Os militares, quem diria, viraram massa de manobra 

Agora, vem cá, me diz aqui: será que os militares ainda não se deram conta de que estão sendo vergonhosamente usados e abusados para a concretização de um projeto de “ditadura pelo voto” conduzido pelo capitão-presidente? Sim, porque Bolsonaro não apenas vem fazendo um aparelhamento da máquina do estado nos mais diversos níveis, como, para isso, tem cooptado vergonhosamente militares de todas as patentes, com a distribuição generosa e irresponsável de cargos, muitos deles com características que exigiriam um mínimo de expertise para sua condução, mas que têm sido repassados a integrantes das forças armadas completamente despreparados para tais funções. O que só depõe contra eles próprios. 

O primeiro e mais gritante exemplo é o Ministério da Saúde, cujo ministro-general não sabe a diferença entre um band-aid e um comprimido de aspirina. As consequências? Todo o Brasil está vivendo, diante da mistura que vem fazendo entre a gestão da saúde e a obediência cega aos negacionismos do chefe. A ponto de prescrever uma droga como a cloroquina que não serve pra droga nenhuma a não ser como remédio pra vermes. E ter atrasado a aquisição de vacinas salvadoras de vidas, como as chinesas, porque seriam... comunistas. Sob o bastão de comando do general Pazuelo – ou seria Bolsuelo? - a bagunça na vacinação converteu a pandemia em pandemônio.

Há previsões de que, ao fim e ao cabo, no ritmo atual, o Brasil baterá a marca tenebrosa de meio milhão de vidas perdidas para a covid-19. As mais de 240 mil mortes já registradas ultrapassam em muito as previsões. O ex-ministro Mandetta, por exemplo,  havia previsto um número de 180 mil mortos até o fim do ano caso não fossem adotadas medidas drásticas e organizadas de combate à pandemia. Errou feio. A incompetência de Pazuelo foi mais eficaz.  

Para garantir o apoio de caminhoneiros, que igualmente foram e continuam a ser usados como base de apoio, Bolsonaro retirou da presidência da Petrobras um economista experiente, ex-funcionário da Vale, onde atuou durante 15 anos, trabalhando como economista-chefe e diretor de relações com investidores. De lá, Roberto Castello Branco saiu para ser membro do Conselho Administrativo da Petrobras, onde conheceu as entranhas de uma das maiores petrolíferas do mundo. Mas Castello Branco cometeu o “delito” de não segurar os preços dos combustíveis. Como se pudesse fazê-lo. Além disso, trabalhava em casa, em home-office, por ser de grupo de risco. Mas isso o  presidente-capitão não admite. Foi pra rua.

Para o lugar dele, Bolsonaro não hesitou em ir buscar novamente nos quadros da caserna um general que até outro dia presidiu a Itaipu Binacional e não sabe distinguir uma gota de diesel de outra de gasolina. Mas, se é militar, então está no lugar certo, não é mesmo? Não, não é. O general Joaquim Silva e Luna, segundo matéria de Cátia Seabra, do “Jornal de Brasília”, chega ao comando da Petrobras tendo de explicar umas coisinhas. Na verdade, umas coisonas. Uma delas: em 2019, concedeu a todos os funcionários da Itaipu um bônus de quase três salários como compensação por possíveis perdas decorrentes de acordos coletivos de trabalho. Só isso já seria motivo para desconfianças sérias. O pior é que, com essa medida, o general também embolsou um pagamento extra de R$ 221,2 mil em indenização no fim do primeiro ano no cargo. Na época, o salário dele era de R$ 79 mil. É mole? Pois tem mais: a bolada foi paga sem incidência de importo de renda, por se tratar de indenização. O mercado respondeu imediatamente à nomeação de Luna. As ações da Petrobras desabaram em todas as bolsas do mundo. Em um dia, a companhia encolheu 28,5 bilhões de reais em valor de mercado. E o rombo continua crescendo. 

Um silêncio retumbante   

Curiosamente, os chefes militares vêm se mantendo num silêncio constrangedor e complacente diante de todos esses fatos. Talvez ainda não tenham se recuperado da pancada das revelações do General Villas Bôas, de que a ameaça endereçada ao STF em abril de 2018 para impedir a Corte de considerar ilegal a prisão de Lula foi tomada com o conhecimento de todo o Alto Comando do Exército.

Fato bombástico porque revela uma orquestração amedrontadora no seio das forças armadas para comprometer o estado de direito e os princípios democráticos. Sobre o assunto, o analista Jefferson Miola escreveu: “Na visão delirante e auto-elogiosa que fazem de si mesmos, eles (os militares) reivindicam que desta vez regressaram ao poder pela via eleitoral (sic), como se fosse constitucional a participação deles na política. Daqui em diante, sentindo-se legitimados, não hesitarão em evoluir para uma “ditadura democraticamente eleita”. 

Ao longo do mandato, Bolsonaro tem usado e, principalmente, abusado dos militares nomeados em seu governo. Um levantamento feito pela Folha de São Paulo identificou nada menos que 16 generais do Exército, 4 brigadeiros da Aeronáutica e 1 almirante da Marinha exonerados de cargos civis no governo a partir do quarto mês da gestão Bolsonaro. Os demitidos entraram no governo por apoiar o ideário bolsonarista – se é que se pode usar a palavra “ideário” num governo que não sabe o significado da palavra “ideia”. Mas, para o capitão, quem não reza pianinho pela cartilha dele deve procurar a porta da rua, a serventia da casa. 

Daniel Silveira: carga incômoda lançada ao mar 

Ao mesmo tempo, Bolsonaro acelera o aparelhamento do Legislativo, seja pelo apoio aberto às eleições dos presidentes da Câmara e do Senado, seja pelo fortalecimento do Centrão através de nomeações e prebendas.   

Um detalhe: quem acha que Bolsonaro foi derrotado com a votação acachapante de 364 a 130 votos pela manutenção da prisão do deputado bombadão, aquele que lá atrás quebrou a placa em homenagem a Marielle Franco, está muito enganado. Tal como faz com os militares, que nomeia e demite a torto e a direito, Bolsonaro não duvida em arriar qualquer carga incômoda. E Daniel Silveira tornou-se um incômodo pois poderia complicar as relações com o STF. A solução foi orientar que quebrassem a placa dele.

Os deputados bolsonaristas, mesmo de nariz torcido, obedeceram porque “ordis é ordis”. E o buraco que já era fundo vai ficando ainda mais profundo. Difícil sair dele, ainda mais quando a oposição age de forma egoísta e arrogante, na base do cada um por si e Deus contra, e não se esforça um pingo pela escolha de um nome de consenso e  competitivo para enfrentar a caneta Bic do capitão-presidente, cada dia mais cheia de tinta, de ódio e de sede de poder.

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