Que juventude é essa?

Jura que não percebeu? Tem certeza? Então olhe em volta de novo. E agora, notou? Ainda não? Ainda não viu nem ouviu? Está de olhos abertos? Sua audição funciona bem?

Pois saiba que você não é o primeiro nem o único: o problema é generalizado. Raríssimas pessoas estão se dando conta de que alguma coisa NÃO está acontecendo no país. E quando isso (não) acontece é hora de começar a se preocupar.

Porque, de algum tempo a esta parte, esse não-acontecimento, essa pasmaceira, essa apatia modorrenta, esse cobertor de silêncio envolveu tudo. A Esplanada em frente ao Congresso está vazia. Aquele trecho da Paulista, em frente ao MASP, está vazio. A Cinelândia está vazia. Os sindicalistas, os estudantes e os partidos de oposição entraram em modo avião. Não é estranho que tudo esteja tão tranquilo?

Que juventude é essa?

Cinco anos atrás, os manifestantes das chamadas “Jornadas de Junho” sacudiram o Brasil em todos os quadrantes a partir de uma reivindicação que hoje pode até parecer prosaica: a revogação de um   aumento de 20 centavos nas tarifas do transporte público. O coro dos descontentes – a maioria formada por jovens estudantes - ultrapassou as fronteiras e ecoou até no exterior.

Depois, os protestos que envolveram milhões de pessoas, além de exigirem a revogação do aumento das tarifas dos ônibus, abarcaram os gastos em grandes eventos esportivos internacionais, a má qualidade dos serviços públicos e a corrupção política. A incapacidade das esquerdas de captar e capitalizar a indignação popular, além do envolvimento dela própria no lodaçal da corrupção, forneceu o caldo de cultura para a aventura ultra-direitista em que o país foi atirado na última eleição presidencial.

Mais atrás, em 1992, o Brasil também foi sacudido por manifestações indignadas a favor do impeachment do então presidente Collor, que terminou renunciando por conta da merreca de um Fiat Elba que hoje não serve nem de troco para as falcatruas bilionárias praticadas nos últimos governos.

Mais atrás, em 1984, milhares de pessoas vestidas de amarelo correram o Brasil exigindo eleições diretas – as Diretas Já.

Que juventude é essa?

Hoje, estranhamente, uma estranha calmaria se estende sobre o país. Não se ouve um grito, não se vê uma faixa, não se ouve nenhuma buzina ou megafone, não se vê nenhum carro de som percorrendo as ruas para protestar. E olha que os motivos de agora são infinitamente superiores aos dos 20 centavos de 2013.

Não só no Brasil, mas em qualquer nação civilizada do mundo, a população já teria ocupado as ruas para protestar e exigir a revogação do aumento imoral de mais de 16% nos salários das excelências que ocupam as cadeiras da mais alta corte de justiça do país. E que, para fazer aquele trabalho, recebem um salário mensal de quase R$34 mil bagarotes, aforante os carrões bonitos com tanque cheio, passagens aéreas, ajuda de custo y otras cositas más.

Desde o início da Operação Lava Jato, em 2009, dezenas de corruptos de alto coturno foram parar no xilindró, inclusive Lula, ex-presidente da república do PT, considerado o mais popular desde Getúlio e JK. Junto com ele pagam cana o ex-presidente da Câmara, o cleptomaníaco Eduardo Cunha. E toda uma corja de ladrões dos cofres públicos. Pois Eduardo Cunha está arrumando a valise para... deixar a cadeia!

Pela mesma porta aberta pelo Supremo também sairão bandidos notáveis, como Antonio Palocci, José Carlos Bumlai, Jorge Argelo, João Claudio Genu, no total uma cambada de 22 ladrões dos cofres públicos. A pouca-vergonha da liberação dessa raça vai acontecer tão logo seja concluído o julgamento do recurso contra a amplitude desmesurada do indulto presidencial que Temer vai conceder neste Natal. Tal como, no passado, Dilma concedeu e livrou da cadeia Roberto Jefferson e João Paulo Cunha, pra lembrar apenas dois.

Que juventude é essa?

Maioria no Supremo já existe. A não ser por uma improvável mudança de posição de algum ou de alguns ministros, o que pode acontecer até o final do julgamento do recurso, a porta da cadeia está apenas encostada. E não se ouve um grito de protesto, uma faixa ali na frente do Supremo. Nada.

E nem estamos falando da indignação contra um futuro presidente acusado de apologista da tortura, de racista, de homofóbico, de misógino e de tudo o mais que possa caber no pântano das imbecilidades que sempre disse (e repetiu) impunemente. Também não estamos falando das mordomias que sugam o dinheiro que poderia salvar vidas em hospitais ou dar futuro a dezenas de meninos sem escola. E nem lembramos da mais formidável quadrilha de ex-governadores do Rio de Janeiro, que transformou a Cidade Maravilhosa na Capital Nacional da Canalhice.

Que juventude é essa?

E então? Consegue ouvir o silêncio retumbante que envolve tudo, a onda de apatia que tomou conta de almas e mentes, o torpor e a amnésia cívica na qual o país mergulhou? Cadê aquele ímpeto indignado de 2013? Onde foi parar a revolta cívica dos caras-pintadas de 1992? E a mobilização republicana das Diretas Já de 1984?

Que diabo está acontecendo com o Brasil, principalmente com sua juventude?

Que juventude é essa/ Que não tem mais pressa / Que não vai pra praça / Que perdeu a graça / Que não tem mais raça /E que não grita:

    - Chega!

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