Pequeno guia para os embates políticos do momento: um manual prático

Ricardo de João Braga *

O Brasil está no caminho certo? Você sabe qual é o melhor caminho? Segue um breve manual autoral e um repertório de ideias para ajudá-lo a participar do momento político brasileiro atual de forma “qualificada”.

Se quer apoiar o governo, leia O Capital (Karl Marx), A Grande Transformação (Karl Polanyi), Formação Econômica do Brasil (Celso Furtado), História Econômica do Brasil (Caio Prado Jr.), Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento (Florestan Fernandes), tenha saudades da Cepal dos anos 50 e 60 e afirme que este governo está lutando para dar um destino autônomo ao país, para emancipar o povo, para criar um capitalismo nacional (talvez mesmo como preparação para o socialismo). Você pode utilizar como palavras de ordem o ataque ao imperialismo e às perdas internacionais, pode sempre retirar da manga o argumento que a classe trabalhadora é explorada, pode também ─ está muito na moda ─ identificar a classe média brasileira à pequena burguesia e todo cidadão crítico a um machista conservador que odeia pobres, nordestinos e direitos das mulheres e minorias. (Se estiver num ambiente mais acolhedor, diga que Cuba é uma grande democracia e que lá o poder econômico não influencia as eleições, que são livres). Saiba que o mundo é dividido entre o bem (a sua causa) e o mal, e aquele que leu os mesmos livros que você é do bem, os outros, do mal. Neste caso você deve se esquecer que boa parte do eleitorado do PT hoje tem ideias conservadores, e que a mesma classe média pequeno burguesa de 2015 era a elite intelectual que apoiou as várias campanhas presidenciais de Lula no passado.

Esqueça também que foi o capitalismo que multiplicou por centenas de vezes a capacidade produtiva e tecnológica de nossa sociedade, com avanços na medicina, nos transportes e na comunicação (evite falar ao celular ou ser visto utilizando-o, pois é um invento capitalista). Ignore solenemente o fato de que os países mais ricos e desenvolvidos são também aqueles com mais liberdades civis. Não hesite, não tenha dúvidas. Se precisar, parta pro confronto.

Se você deseja atacar o governo, leia A Riqueza das Nações (Adam Smith), O Caminho da Servidão (Friedrich Hayek), A Revolução dos Bichos e 1984 (George Orwel), aprenda sobre as Expectativas Racionais (Robert Lucas) e a PublicChoice (J. Buchanan; G. Tullock), acredite que o FMI e o Banco Mundial são órgãos apenas técnicos e afirme que os adversários do governo estão realmente interessados em adotar uma nova forma de governar, com menos Estado, mais transparência e mais liberdade econômica. Neste caso você pode sempre atacar o governo por ser ineficiente, ladrão e corrupto, por comprar votos do povo com o programa assistencialista Bolsa Família e por dar direitos a falsas minorias e a vagabundos. Acredite que aquele que não percebe a ciência destes argumentos é burro, e você, inteligente. Neste caso você deve esquecer que as ideias e os programas liberais fizeram a Bolívia privatizar a água da chuva, o Chile acabar com a previdência pública, a Argentina cortar direitos trabalhistas e terem ajudado a América Latina ter sido e continuar sendo um continente exportador de produtos agrícolas tropicais e minérios (que paga baixos salários e tem uma enorme quantidade de pobres).

Deve esquecer também que os países que tem se desenvolvido nas últimas décadas investiram muito em educação e deram forte apoio estatal às indústrias e às exportações. Se vir um pobre na rua, fique tranquilo, afirme que ele não quis estudar e não gosta de trabalhar, enquanto você no seu carro merece o que tem pelo trabalho duro e pelo estudo.Não hesite, não tenha dúvidas. Se precisar, parta pro confronto.

ALERTA: para permanecer convicto não misture os autores das duas listas. Ao contrário, ataque a lista adversária (sem mesmo ter lido e compreendido) e acuse-a de “ideologia barata”. Permaneça firme na que você escolheu!

Se espera encontrar no panorama político brasileiro um grupo impoluto e que irá lhe salvar, evite ler Os Donos do Poder (Raymundo Faoro) ou A Gramática Política Brasileira (Edson Nunes). Neste caso, ignore sempre os argumentos sobre patrimonialismo, familismo, nepotismo, etc. Evite a todo custo ler Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre) ou Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda), mas caso leia estes livros, de forma alguma olhe-se no espelho, sob pena de parar de acreditar no Brasil (você é o Brasil). Não duvide da chegada de um salvador da pátria, e ignore que o sistema político é reflexo das relações sociais criadas e mantidas no dia a dia.

Contudo, caso você acredite que o meio termo, o equilíbrio, a razoabilidade podem fazer algum sentido, caso acredite que você tem importância na superação do conflito atual, leia todos os livros acima e considere que eles não estão de todo certos, nem de todo errados. Neste caso acrescente também algum livro da religião de sua preferência, ou algum pensador que lhe agrada, e leia sempre com uma perspectiva humanista. Parecerá claro a você que o diálogo e a serenidade são o melhor caminho.

* Ricardo de João Braga é doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj) e economista. É professor do Mestrado Profissional em Poder Legislativo, da Câmara dos Deputados.

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