Ouviram um novo brado retumbante

Não entenderam nada os governistas que ficaram torcendo para que a Marcha contra a Corrupção fosse um fracasso. Não entenderam nada os que acharam que a marcha era uma manifestação contra o governo, ou contra ou a favor de algum governo específico. Não entenderam nada os que quiseram comparar a marcha com aquele fracassado movimento “Cansei” tentado no governo Lula pela elite paulista. Não entenderam nada os que continuam achando que as ferramentas de organização social ainda precisam necessariamente passar por partidos organizados e militâncias uniformizadas e embandeiradas. Não entenderam nada os que ainda acham que é necessária uma “vanguarda” para liderar as “massas” desorganizadas. Não entenderam nada os que ainda usam termos como “vanguarda” e “massas” para tratar de pessoas.

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) faz uma comparação feliz quando se refere às redes sociais que se espalham pela internet. Para ele, elas são como a Ágora, a praça em que os gregos antigos se reuniam para exercer a sua democracia direta. Uma imensa Ágora, capaz de reunir ao mesmo tempo milhares de pessoas. E com uma imensa capacidade de multiplicação e reverberação. Porque agora as Ágoras de cada cidade se unem, conversam entre elas.

Erra também quem desdenha desses movimentos imaginando que serão fruto de mera manipulação. Nunca as pessoas tiveram tanta capacidade de escolha, de autonomia para decidir no que embarcam ou não embarcam. Se 25 mil pessoas foram às ruas ontem para pedir o fim da corrupção é porque essas pessoas realmente concluíram que a corrupção atrapalha as suas vidas. Porque estão cansadas de pagar impostos e ter muito pouco de volta. Porque estão cansadas de ver políticos – de todos os partidos, de todos os matizes - enriquecendo às suas custas.

Se alguém teme algum efeito desestabilizador de movimentos como o de ontem, deveria primeiro pensar no tipo de expectativa que ajudou a provocar. Senão, vejamos:

Se alguém não se lembra, esse spot era parte da vitoriosa campanha de Lula à Presidência da República em 2002. Naquela época, tratava-se de uma legítima manifestação contra a corrupção que havia no governo Fernando Henrique Cardoso. Não era uma atitude golpista: destinava-se a tentar produzir uma mudança política democrática, no campo eleitoral. Agora, nem isso acontece, porque os movimentos que chegam às ruas não partem de partidos que fazem oposição ao governo Dilma. O detonador foi a decisão da Câmara de absolver na semana passada a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), uma histórica adversária do PT em Brasília.

De sua parte, a atual oposição tem sido absolutamente incompetente, assiste a tudo atônita, incapaz de liderar o que quer que seja, de ser protagonista do que quer que seja, de faturar politicamente com o que quer que seja. A tradução do que se viu ontem em Brasilia não parece ser um desejo de mudar o atual governo, mas um desejo de que o atual governo – na verdade, não só este, mas este e os outros, e os próximos - mude.

Ao contrário, o que se percebeu na manifestação de muitas das pessoas que saíram às ruas ontem foi  um sentimento de apoio à presidenta Dilma. De apoio a algo que, infelizmente, suas últimas reações parecem rejeitar. Apoio à forma como Dilma resolveu reagir aos casos de corrupção que descobriu em seu governo. Um recado à presidenta: “Não esmoreça que estamos com você’.

Nós vínhamos dizendo aqui nesta coluna que Dilma, ao reagir de forma dura aos casos de corrupção em seu governo, comprava uma queda-de-braço com sua base de sustentação política que talvez não fosse capaz de ganhar. Havia nessas atitudes uma disposição de mudar a regra do jogo que ela mesma aceitou quando fez suas composições para vencer as eleições. Uma disposição à qual seus parceiros certamente reagiriam. Se tal disposição de Dilma arrefeceu, isso não surpreende este colunista. Mas que era essa disposição o que boa parte dos brasileiros esperava desde que elegeu Lula em 2002, muito por conta de mensagens como a da propaganda acima, não há a menor dúvida.

Quem classifica as atuais manifestações contra a corrupção como saudosismos udenistas precisa entender melhor os tempos atuais e os tempos da UDN. A UDN não era golpista porque tinha um discurso contra a corrupção. A UDN tinha um discurso contra a corrupção, e era golpista. Não é porque a UDN usava o discurso contra a corrupção com propósitos golpistas que todo mundo que combate a corrupção seja golpista também. O PT na oposição não era golpista. E quem saiu às ruas no 7 de setembro não é golpista também. Em suma, não é sequer oposicionista. Só quer dignidade e respeito.

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