Parlamento só acendeu o sinal amarelo porque amarelou 

Demorou muito até a ficha cair, mas ao cair a ficha desabou com estrondo no colo do ocupante da cadeira mais alta da Praça dos Três Poderes.  Os “nobres” parlamentares do Centrão começam a perceber que a adesão fisiológica a Bolsonaro e a seus desmandos pode lhes custar muito caro, inclusive a reeleição. Como esse é o ponto nevrálgico de qualquer animal político, começaram a desconfiar que o preço pelo apoio ao capitão ficou alto demais. E pode ter chegado a hora de pular fora do barco. Ou, pelo menos, de vestir um colete salva-vidas. Ou mesmo de usar máscara e manter prudente distanciamento social de Bolsonaro. Até porque, para a maioria deles, tanto faz que morram 300 mil, 500 mil ou 1 milhão de brasileiros para a covid. Mas qualquer ameaça à sua reeleição ou a seus projetos políticos, aí sim, acende o sinal amarelo.

Quando uma figura de proa do Centrão, como o pepista Arthur Lira, Presidente da Câmara, eleito com apoio explícito do Palácio do Planalto, afirma em discurso escrito – ou seja, pensado, repensado e revisado - que “acendeu o sinal amarelo” para o Executivo, na verdade revela que ele e seu grupo foi que amarelaram diante do risco de serem considerados pelo eleitorado como cúmplices de um governo frouxo, negacionista, genocida, insensível e irresponsável, que levou o país a se tornar um risco sanitário para o mundo.

O medo das urnas é maior que o dos mortos 

Dá pra contar nos dedos os políticos que atuam visando verdadeiramente o interesse público. Mas vão faltar dedos pra contar os que atuam visando exclusivamente seus interesses pessoais. Por isso, o ponto de inflexão que levou lideranças pesadas do Centrão a ameaçarem a sobrevivência política de Bolsonaro não se deveu diretamente ao colapso do sistema de saúde nem ao crescimento vertiginoso no número  de mortos. Os sensores de suas excelências só acusaram o perigo de explosão – leia-se: de risco aos seus planos políticos – quando começaram a ouvir do eleitorado que precisam assumir seu papel de representantes do povo, e não de garantidores de um governo negacionista que anda na contramão do mundo. Caso contrário, poderão receber o troco nas urnas.

E que fique claro: essa ficha caiu tarde, muito tarde, talvez tarde demais. Porque, se Bolsonaro é a figura central a responder no tribunal da história pelos crimes que vem cometendo, o Parlamento, único poder que dispõe das ferramentas para mudar os rumos do país e conter esses crimes, demorou demais a assumir seu papel e puxar para si a responsabilidade de ocupar o vácuo da falta de governo. Dezenas de pedidos de impeachment repousam na gaveta de Arthur Lira. Só agora ele deu sinal de que pode colocar algum deles pra andar. Mas que fique claro: sua ameaça não deve ser levada a sério. Ela foi muito mais uma resposta ao eleitorado do que ao próprio governo. Aliado de Bolsonaro, a quem deve sua eleição, dificilmente trairia o chefe. Falou pra plateia. Tanto assim que, de manhã fez o discurso, e de tarde já estava no Palácio do Planalto, tomando a bênção ao chefe. Pouco depois Bolsonaro relativizou os termos do discurso. E tudo voltou às boas.

“Você não vai me f.. e eu depois perder a eleição” 

Até aqui, as reações de Bolsonaro aos sinais de insatisfação de sua base têm sido apenas simbólicos. Foi assim na destituição de Pazuello, que não valia uma nota de três reais na avaliação do Parlamento pela péssima condução da pasta da Saúde no combate à pandemia. Bolsonaro, crente na força de sua caneta, constrangeu a candidata ao cargo indicada pelos integrantes do Centrão, a médica cardiologista Ludhmila Hajjar, atirada ao fosso dos leões na reunião em que foi sabatinada inclusive pelos filhos do presidente. E teve de ouvir dele uma pergunta vergonhosa que revelou claramente sua preocupação exclusiva com a reeleição: “Você não vai fazer lockdown no Nordeste para me f... e eu depois perder a eleição, né?”. Preferiu nomear para o ministério um médico amigo de seus filhos, elevando a temperatura com o Centrão. No episódio em que parlamentares manifestaram abertamente sua insatisfação com as posturas adotadas pelo chanceler Ernesto Araújo, que ideologizou a pasta a ponto de comprometer o fornecimento das vacinas salvadoras, Bolsonaro preferiu jogar aos leões do Centrão a carne de segunda de um assessor do chanceler, flagrado fazendo um gesto obsceno, supremacista ou as duas coisas em plena sessão do Senado. Mandou Ernesto Araújo destituí-lo. Como se isso resolvesse a questão.

O Centrão vai espremer a laranja até o bagaço 

Bolsonaro anda dizendo agora que sempre defendeu a vacina, deu pra usar máscara em público e tenta dividir a conta da tragédia com os outros poderes, criando um comitê de combate à pandemia para o qual não teve coragem nem de convidar o Governador piauiense Wellington Dias, representante oficial dos governadores, porque Dias é petista. Dá pra acreditar que esse comitê é mesmo pra valer?

Pra finalizar, de volta ao começo. Que ninguém se iluda: o Centrão não desembarcará tão facilmente assim do governo a ponto de inviabilizá-lo. Bem a seu modo, vai espremer essa laranja até o bagaço, garantindo seus cargos, suas emendas, seus favores e seus pichulés, de olho numa certa eleição que ocorrerá em 2022, tudo na base do “Mateus, primeiro os teus”. E o povo? Ah, o povo, como diria aquela ministra do governo Collor, é apenas um detalhe.

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