Qualidade de vida no trabalho sem assistencialismo

Carla Sabrina Xavier Antloga *

Com o objetivo de propor programas de qualidade de vida no trabalho (QVT), sob a abordagem da ergonomia da atividade e não com base na visão hegemônica do tema, como vem sendo tratado pelas áreas ditas de recursos humanos, foi desenvolvida uma pesquisa em uma instituição financeira de grande porte. Com base nesse estudo, foram traçadas propostas teóricas e linhas de ação.

A elaboração de programas de qualidade de vida no trabalho de forma participativa visa contemplar três campos de preocupação: o equilíbrio no bem-estar dos trabalhadores, a satisfação do cliente-usuário e eficácia das organizações. A proposta, aqui, é investir no enfoque de natureza preventiva, contra-hegemônica à concepção de qualidade de vida no trabalho assistencialista, que se apoia em atividades compensatórias e do tipo antiestresse.

Se o foco hegemônico ampara-se na busca de produtividade e mascara tal pressuposto, por meio de programas e ações do tipo ioga laboral, massagem e canto coral (o chamado "ofurô corporativo"), a linha preventiva da ergonomia da atividade aplicada à qualidade de vida no trabalho propõe agir nos problemas que geram o mal-estar no contexto da produção.

Isso se dá pela atuação em cinco dimensões interdependentes: condições, organização e relações socioprofissionais de trabalho; reconhecimento e crescimento profissional; e o elo trabalho-vida social. Nesse enfoque, a produtividade deixa de ser o foco exclusivo da QVT e se torna consequência dela. Daí o estudo feito em 2009 nessa instituição financeira.

Para tal, foram selecionados 30 ocupantes de cargos técnicos ou de assessoria, que trabalham em ambiente compartilhado e com recursos tecnológicos como computador em rede, telefone e controle de jornada por ponto eletrônico.

Após a pesquisa, em relação à intensificação do trabalho, em que pese o caráter global do fenômeno, foi sugerido à organização estudada: adotar práticas de incentivo à realização de pausas entre as atividades ao longo da jornada; apoiar ações colaborativas entre funcionários, visando à otimização de recursos e conhecimentos; e adotar postura receptiva a sugestões para a melhoria da organização do trabalho, inclusive quanto à carga e à gestão do cumprimento de metas.

Aos gestores também foi recomendado o acompanhamento próximo das atividades dos funcionários, com vistas a implementar intervenções, quando necessárias, visando à eliminação ou à redução de fatores geradores de mal-estar no trabalho.

Quanto ao conforto no trabalho, o estudo recomendou a realização de análise ergonômica do trabalho para verificar, além dos problemas posturais, outras questões relacionadas ao conforto físico, como a interação com mobiliário, equipamentos e ambiente, e à organização do trabalho.

Com o objetivo de diminuir as dificuldades no uso de softwares livres, foi

recomendado treinamento para esses aplicativos, com ênfase nas diferenças em relação aos softwares comerciais. E sugerida a oferta de cursos de softwares diversos, incluindo módulos digitais para utilização nas estações de trabalho dos funcionários e disponibilização de suporte técnico.

Em relação à sobrecarga informacional, para reduzir a quantidade de e-mails indevidos, foi recomendado: implantar sistema de inibição do envio de e-mails a funcionários em férias, licença-saúde ou ausência prolongada, com redirecionamento da mensagem a caixas postais corporativas; desenvolver política de orientação sobre uso racional do correio eletrônico, para evitar envio de cópias indevidas ou desnecessárias e priorizar o encaminhamento de mensagens às caixas corporativas. E uma política de incentivo a textos concisos, com limitação de caracteres, para diminuir o tempo gasto com informações desnecessárias.

Em relação às limitações impostas pelo ponto eletrônico, foi proposta pesquisa com funcionários e gerências para obter insumos que pudessem torná-lo mais flexível, permitindo ao usuário maior margem de manobra e autonomia, sem que isso provocasse a perda de controle pelo empregador do cumprimento da jornada de trabalho.

* Psicóloga do trabalho, doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília, onde é professora. Presidente da comissão científica do II Congresso de Qualidade de Vida no Serviço Público Brasileiro www.cqvtspb.com.br, que será realizado em Brasília, em agosto de 2013.

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