Presidente Bush, conta outra

Cláudio Versiani, de Nova York*



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Enquanto o assunto tortura não sai de cena na mídia americana, uma outra denúncia tão grave quanto, ou até pior, não obteve muito ibope na grande imprensa, à exceção do jornal Boston Globe. Em compensação, a blogosfera caiu matando. Viva a internet, onde a informação circula livremente, ou quase.

Em novembro de 2004, o website Islam On Line denunciou que os americanos haviam jogado bombas incendiárias sobre a cidade de Fallujah. Os EUA negaram. Admitiram que as bombas de fósforo (white phosphorus, também conhecidas no jargão militar como Willy Pete ou WP) tinham o objetivo de iluminar o campo de batalha à noite. O uso de bombas de fósforo contra alvos civis é proibido por convenções internacionais. Os EUA são um dos 130 países signatários da Convenção de armas químicas das Nações Unidas. Existe uma controvérsia se o fósforo branco é arma química ou não. Pura semântica, porque o efeito do fósforo é devastador.

Além do fósforo, os soldados americanos também usaram, pelo menos uma vez, bombas incendiárias conhecidas como Mark 77, um napalm mais eficiente (sic).

Quão confiável pode ser um site muçulmano? Pode-se imaginar que tenha a mesma credibilidade do Washington Post para um iraquiano. E a denúncia ficou por isso mesmo. Um ano depois, um documentário de vinte minutos, veiculado em 7 de novembro pela RAI, a TV estatal italiana, comprovou o uso de fósforo contra civis. O filme Fallujah: The hidden massacre é para quem tem estômago. É muito feio e duro de ver. Pode ser visto em vários websites, como este.

A batalha campal de Fallujah foi precedida de bombardeios aéreos. A água e a energia elétrica da cidade de 300 mil habitantes foram cortadas, e as entradas, bloqueadas. Comida também não chegou, e 200 mil residentes abandonaram suas casas. As forças americanas calcularam que, entre os que ficaram, de 600 a seis mil insurgentes ou rebeldes eram civis. No dia 8 de novembro, dez mil soldados americanos e dois mil recrutas iraquianos começaram a entrar na cidade, apoiados por tanques, artilharia, aviões e helicópteros. Foram três semanas de batalha. A imprensa, a Cruz Vermelha e o seu braço islâmico, o Crescente Vermelho, ficaram do lado de fora. Os americanos calculam que duas mil pessoas morreram, a maioria era combatente. ONGs iraquianas discordam e estimam que as baixas foram de quatro mil a seis mil, a maioria civis.

O documentário mostra vídeos e fotos dos mortos. Além disso, soldados americanos que participaram da batalha são entrevistados e atestam o uso de fósforo como arma contra a população civil. O fósforo consome a pele e a carne até chegar aos ossos. Alguns não tiveram nem tempo de pensar em escapar, eles estavam em suas camas ao morrerem. Jeff Englehart, entrevistado no documentário e identificado como ex-soldado americano que fez parte do assalto a Fallujah, diz: “Eu sei que o fósforo foi usado. Fósforo mata indiscriminadamente. Eu vi corpos carbonizados, corpos de mulheres e crianças”. Ele afirma ter ouvido a ordem para ser cuidadoso porque bombas de fósforo estavam sendo usadas.

O Pentágono sempre negou o uso de armas químicas no Iraque. Bombas de fósforo só foram usadas para iluminar posições inimigas, o mesmo discurso de sempre. Confrontado com novas evidencias, o Departamento de Estado reconheceu o uso de armas químicas em Fallujah. O governo já havia admitido o uso de Napalm em 2003 no começo da guerra, quando o exército americano ainda estava a caminho de Bagdá.

Em março de 2005, a revista Field Artillery, publicada pelo exército americano, trouxe um artigo sobre a batalha de Fallujah. No capítulo munições, está detalhado o armamento usado pelas forças da coalizão. As bombas de fósforo estão relacionadas. O artigo é assinado por um capitão, um tenente e um sargento. Eles contam como o fósforo foi usado como arma. O assunto explodiu na imprensa mundial, principalmente na Itália, onde o documentário foi exibido. Mas, nas terras do Tio Sam, ainda é tratado com muita parcimônia pela grande imprensa.

O fato é que o governo George Bush está perdido. As notícias ruins não param de explodir no colo de Bush. O presidente tem viajado bastante, na volta da Cúpula das Américas, parou no Panamá, tentando ganhar fôlego para encarar mais um escândalo do seu surreal governo.

O jornal Washington Post revelou que a CIA tem prisões clandestinas espalhadas pelo mundo. Seriam pelo menos oito e abrigariam cem suspeitos de terrorismo. Os prisioneiros, que não são acusados formalmente de nada, estariam sofrendo maus-tratos. Em outras palavras, estariam sendo torturados.

No Panamá, o presidente americano foi enfático: “Nós não torturamos”. Bush tentava justificar a existência das prisões secretas da Agência de Inteligência. Na guerra contra o terror, a lei não vale para a CIA. Depois das infames fotos de Abu Graib, após as várias denúncias de tortura na prisão de Guantanamo em Cuba e os relatos dos próprios soldados americanos contando como torturaram e mataram, Bush só pode estar desconectado da realidade. Se foi uma piada, foi de mau gosto.

A tortura é proibida nos EUA, assim como também é vedado manter alguém preso clandestinamente. O plano da CIA era colocar os supostos terroristas fora do território americano e ficar livre para poder fazer o que bem entender. Nada se sabe sobre esses prisioneiros, qual a acusação que pesa contra eles, como são tratados e quanto tempo vão permanecer na cadeia. Só a CIA tem acesso a eles. Segundo o Post, as prisões, conhecidas como black sites, estão espalhadas por oito diferentes lugares do planeta. Tailândia, Paquistão, Indonésia, Marrocos, Emirados Árabes, Romênia, Bulgária e Polônia são suspeitos. O jornal não revelou quais seriam os países anfitriões. Já deu uma grande confusão na comunidade européia.

Ao mesmo tempo, o senador republicano John McCain, ex-piloto que passou mais de cinco anos como prisioneiro no Vietnã, dois dos quais em uma solitária, tenta aprovar uma lei no Congresso proibindo a tortura em prisioneiros sob a custódia do governo americano. O vice-presidente Dick Cheney foi escalado pelo governo para tentar barrar a proposta do senador McCain. Cheney já perdeu a parada no Senado, agora ele continua o seu lobby desavergonhado na Câmara. Cheney agora é assessorado por um novo chefe de gabinete, um tal de David Addington, o sujeito que, em 2002, ajudou a escrever o infame memorando da tortura legalizada. Se a lei for aprovada, Bush pode vetar. Seria a primeira vez que o presidente exerceria o poder do veto.

Na guerra ao terror, o governo Bush conseguiu aprovar uma legislação de exceção. Quem for declarado inimigo ou ameaça à segurança nacional, não tem nenhum direito. Em Guantanamo – e agora se sabe que em outros lugares do mundo – existe uma boa quantidade de pessoas presas nessa situação.

Tome como exemplo a história de Badr Zaman e Abdurrahim Dost. Dois irmãos afegãos que fugiram para o Paquistão durante a ocupação soviética do Afeganistão. Lá participaram de um jornal de resistência. Com a saída dos soviéticos, o regime Talibã passou a ser o novo alvo. Em 1998, a administração Clinton ofereceu US$ 5 milhões pela captura de Osama Bin Laden. Dost escreveu um artigo sugerindo que os afegãos deveriam oferecer 5 milhões de afeganis (moeda afegã) pela captura do presidente Bill Clinton. Era só uma ironia com a pobre economia afegã, já que o dinheiro equivalia a míseros US$ 113. Não deu outra, os irmãos foram seqüestrados por agentes da inteligência do Paquistão, encapuzados, algemados e entregues aos americanos. Os irmãos passaram três anos tentando convencer os americanos da piada e que eles não representavam nenhum risco aos Estados Unidos da América. Foram três anos de Guantanamo. Não foram torturados, mas Dost passou um bom tempo na solitária, o que ele considera pior do que tortura.

E os casos existem aos montes. O libanês Khaled el-Masri foi preso porque tinha o mesmo nome de um suposto terrorista da Al Quaeda. Foram cinco meses de prisão no Afeganistão até que os americanos se dessem conta do erro. Ou pior, Ahmed Abu Ali é americano. Ele ficou vinte meses preso na Arábia Saudita. Ele é acusado de tentar introduzir membros da Al Quaeda nos EUA, pirataria aérea e ainda de planejar matar o presidente Bush. Abu Ali vai ser julgado no estado da Virgínia e, se for condenado, passará o resto da vida na cadeia. Na Arábia Saudita, ele foi interrogado por 18 meses, das 20 horas até as 6 horas, mantido em solitária e sem direito a advogado. Ele confessou seus crimes, mas seu corpo exibe evidências de espancamento. Enfim, o processo de Abu Ali está cheio de irregularidades. Mesmo assim, ele será julgado.

Não se pode esquecer que os ideais de justiça e liberdade nortearam a fundação deste país. Não se deve esquecer que Bush é o legitimo representante da idéia do xerife do mundo. Para quem pensa que só existem Bushs por aqui, o ex-presidente Jimmy Carter escreveu um contundente artigo no jornal Los Angeles Times.

Em uma tradução literal, Carter diz: “Ando muito preocupado com as radicais políticas patrocinadas pelo governo que ameaçam nossos princípios básicos, incluído aí o compromisso com a paz, a justiça social e econômica, as liberdades civis, o meio ambiente e os direitos humanos. Apesar dos custos, existem grandes esforços de nossos líderes para exercerem o domínio imperial americano em todo o mundo… Agora nós sofremos a violação de nossas liberdades civis e privacidade pelo Ato Patriótico… Outra grande preocupação é que os EUA repudiaram a Convenção de Genebra e adotaram o uso da tortura no Iraque, no Afeganistão e em Guantanamo… É constrangedor ver o presidente e o vice-presidente insistindo que a CIA deve ser livre para praticar cruel, desumano, degradante tratamento, ou punição aos presos sob custódia do país… É tempo dos americanos se unirem no compromisso histórico e valores morais que adotamos nos últimos 230 anos.”

Mais uma vez, o país está dividido entre liberais e conservadores. Esse é o eterno embate da sociedade americana. Mesmo os que não gostam de Carter, começam a perceber que George W. Bush foi longe demais. Mas agora é tarde, o governo Bush vai até janeiro de 2008.

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