Relações institucionais e governamentais: carreira cada vez mais feminina

Carolina Venuto*

Em tempos de pandemia a atividade de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) no Brasil precisou se reinventar. O futuro chegou com as deliberações remotas no Congresso Nacional e o nosso setor não teve o tempo adequado para se adaptar. Disrupção necessária para uma engrenagem fundamental na, ainda jovem, democracia brasileira.

O processo de tomada de decisão na política nacional traz mais ansiedade e dúvidas que respostas concretas para a grande maioria da população, porém, de uma coisa não tenho dúvida: você será impactado direta ou indiretamente pelas decisões que forem tomadas em Brasília.

A figura do “lobista” foi deteriorada durante anos, isso por que associam essa atividade, majoritariamente, a alguém que impõe o poder econômico ao tomador de decisão política, para assim participar do processo.

A atividade de RIG foi reconhecida pelo então Ministério do Trabalho e Emprego no ano de 2018. Recebeu o código na Classificação Brasileira de Ocupação (CBO) nº 1423-45 e nos apresenta mais de 90 possíveis atributos que o profissional que a exerce precisa considerar como parte de seu escopo de trabalho. De fato, é uma das atividades mais complexas, transversais e, talvez por isso, também mais democrática. Podem atuar em RIG os advogados, engenheiros, médicos, publicitários, jornalistas entre outras inúmeras profissões.

Cabe destacar que a ação do Governo Federal em reconhecer a atividade de RIG, mesmo sendo um marco histórico para a categoria, não é excludente à relevante necessidade de sermos reconhecidos como profissionais. Para isso, há um Projeto de Lei no Congresso Nacional (PL 1202/07) que propõe tal regulamentação.

O referido texto é de 2007, passou por inúmeros debates, recebeu recomendações de diversas naturezas, foi comparado com legislações internacionais (como EUA e Chile), adaptado para a nossa cultura e hoje pode ser considerado “maduro” para ir a votação no Plenário da Câmara dos Deputados.

Como um dos principais pontos positivos da proposta, cito a paridade e equidade na relação entre o público e o privado, trazendo regras, não burocráticas, para garantir que todos tenham os mesmos direitos, espaços e responsabilidades no processo.

Aliás, o termo “responsabilidade”, acima citado, já é realidade no mercado global e recebe o nome de “compliance”. Apesar de serem áreas distintas, RIG e compliance são complementares para as instituições. São partes fundamentais para a definição de uma estratégia corporativa bem sucedida.

Entidades como Transparência Internacional e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), já se manifestaram pela a  importância de termos regras claras na relação entre o público e o privado no Brasil, na esfera do Poder Executivo, o Ministério da Justiça e a Controladoria Geral da União já sinalizaram positivamente por uma definição normativa, porém, nenhum decreto oficial foi apresentado. Vale lembrar que nossa legislação não é escrita em pedra, sendo assim, a proposta, se aprovada, pode – e deve – ser constantemente aprimorada. É o nosso trabalho!

Uma característica marcante do profissional que exerce a atividade de RIG é a busca constante pela capacitação e isso considero o diferencial preponderante para o desenvolvimento de uma carreira de sucesso. Não podemos nos considerar apenas especialistas em generalidades. Cada vez mais, precisamos garantir a melhor técnica quando formos defender os interesses de nossos clientes frente aos tomadores de decisão política.

É “normal” em um dia de trabalho de RIG você ter uma reunião para tratar de “ex-tarifário” com o Poder Executivo, na sequência, ter uma agenda com um grupo de deputados e senadores para defender os interesses trabalhistas de uma associação de classe ou de um sindicato e, no final do dia, acompanhar a votação do Projeto de Lei prioritário do seu cliente que versa sobre assuntos relacionados ao meio ambiente.

A oferta de cursos na área de RIG tem crescido significativamente, não só em Brasília, mas no país todo. Nos últimos cinco anos, tivemos um “boom” de opções, que se encaixam em todos os bolsos e em quase todas as áreas de atuação, desde cursos rápidos de 8h a 16h em associações, até cursos estruturados em reconhecidas instituições de ensino. A realidade é que o mercado de RIG cresce exponencialmente no Brasil, oferta muitas oportunidades, tem uma remuneração consideravelmente alta, se compararmos à média do setor de serviços, e oportuniza a participação direta do profissional no processo – viciante – de tomada de decisão política.

Um fato que jamais perderia a oportunidade de relatar é a crescente participação das mulheres no mercado de RIG, historicamente masculinizado. A capacidade feminina de realizar multitarefas e a obstinação por qualificação são diferenciais para a vida dinâmica de um profissional de RIG. Ouso dizer ainda que a velha competição entre mulheres começa a ter uma virada de chave também nesse mercado. Muitos grupos e redes de apoio estão sendo criados para serem acolhimento e facilitadores para o dia a dia da mulher em RIG. Uma prova disso é que assumi, recentemente, a presidência da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), entidade que já realizava ações de incentivo ao protagonismo de mulheres em processos de decisão e que conta, cada vez mais, com quadros qualificados de lideranças femininas. Os desafios são grandes, mas a dedicação e a busca por resultados positivos para o mercado de RIG são ainda maiores.

A nova presidente da Abrig, Carolina Venuto, quarta da esquerda para a direita. Foto: Reprodução/Abrig

*Carolina Venuto é presidente da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig)

 

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