Os fundos de previdência complementar e sua governança

A atual instabilidade política interna na Câmara dos Deputados, o trancamento da pauta por medidas provisórias e as festas de São João e São Pedro, tradicionais no Nordeste, que historicamente esvaziam o quórum do Congresso, impediram a votação prevista do projeto de lei complementar sobre fundos de pensão, de autoria do senador Aécio Neves, que relato na Câmara. A previsão é que votaremos no dia 5 de julho.

Como afirmei no artigo anterior, os fundos públicos de Previdência têm um papel essencial. Primeiro, garantindo recursos para financiar uma vida digna para os aposentados e pensionistas que se dedicaram às nossas principais estatais. Por outro lado, como grandes poupadores – as 86 entidades públicas fechadas de previdência complementar administram um patrimônio de R$ 445 bilhões – podem funcionar como alavanca do desenvolvimento, não só contribuindo para a rolagem da dívida pública como financiando investimentos na indústria, no agronegócio e, principalmente, na infraestrutura. Para se ter uma ideia, o volume de ativos administrados por estes fundos equivale à soma de todas as dívidas de governos estaduais ou duas a três vezes o valor de empresas como Bradesco, Itaú ou Petrobras.

A CPI dos Fundos deu um retrato fiel das atuais dificuldades dessas entidades: deficits recorrentes e expressivos, sobrecarga sobre os trabalhadores, gestão temerária, governança precária e graves indícios de corrupção e má influência política.

O Senado Federal e a CPI apontaram o rumo necessário: a profissionalização da gestão e a melhoria da qualidade na governança. Minha tarefa como relator foi liderar um amplo diálogo procurando aparar arestas, dirimir dúvidas, contornar divergências e propiciar o consenso sem perder a essência. Proposta boa é a que tem chance de ser aprovada. De nada adiantam boas intenções engavetadas.

O substitutivo que construí é uma fusão da proposta aprovada no Senado Federal com a da CPI dos Fundos da Câmara. Mantive a paridade de representação nos conselhos deliberativo e fiscal. A profissionalização da gestão e a qualidade dos processos decisórios serão reforçadas pela seleção pública por empresa ou universidade especializadas dos diretores executivos, dos auditores internos e do membro independente do comitê de investimento. O contrato de gestão entre o conselho e a estrutura executiva, a instituição do “soprador de apito” no comitê de investimento para sanar qualquer dúvida quanto à qualidade de novos projetos, a melhoria dos ritos e processos de decisão aumentando a responsabilização coletiva e a transparência, a blindagem dos conselhos e da estrutura executiva em relação a laços familiares, negociais e partidários formam um conjunto de melhorias que certamente aprimorarão a gestão dos fundos e protegerão os interesses dos trabalhadores das estatais.

Vamos ver o que sai no final de nossa linha de produção legislativa no início de julho. O ponto de partida é muito bom.

 

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