Reflexões sobre a campanha para prefeito do Rio: na linha da partida

As pesquisas Ibope e Datafolha desses dias são o marco zero de uma campanha que, para efeitos eleitorais de fato, vai se iniciar só agora com o programa de TV. Não que a TV seja tão fundamental assim para construir o voto final do eleitor, mas ela coloca a cidade em “modo de campanha”: as pessoas começam a vivenciá-la nos lares e bares, pouco a pouco, num movimento que vem chegando ao seu ápice cada vez mais tarde, a cada eleição. A última, para prefeito, em 2008, “esquentou” mesmo nos últimos dez dias: assistimos à – até então contida – subida de Gabeira que ultrapassou Jandira, na semana final, e Crivela, no dia da eleição.

A eleição de 2012 é completamente diferente e não sinaliza muitas surpresas. O prefeito Eduardo Paes parte como franco favorito, com condições de vencer já no primeiro turno, salvo derrapagem, o que, em tese, é sempre possível. Marcelo Freixo se coloca de forma a ocupar pelo menos boa parte daquele voto crítico de classe média: um misto de UDN com antigo PT e antigo PV. É aquela parcela em busca da “novidade” da vez. Aspásia parte com alguma dificuldade para ocupar esse espaço por causa da crise do PV, um partido que nacionalmente optou pelo suicídio ao escorraçar 20 milhões de votos, jogar no lixo a oportunidade de se tornar um partido de peso no cenário nacional e romper acintosamente com sua própria história.

Aspásia tem ainda a chance de reocupar parte desse espaço se utilizar bem o seu pouco tempo de programa de TV para mobilizar o eleitorado feminino, fazer valer sua rica biografia, considerável experiência de serviço público e as realizações dos verdes no Rio de Janeiro que não são poucas. É uma questão de poder de comunicação e, como dizia o velho Chacrinha, “quem não comunica se trumbica”. Sua “bala de prata” é fazer um bom programa de TV e aproveitar de forma criativa os espaços do RJ-TV para martelar os três pontos que menciono acima. Única mulher, rica trajetória e realizações dos verdes.

Otávio Leite vai dispor de um bom tempo de TV e tem uma presença simpática, possui experiência de prefeitura e se liga a um causa bem vista, a dos deficientes físicos, que lhe asseguram aquele patamar mínimo. Sua dificuldade é encarnar um arquétipo político que o prefeito já incorporou melhor que ele.  Também é prejudicado pelo pouquíssimo entusiasmo que os tucanos suscitam por aqui. O pólo Garotinho-César tem como ponto forte a base popular do ex-governador, a grande experiência e tecnologia eleitoral do ex-prefeito e o charme e poder de comunicação da vice Clarissa. Fosse ela a candidata, Freixo teria problemas em conservar o segundo lugar. Rodrigo tem dificuldades grandes de estabelecer empatia com o eleitor. Os primeiros fatores podem, no entanto, pesar mais que o segundo e redundar num certo avanço desse pólo de  total pragmatismo, dependendo da qualidade do seu programa de TV e da capacidade de mobilizar o publico evangélico e católico mais conservador.

Freixo já terá consolidado sua posição de segundo lugar e de candidato, nessa eleição, do que chamo do voto “cavaleiro andante” da vez? É cedo demais para concluir isso. Teremos um quadro mais claro dentro de uns quinze a vinte dias quando o efeito do programa e das inserções de TV se assentar.  Aproximadamente 35% do eleitorado não vai votar em Eduardo Paes em nenhum circunstância. Suponho que o potencial de um candidato com esse perfil “crítico” fique entre 15% e 25% do eleitorado, no primeiro turno. Na eleição passada Gabeira teve que disputá-lo com Jandira e Chico Alencar e acabou com 22%. Por outro lado, teve um tempo de TV relativamente confortável e já dispunha de uma maior familiaridade com o eleitor carioca. E o Gabeira é uma figura carismática e popular.

Freixo tem a vantagem de um campo muito mais livre, sem uma Jandira e com o Chico naturalmente ao seu lado. Aspásia corre em uma faixa que tem sobreposições, mas não é exatamente a mesma. O "calcanhar de Aquiles" do Freixo é pura e simplesmente o fato da eleição ser para prefeito da cidade do Rio de Janeiro. As implicações disso irão tornando-se mais evidentes para o eleitor com o amadurecer da campanha. Uma grande parte do voto “crítico” ou “voto de atitude” que ele atrai não vai levar isso em conta nem tentar imaginar de fato o que significaria ele vir a ser o prefeito do Rio, em 2013. Para este tipo de eleitor, é menos importante saber quem vai governar o Rio, nesse período crucial – e como vai governar – do que simplesmente “se expressar” através de um voto desabafo, anti-establishment político que, aliás, no caso, será muito mais anti-Cabral do que, propriamente, anti-Paes. A acumulação de força para voos futuros e não para governar agora a cidade é o propósito do Psol. É legítimo. A rigor, o único aspecto nocivo é quando isso passa a obscurecer as informações que o carioca precisa ter sobre sua cidade, favorecer políticas destrutivas, interesses corporativos e atrapalhar bons projetos ou soluções práticas necessárias nas quais, via de regra, o ótimo é inimigo do bom.

Vou dar alguns exemplos: não sei se O Globo reproduziu corretamente e no contexto apropriado aquela sua colocação, mas fiquei chocado com a referencia atribuída ao Freixo à “Minha Casa, Minha Milícia”. Ao programa de habitação federal público-privado Minha Casa, Minha Vida cabem vários questionamentos. Sobretudo, não estar conseguindo atender suficientemente – e não é fácil – o segmento de mais baixa renda, no Rio e em outros lugares. Como fazê-lo é uma discussão nada trivial e que os candidatos deveriam fazer na profundidade que merece, sem frases de efeito bobas como aquela. A realidade é que a prefeitura, antes, não tinha uma política habitacional nem participava de projetos de habitação. Limitava-se à – também meritória, mas insuficiente – urbanização de favelas. Com todas as suas limitações, o Minha Casa é um programa importante e auspicioso, pois, pela primeira vez na história do Brasil, está se criando uma forma de prover moradia, legal e regular, a segmentos que  historicamente dependiam totalmente da autoconstrução, das favelas e loteamentos clandestinos para morar.

Por outro lado, a ideia de que a área portuária deva ser o “locus” dos projetos habitacionais de baixa renda é totalmente infeliz. A área portuária de mesma forma que outros pontos do Centro devem, sim, conter projetos de habitação de baixa renda num cronograma inteligente que os coloque na sequencia do sucesso de projetos de moradia de classe média, inclusive para acessar um mercado de trabalho. Se começarmos ali pelos projetos de baixa renda, a classe média não virá, e sem moradia de classe média não haverá revitalização da área portuária nem oferta de empregos. Um perímetro de prédios comerciais e alguns equipamentos cercados de moradia de baixa renda é uma receita de fracasso patética. É um tipo de raciocínio que só favorece o impulso atual, agravado pelos Jogos Olímpicos, de privilegiar a moradia de classe média na Barra e prejudicar a difícil empreitada de atraí-la para o Centro, que me orgulho de ter iniciado. Também não adianta ficar hostilizando infantilmente os empresários e achando que simplesmente taxar terrenos ociosos vai levá-los a investir. A probabilidade maior é a da inadimplência e do abandono. Precisam ser estimulados a investir no Centro porque seu impulso natural é a Barra.

Até que ponto é legítimo explorar o bom trabalho que ele fez na CPI das chamadas milícias, das ameaças que teria sofrido e de sua “ponta” no filme Tropa de Elite 2 para a campanha eleitoral? Cada um faz o marketing político que pode e para quem não tem os exuberantes meios materiais do prefeito isso aparentemente é a salvação da lavoura. O Padilha foi muito patrulhado politicamente pela esquerdinha intelectual por causa da Tropa de Elite I, que, aliás, como filme foi muito melhor do que o segundo. Embora ele tenha dito, na época, que as críticas “de esquerda” não o afetavam, resolveu fazer o Tropa de Elite II “politicamente correto” e até colocou Freixo de figurante.

Agora, na campanha eleitoral, este faz valer essa “ponta” e também a escolta policial que o acompanha em função das ameaças que consta ter sofrido. Sinto em relação a isso o mesmo desconforto que em relação à possibilidade frequentemente anunciada do Beltrame iniciar carreira política. O trabalho com segurança é tão importante que deveria ser ao máximo afastado das lides da política eleitoral que inevitavelmente acaba por fragilizá-lo. Policiais, magistrados e promotores com ambições eleitorais correm o risco de comprometer de diversas formas seu trabalho vinculado à segurança cidadã e à justiça. No caso, no entanto, é um parlamentar que legitimamente “capitaliza” um trabalho que realizou no Legislativo.  De qualquer modo, para alguém desprovido de qualquer experiência executiva anterior, fazer da sua investigação parlamentar das chamadas milícias o grande chamariz para a postulação de gerir uma megalópole de seis milhões de habitantes que vai sediar os Jogos Olímpicos, é de uma fragilidade óbvia que tende a se revelar mais a frente.

Nos EUA, há eleições para os promotores de justiça no âmbito dos distritos e estados. Os chamados District Attorneys são eleitos diretamente pelo povo. Não sei se é uma boa coisa, pois politiza muito a promotoria de justiça. Rudolph Giuliani, Eliot Spitz e Andrew Cuomo são crias desse filão. De qualquer maneira, por enquanto, a campanha de Freixo me evoca uma dessas para District Attorney. A prefeitura do Rio de Janeiro é toda uma outra coisa. Em sua campanha de 2008, o Gabeira conseguiu aproximar-se mais da imagem de uma figura que encarna o espírito carioca, capaz de relacionar-se com a diversidade, mediar conflitos e interesses ainda que buscando uma distância salutar da política tradicional. Perdeu por uma margem pequena proveniente das áreas que mais dependem da gestão pública e menos dispostas a um “voto de atitude”. Cheguei a acreditar na tese do "feriadão", mas depois, num exercício que fizemos com Jairo Nicolau e sua equipe, acabou ficando claro que, ao contrário do mito que nos foi conveniente,  o feriado de Cabral não foi fator decisivo porque a abstenção foi ainda maior nas áreas onde Paes foi mais votado.

Na hora H, o carioca de fato vota em quem vê melhor na pele de gestor da cidade. Em tese, Aspásia teria alguma chance de combinar o “voto de atitude” com esse mais realista de gestão. Mas sua tração inicial foi comprometida pela crise dos verdes e pela forma como a grande mídia já pautou o casting do elenco dessa eleição. Resta-lhe a bala de prata do programa de TV dirigido pelo Moacir Goes. O material que vi parece bom. Ainda há tempo.

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