Pedro Ribeiro Nardes, o tropeiro

João Augusto Ribeiro Nardes*

O descobrimento do Brasil deu origem a um tipo especial de indivíduos. Para cá vieram não só os portugueses, mas também os cristãos-novos, ou conversos, judeus e muçulmanos convertidos ao cristianismo, que fugiam de Portugal e da Espanha. O sangue europeu, carregado da forte influência árabe resultante de nove séculos de invasão da Península Ibérica, fundiu-se ao sangue do índio que habitava estas terras, e essa mistura formou no Brasil o protótipo de inúmeras gerações de futuros brasileiros com características ímpares. Tropeiro, desbravador e visionário, Pedro Ribeiro Nardes personifica essa mistura e foi exemplo desse indivíduo forjado nas terras do Novo Mundo.

Nasceu em Paranapanema, estado de São Paulo, aproximadamente em 1791, e suas origens o auxiliaram em sua caminhada. Ao atuar de forma pioneira na criação de Bauru, certamente o sangue indígena foi decisivo quando percorreu as matas para chegar ao seu destino e alargar horizontes, impulso nato nos índios nômades e sem fronteiras. Anos mais tarde, cansado do confronto com os índios e da vida perigosa que levava, resolveu investir em outras regiões além de Bauru e partiu com sua família para as bandas meridionais do Brasil, migrando para o Paraná.

Essa migração para o sul nada mais era do que a retomada de sua profissão de tropeiro, marcante em sua história. Pedro Ribeiro Nardes foi um homem inquieto e determinado, que não se entregava na primeira refrega, pelo contrário, uma eventual derrota lhe dava mais força para seguir em frente. Esse temperamento sobressaiu com força quando se tornou tenente e comandou tropas entre a região Sul e São Paulo. Nessa ocasião, sofreu também influência dos bandeirantes, dos portugueses que desbravaram os mares em busca de desafios, pois trazia consigo a mesma inquietude desse povo que vivia em um espaço pequeno, avançando nos campos em busca da terra prometida.

Alguns anos mais tarde, assim como seus antepassados judeus buscaram durante séculos uma terra onde pudessem fincar raízes, terra que é hoje o Estado de Israel, também Pedro Ribeiro Nardes teve seu momento de buscar uma terra, desenvolver uma fazenda e cuidar de plantações. Tinha o propósito visionário de preparar o futuro para suas vindouras gerações. No período da Guerra dos Farrapos, entre 1835 e 1845, de cujos combates certamente participou, batizou uma neta em Lages, localizada na divisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, sinal de que já nesse período tropeava entre as Missões e São Paulo, instalando sua família no Sul com o objetivo de ali se estabelecer definitivamente.

Todas essas influências em sua formação, provenientes da miscigenação, da emigração e da migração no Brasil, forjaram uma genética com traços herdados de um caldeirão de etnias e incrementada por uma personalidade aventureira que sempre buscou o novo. Ávido por querer decifrar esse novo homem dos trópicos da América Latina, procurei a ajuda da pesquisadora Janice De Franceschi. Durante a pesquisa, que durou mais de três anos, Pedro sempre nos manteve surpresos e estimulados a saber mais. Quando perdíamos as esperanças, ele sempre nos presenteava com mais uma informação. Assim, continuávamos a fazer as ligações do mosaico humano da família Ribeiro Nardes, de cuja primeira geração Pedro fez parte.

Seus passos o levaram a muitas vitórias e também o mantiveram em pé quando as derrotas foram inevitáveis. Afinal, trabalhar com tropas, por si só, era uma missão muito difícil. Enfrentar o frio, especialmente no Sul, em julho e agosto, com geadas e temperaturas negativas, requereu muita perseverança, uma vez que a proteção contra esses obstáculos naturais eram o seu poncho, a carreta, os cavalos e as mulas, sendo as últimas mais utilizadas, posto que mais resistentes às intempéries. Mesmo assim, ultrapassar rios e enfrentar um clima adverso fazia qualquer ser humano pensar duas vezes antes de iniciar uma jornada sem saber o que encontraria pela frente. Creio que este destemor talvez tenha contribuído para o desencadeamento da tragédia que foi a perda de sua filha na Lapa, Paraná, quando os índios, cansados de terem suas terras invadidas, responderam com um ataque mortal. A determinação de Pedro Ribeiro Nardes, porém, era de tal envergadura que isso não o fez desistir, continuou sua caminhada em direção aos seus sonhos.

Quando iniciamos a pesquisa, não sabia da importância de Pedro Ribeiro Nardes, meu trisavô, cujos méritos começam pela sua saga em Bauru e prosseguem em sua vida como tropeiro, se transformando em tenente e tendo sido registrado como um dos que ajudaram na reconstrução das Missões. Fazia o vai e vem com tropas de quinhentas mulas ou com mil cabeças de gado entre o Rio Grande do Sul e São Paulo, muitas vezes indo até Minas Gerais para reencontrar os rastros de seu antecedente Leonardo Nardes, que descobriu as minas de ouro de Caeté.

Percorrendo os caminhos do Sul, provavelmente encontrou sua identidade nas coxilhas das Missões, planícies onduladas que desafiam um campeiro que saiba montar bem seu cavalo.

Pela mesma estrada boiadeira por onde chegaram muitos tropeiros no mesmo período que ele, Pedro Ribeiro Nardes foi o elo entre a família que ficou em Itapetininga, os que passaram pela Lapa e os que se estabeleceram em Santo Ângelo. Uma das perguntas de nossa pesquisa para a qual não encontramos resposta exata é: quando a família Ribeiro Nardes teria se estabelecido nas Missões. Tínhamos a informação de que, no ano de 1855, Pedro havia registrado suas terras nas Missões. Em período estimado em torno de 1840, ele começou a planejar a sua vinda definitiva para Santo Ângelo. Um documento que encontramos na Biblioteca Nacional, datado de 1847, comprova que nesse ano estava abrindo estradas nas matas entre os campos de Giruá. Poderia ser esse o início da sua ocupação do local por tropeiros vindos do Paraná e São Paulo. Esse documento comprovava que Pedro havia deixado de tropear e fixado residência nas Missões, pois seus negócios aqui tinham continuidade.

Santo Ângelo nesse período estava sendo novamente ocupada, desta vez por aqueles que eram incentivados pelo Império Português a colonizar esta região.

Assim deve ter sido a retomada da nova fase de Santo Ângelo e das Missões por tropeiros oriundos de Portugal, passando algumas gerações por São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Muitos vieram também de Sacramento, onde viviam portugueses mesclados com espanhóis. Os tropeiros foram responsáveis pela criação de boa parte das cidades que existem hoje no Brasil. Pedro, o símbolo do tropeirismo em minha família, deve ter feito dezenas de jornadas entre o Sul, passando por Santa Catarina, Paraná, chegando a São Paulo e Minas Gerais. Em tropeadas que duravam quatro, cinco meses, encontrava reveses em seu caminho. Para transpor essas adversidades, contava com os atributos característicos dos grandes homens de sua época: a valentia; a coragem; a determinação para enfrentar os obstáculos, que podiam ser grupos de castelhanos que não aceitavam perder as suas terras, ou índios que lutavam para não entregar o seu território tomado em período que precede as tropeadas de Pedro Ribeiro Nardes.

Os tropeiros lutaram para formar o território brasileiro, com suas atuais delimitações, sobre as patas de seus cavalos e com lanças nas mãos. Se assim não o tivessem feito, talvez hoje não existisse a mesclada cultura brasileira. Foram os tropeiros que avançaram pelo solo nacional deslocando a linha de nossas fronteiras e demarcando o território brasileiro. Foi esse o legado desses grandes homens, que ora homenageamos na figura imortal e histórica de Pedro Ribeiro Nardes.

*Augusto Nardes é presidente do Tribunal de Contas da União (TCU) e ex-deputado federal

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