuses e animais encantados. Mas nem tudo era alegria. O povo mawé passava por um longo período de fome, provocada por uma seca terrível. O rio Andirá não conseguia controlar a evaporação da vida que brotava de suas águas, os peixes, as aves e os animais morriam sufocados em dor e desesperança, a chuva não tinha lágrimas para acudir as desesperadas súplicas e as árvores deixaram de germinar em alimentos. O grande pajé não conseguia esperançar o seu povo. Até que Yaci intuiu qual seria a sua missão, o verdadeiro sentido de sua própria existência. Despediu-se do pai e correu acompanhada das jaçanãs em direção às canaranas. E desapareceu. Tempos depois, o seu corpo apareceu, sem vida, flutuando nas águas do rio Andirá. O povo triste com mais uma tragédia, ficou dias a chorar. O velho pajé, embora triste, não chorava. Havia entendido o gesto de sua filha. Enterrou-a em emocionante culto, em que não faltaram flores e frutos. Não tardou e de seu túmulo brotou uma planta nova e desconhecida. As folhas cumpridas e fartas faziam lembrar da mais bela cunhã nascida nas redondezas. Os frutos redondos, verdes que transmudavam em pretos, eram semelhantes aos olhos da pequena menina que ali jazia. Tudo harmonizado em um formoso tronco de palmeira que exalava o perfume de Yaci. Não tiveram dúvida de que estavam diante de um fenômeno divino. O pajé então esclareceu que aquela árvore era um presente de Tupã, grato pela ascensão de Yaci-May ao mundo das estrelas. Os frutos se espalharam rapidamente pela região, alimentando todos os povos e animais da terra. A fome fora finalmente vencida e a chuva, emocionada, voltou a irrigar a terra e o grande Andirá. A felicidade era tamanha que o pajé mandou retirar da palmeira um cacho e dele extraiu um delicioso vinho. A este fruto o pajé batizou de Açaí.

– Que bela história, Jaci – falou emocionado, Oxalá. – Este gesto piedoso, empático e amoroso de Jaci para com o seu povo é o exemplo perfeito do “sacrificar-se pela humanidade”.

– “Ninguém tem maior amor do que este; de dar alguém a sua vida pelos amigos” – suspirou Emanuel.

A-î-moeté-katu xe Tupâ! – concordou Jaci, louvando o gesto magnânimo de Tupã. – O sacrifício de Yaci foi a forma encontrada por Tupã para mostrar à humanidade, como escutei de Marcos e Mateus, os amigos de Emanuel, que o ser humano “não veio para ser servido, mas para dar a sua vida em resgate de muitos”.

– Axé! – vibrou Oxalá. – O que achou, Emanuel?

Eu compreendo o peso do cálice servido à Yaci – disse Emanuel, visivelmente emocionado. – Meu Pai já me disse que para “tirar o pecado de muitos”, não descartaria até mesmo me oferecer como exemplo. Ao que respondi, tranquilizando-o: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.

Eu não esperaria outro gesto seu, meu Açaí – brincou Jaci, abraçando Emanuel e descontraindo o ambiente. – Na próxima semana será a sua vez, Oxalá.

– Saravá para o nosso Açaí! – gargalhou Oxalá, compreendendo o gesto de sua Oshupá. – Contem comigo na próxima semana, que vou caprichar.

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