Por onde anda a Cortina de Ferro?

Dia desses, percorrendo um aeroporto, fiquei a recordar a expressão “Cortina de Ferro”, celebrizada por Winston Churchill em célebre discurso proferido nos idos de 1946, em Fulton.

A ideia representada por esta expressão era de uma simplicidade chocante: havia no mundo uma “Cortina de Ferro” dividindo tudo. De um lado a liberdade, e do outro a opressão. Aqui o bem, e lá o mal. Antes dela os direitos humanos, depois dela a tortura e a inclemência. Era um mundo mais simples.

Naqueles dias, era moda no Ocidente retratar como símbolo da opressão as longas filas de passageiros que se formavam no aeroporto de Moscou, fruto das rígidas medidas de segurança lá adotadas. Pais e mães eram revistados na frente dos filhos por policiais armados, em um ambiente sempre tenso e carregado. Isto não acontecia e não aconteceria jamais “do lado de cá”, trombeteavam na época os líderes das democracias ocidentais.

E que dizer da tortura e dos tratamentos desumanos? Naqueles dias de chumbo, os presos eram muitas vezes despachados para a distante Sibéria, onde, distantes de suas famílias, eram submetidos a toda sorte de infortúnios de natureza física e psicológica. Coisa que, decididamente, o Ocidente cristão jamais permitiria, conforme juravam na época os governantes das tão humanas civilizações do lado de cá.

Havia também o fim da privacidade. Sob as sombras da “Cortina de Ferro” o simples ato de dar um telefonema ou escrever uma carta era algo arriscado, sujeito ao controle de uma polícia onipresente. Os olhos e ouvidos do Estado estavam em todo lugar, controlando tudo o que era escrito, falado ou publicado - coisa que do lado de cá seria impensável, conforme gritavam em discursos violentos, naquela época, os líderes ocidentais, ativos defensores dos valores da liberdade de expressão e da privacidade.

E eis que, um belo dia, a “Cortina de Ferro” caiu. Virou pó. Transformou-se em reminiscência histórica. Hoje só ouvimos falar dela nas enciclopédias. E aí o mundo respirou aliviado. Toda a humanidade celebrou o fim do autoritarismo e da opressão. Finalmente passou a reinar a alegria!

Esta alegria, eu a vejo na face de cada pessoa que hoje, neste Ocidente democrático e libertário, diz a frase “não posso falar por telefone, só pessoalmente”. Com que felicidade os ocidentais, hoje, têm suas mensagens de correio eletrônico fiscalizadas e monitoradas por poderosos sistemas de vigilância! Afinal, tudo isto acontece em nome da liberdade!

Dá gosto ver nos dias atuais chefes de família, crianças e idosos sendo revistados e até desnudados nos aeroportos ocidentais - todos usufruindo do ambiente leve e alegre que o combate à opressão nos proporcionou e proporciona!

E que dizer dos presos? Lá vão eles, em estado de total euforia, rumo aos vários centros de detenção espalhados pelo planeta afora. Nestes locais, distantes de suas famílias e até mesmo dos seus países, serão submetidos não mais a sessões de tortura - coisa da “Cortina de Ferro” - mas a “procedimentos especiais de interrogatório”, previstos e regulamentados por escrito. Será assim, entre uma simulação de afogamento e outra, que celebrarão a alegria que somente a garantia do absoluto respeito aos direitos humanos preconizada pelo Ocidente pode proporcionar.

Ironias à parte, cheguei a uma conclusão: qualquer civilização que abandonar seus valores mais sagrados para combater seja lá o que for somente encontrará a derrota. A “Cortina de Ferro” que o diga!

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