Quem faz o jogo da direita?

Nos últimos meses assistimos ao aprofundamento da crise na economia e das medidas adotadas pelo governo para fazer frente a esta situação, todas elas voltadas para atender os interesses dos bancos e das grandes empresas, em prejuízo dos direitos dos trabalhadores e dos investimentos em políticas públicas. Está aí a base principal da erosão completa da base de apoio popular do governo petista que, ao combinar-se com a crise gerada pelo escândalo de corrupção na Petrobras, leva o país a uma crise política que tem se agravado fortemente nas últimas semanas. Cresce cada vez mais a revolta dos trabalhadores e do povo pobre contra o governo petista. A base parlamentar do governo está profundamente abalada, seja pelo desgaste do governo junto à população, seja pelo escândalo de corrupção, que atinge direitamente muitos dos parlamentares mais importantes do Congresso Nacional.

Todo este cenário gera, por um lado, o crescimento e a radicalização das greves e lutas populares no país que se chocam cada vez mais com o governo, como vimos em 15 de abril e 29 de maio. Por outro lado, a oposição burguesa se assanha, vislumbrando a possibilidade de voltar ao governo a partir do desgaste do governo do PT, trazendo à tona o debate sobre o impeachment da Dilma. Este quadro traz enormes desafios para a esquerda brasileira.  E, como sempre, para fazer frente a um desafio, para organizar uma luta, é preciso saber contra quem vamos lutar. É justamente este problema que tem gerado muitas polêmicas na esquerda e nos movimentos sociais. Neste debate, na ânsia de defender o governo do PT, toda crítica mais consequente ao governo petista – como faz o PSTU - é acusada de “fazer o jogo da direita”, ou “fazer coro ao golpismo”.

Neste artigo quero apresentar de forma nítida a posição do nosso partido acerca da saída que a classe trabalhadora precisa construir para a crise que vive o país. E, a partir daí, entrar no debate sobre duas questões, bastante recorrentes nas discussões no interior da esquerda brasileira atualmente: 1) O governo Dilma é um governo de esquerda? E que, por isso, estaria sendo atacado pela direita? 2) Qualquer ataque ao governo Dilma implica em fazer o jogo da direita? O que é fazer o jogo da direita no cenário político atual? Qual a tarefa da esquerda brasileira no momento político que vivemos?

A posição do PSTU

O PSTU não está propondo impeachment da presidenta Dilma. Não queremos colocar nas mãos deste Congresso Nacional corrupto e controlado pelo poder econômico, a solução da crise que o país vive. Tirar Dilma e deixar Temer (PMDB), ou gente como Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Aécio Neves (PSDB-MG) no lugar? O que mudaria?

O que nosso partido propõe é que os trabalhadores se organizem e lutem para derrubar o governo Dilma, mas também Aécio Neves, Eduardo Cunha, Michel Temer, toda essa turma. Todos foram financiados pelos banqueiros e empreiteiras (olha aí a operação Lava Jato). E estão todos unidos para jogar a crise econômica nas costas dos trabalhadores, com ajuste fiscal e eliminação dos nossos direitos para garantir o lucro dos bancos e das grandes empresas nacionais e multinacionais.

Por outro lado, defendemos e chamamos a CUT, a CTB, o MST, etc. a romperem com o governo Dilma; que a Força Sindical rompa com seu apoio a Aécio e Eduardo Cunha, e que convoquem a Greve Geral que tem sido defendida pela CSP-Conlutas. Uma Greve Geral que enfrente o governo do PT, Eduardo Cunha e a oposição burguesa encabeçada por Aécio e o PSDB, pois só assim vamos derrotar efetivamente o ajuste fiscal e os ataques aos nossos direitos. É por este caminho que a esquerda deve se unir.

O PSTU defende uma alternativa operária e socialista para o país. Um governo dos trabalhadores, sem patrões e sem corruptos, que governe o país apoiado nas organizações e na luta da classe trabalhadora e do povo pobre, e não em Congressos corruptos como o que temos aí. Só um governo desta natureza vai, de fato, enfrentar os interesses do imperialismo, dos bancos e das grandes empresas para mudar o Brasil e fazer valer os interesses dos trabalhadores e do povo pobre.

O governo do PT é de esquerda?

O cenário que vem sendo desenhado pelos setores que defendem o governo petista, em que o governo do PT seria de esquerda e, por isto, é atacado pela direita, não tem nada a ver com a realidade do país. Em primeiro lugar porque este governo não é de esquerda. O PT tem, sim, origens na esquerda brasileira, mas hoje é preciso discutir qual a sua localização. E o seu governo é uma composição com os setores fundamentais da direita brasileira. Está aí o sistema financeiro, com Joaquim Levy (Bradesco); o latifúndio e o agronegócio, com Katia Abreu (CNA e UDR); os empresários da indústria, com Armando Monteiro (CNI), ou seja, os três setores fundamentais do grande empresariado do país. E essa turma não está aí só para enfeitar. O MST pode dizer: quem manda na política do governo para a reforma agrária? O Patrus Ananias ou a Katia Abreu? A base de sustentação do governo do PT no Congresso começou com Eduardo Cunha (se alguém se esqueceu, é bom lembrar), Renan Calheiros (PMDB-AL), e conta com pérolas como Paulo Maluf (PP), Collor de Mello (PTB-AL), Pastor Feliciano (PSC-SP), José Sarney, sem falar de coisas como Delfim Neto.

Os governos petistas foram os que mais repassaram dinheiro público para os bancos com o pagamento da chamada dívida pública; nenhuma privatização feita pelos tucanos foi anulada, pelo contrário, seguem as privatizações, seja do petróleo e da Petrobrás, das estradas, portos e em um longo etc. Para aplicar o ajuste fiscal exigido pelos bancos e pelas grandes empresas, os direitos dos trabalhadores estão sendo atacados duramente. Estão aí as MP’s que Dilma baixou em dezembro contra o seguro-desemprego, o abono do PIS, a pensão por morte; o ataque à aposentadoria com o fator 85/95, em escala crescente para chegar a 90/100; o mal chamado PPE (Programa de Proteção ao Emprego) que não traz nenhuma garantia de estabilidade no emprego, mas sim de redução de salários. Tudo isso para não falar nos cortes de orçamento que afetam profundamente a saúde e educação públicas, a moradia popular, etc. A recessão, que se agrava com as medidas deste ajuste fiscal, já causa demissões de milhares de trabalhadores; a inflação sobe (olha o preço da luz, da água, da gasolina, do gás); os juros não param de subir; e, como não podia deixar de ser, nessa situação, o valor dos salários caem...

É este quadro que explica a estrepitosa queda da aprovação popular da presidenta. Os trabalhadores, classe operária em especial, estão revoltados com o governo do PT, pois foram miseravelmente enganados pelo governo deste partido. Se o governo e os dirigentes petistas se esqueceram das promessas e afirmações que fizeram na campanha eleitoral passada, saibam que os trabalhadores não se esqueceram nem vão se esquecer. É, portanto, absolutamente justa a revolta dos trabalhadores e o rechaço com que os mesmos tratam este governo.

Como classificar de esquerda um governo em que não só a direita participa com seus setores fundamentais, mas que também faz tudo que a direita quer? Não é preciso tirar o PT do governo para atacar os direitos dos trabalhadores, nem para impor uma agenda conservadora ao país. Isto tudo já está sendo feito, e não é contra o governo do PT, é com o governo petista, que aplica religiosamente a política dos bancos e das grandes empresas. A própria agenda conservadora do Congresso Nacional é sustentada, em grande medida, pela base parlamentar do governo petista, quando não conta com apoio diretamente da presidenta e do PT (não foi a própria Dilma que vetou a utilização dos “kit anti-homofobia” nas escolas e baniu das eleições o debate sobre o aborto no país?).

Alguns companheiros da esquerda petista, sabendo das contradições aqui apontadas, falam que é preciso defender o governo e ao mesmo tempo cobrar dele que rompa com os bancos e grandes empresários e aplique um programa voltado para os interesses dos trabalhadores. Ora, 12 anos atrás, quando Lula assumiu, estes mesmos companheiros diziam que o governo estava em disputa, e que seria necessário pressioná-lo para ganhá-lo para o lado de cá. Doze anos! E as coisas só pioraram desde então, e para os trabalhadores. Continuar a chamar os trabalhadores acreditarem em tal “conto da carochinha”, não pode ser visto como mera ingenuidade, vindo de correntes políticas conscientes do que fazem. Acaba sendo cumplicidade com o governo que aí está.

O outro lado deste cenário é a discussão sobre o impeachment. Apesar do alarde feito na grande imprensa sobre a proposta de impeachment, até agora nenhum representante de setores fundamentais da burguesia se pronunciou a favor da proposta (sem falar no apoio explícito do imperialismo, através de Obama, à presidenta Dilma). Em mais de um editorial, a Folha de S. Paulo e o Estadão (insuspeitos porta-vozes da direita tradicional) se posicionaram contra esta medida. Mesmo políticos do PSDB, como o governador Geraldo Alckmin, tem rejeitado a tese.

Isto pode mudar? Pode sim, e é importante registrar isso. Se Dilma perde o controle do movimento de massas – a revolta e as mobilizações dos trabalhadores não param de crescer no país – e não consegue o apoio necessário no Congresso para seguir tocando o ajuste fiscal e para colocar em dia a economia, o governo pode perder a serventia que tem tido até aqui para os bancos e grandes empresários. Um quadro assim poderia levar a setores fundamentais do empresariado a rever sua posição atual contra o impeachment.

Quem está fazendo o jogo da direita?

A partir do que está posto acima, vê-se nitidamente o maniqueísmo em que consiste esta prática de acusar os críticos mais coerentes do governo petista de “fazerem o jogo da direita”. Na verdade, trata-se de um recurso polêmico muito usado pelo estalinismo, no passado, para rebater qualquer crítica às burocracias que governavam a antiga União Soviética e vários países do Leste Europeu. Funcionou em grande medida, mas como se viu depois, estavam tratando de enganar os trabalhadores e defendendo o indefensável. Ao invés de ajudar os trabalhadores a lutar para se livrar daquelas burocracias e assim avançar na construção do socialismo (pois as burocracias estavam, elas mesmas, restaurando o capitalismo naqueles países), deixaram os trabalhadores à mercê da burocracia estalinista de um lado e, do outro lado, da propaganda capitalista e imperialista. Deu no que deu.

Voltando aos dias atuais, fazer o jogo da direita não é chamar os trabalhadores a lutar para derrubar o governo do PT e, junto com ele toda esta turma, de Aécio Neves a Temer e Eduardo Cunha. Trata-se de uma necessidade dos trabalhadores para derrotar o ajuste fiscal, parar os ataques aos seus direitos e para postular uma alternativa da nossa classe para governar o país. E é uma possibilidade concreta. Os trabalhadores já demonstraram a disposição que tem de lutar contra tudo isso que está aí (basta ver o que aconteceu no país em 15 de abril e 29 de maio). O que tem faltado é o papel da liderança.

A esquerda faz o jogo da direita quando defende este governo, quando chama mobilizações para tentar blindá-lo contra a “direita” (entre aspas porque grande parte da direita está dentro do governo, sem falar no programa que o governo aplica no país). Defender este governo faz o jogo da direita porque joga a classe trabalhadora – que repudia com toda razão o governo petista – nos braços da oposição burguesa, encabeçada pelo Aécio Neves. Deixa estes setores como única alternativa contra um governo que não faz outra coisa que atacar os direitos dos trabalhadores e os interesses do país. Ajuda o PSDB e Aécio a enganar os trabalhadores e a vender uma imagem de que são contra as políticas econômicas do governo petista, coisa que não são (na verdade são sócios do PT na aplicação do ajuste fiscal e dos ataques aos nossos direitos).

É preciso romper com o governo e convocar uma Greve Geral

As organizações dos trabalhadores que querem efetivamente lutar contra a direita e os ataques que são feitos aos direitos dos trabalhadores e os interesses do país, precisam romper com o governo petista. Este governo é a ponta de lança destes ataques, que são feitos para atender os interesses dos bancos e das grandes empresas. Defendemos que a CUT, a CTB, o MST, etc., rompam com o governo Dilma; que a Força Sindical rompa com seu apoio a Aécio e Eduardo Cunha, e que convoquem a Greve Geral que tem sido defendida pela CSP-Conlutas.

É necessária a convocação de uma Greve Geral que enfrente o governo do PT, Temer e Cunha do PMDB, a oposição burguesa encabeçada pelo PSDB e o grande empresariado, pois só assim vamos derrotar efetivamente o ajuste fiscal e os ataques aos nossos direitos. E é por este caminho que a esquerda precisa se unir para defender os trabalhadores, e criar condições para apresentar uma alternativa ao país. O PSTU defende que esta alternativa seja de classe e socialista, um governo dos trabalhadores, sem patrões e sem corruptos.

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