Off (confissões de alcova)

 

“Confissões de alcova”, soprou-me aos ouvidos certa belle de jour da notícia. Eis a tradução vocabular para o que aconteceu comigo no Plenário do Senado, dia desses, depois de uma sessão de votações. Alcova não era bem o caso, mas o profano estava presente. A madrugada chegava. Até a polícia legislativa já havia deixado o local, para ser “rendida” pelas moscas e espíritos dos tribunos de outrora. Dava para ouvir os brados de Rui Barbosa e Afonso Arinos.

Um senador Xis, e adotemos logo o apelido, falava em off (ou seja, sem autorizar a autoria das “confissões”) sobre assuntos variados, de olho na minha caneta o tempo todo, mas com a conivência forjada dos quase amigos. E revelava que toda a cúpula televisiva do país estava, naquele exato momento, reunida na casa de um conhecido senador peemedebista, em convescote que reunia também deputados, ministros, empresários e outros ricaços. “Prostitutas também?”, aventou-se a dúvida. “Não duvido”, dirimiu-a o parlamentar. Em algumas ocasiões, a incerteza esclarece as coisas.

O fato é que, na semana em que vossa excelência Xis confidenciava o impublicável, prorrogações de concessão pública de televisão foram autorizadas pelo Congresso. Dava pra ver no semblante de um amigo repórter, que completava o trio sob a penumbra plenária, a angústia de integrar um veículo, digamos, oficialesco: não só estavam vetados os nomes aos bois – a essência da tal da informação em off – como automaticamente descartada a simples hipótese da publicação. Já eu, sentindo-me como naquelas conversas de criança sobre fantasmas, ainda sofro os efeitos da hipnose. Com a ordem “publique-se!” ainda a reverberar em algum rincão de minha cachola. E, óbvio, com um censor verde-oliva a gritar “parem as rotativas!”.

A conversa em off durou horas. Os termos das negociatas nem me interessaram tanto quanto os detalhes periféricos. E o curioso é que, por mais que se sucedessem os assuntos, as minúcias sempre protagonizavam os relatos do senador bom de prosa. Que sapecava mais uma: em uma roda de egrégios congressistas, depois de uma reunião partidária regada a uísque em Manaus, o grau etílico de um deles verteu-se em revolta contra o presidente da legenda: “Fulano é um grande m...”, arrotou o insurreto, sem notar que o alvo do impropério estava logo atrás dele. No Plenário do Senado, caberia artigo 14 do regimento interno, que garante resposta a quem é citado. Na selva política, o entrevero acaba em tapa mesmo.

E se...

Quis compartilhar com você esses dois episódios, atento leitor à espreita, porque o gravador da memória em on permanente pode causar danos à saúde se não for estimulado em bem intencionadas linhas. E aqui cabe o exercício de imaginação (saio dos relatos do senador mencionado para outro caso, este ocorrido há alguns anos no próprio Senado): o que teria acontecido se certa servidora de uma liderança no Senado mandasse o próprio recato às favas e chamasse o William Bonner, para então expor as vísceras em rede nacional? A começar pelo assédio sexual que sofrera do chefe, e que fora obrigada a sublimar em nome do anonimato absoluto. E se fosse revelado que, depois dos seguidos nãos que ela proferiu ao gatuno, o assédio se transmutara de sexual para moral? Se a vítima tivesse recorrido ao off, com direito a som e imagem alterados, e ao menos revelasse nomes, talvez tivesse mantido o emprego.

Do Senado para a Casa Branca. Sem o off e sua “garganta profunda”, o que seria do famigerado “escândalo de Watergate”, que nos idos da década de 1970 consagrou os repórteres do Washington Post Bob Woodward e Carl Bernstein (e levou à renúncia do então presidente Richard Nixon em agosto de 1974, simplesmente o homem que havia sido reeleito com vitória em 48 dos 50 estados dos EUA, nas eleições de 1972!)? Que feições teria hoje o Partido Democrata se não fossem os offs regados a Johnny Walker e charutos Havana a inebriar certas vielas plúmbeas do Distrito de Colúmbia, ali pelas cercanias da redação? Aliás, que rumos teria tomado o próprio jornal estadunidense sem a voz tonitruante do “impublicável”?

Em um belo dia acinzentado, o “deep throat” W. Mark Felt, então vice-presidente do FBI, cansou-se do tal do off. E, on the top aos noventa e poucos anos, revelou o ar da graça em maio de 2005, com sua garganta letal que havia derrubado o presidente três décadas antes. A fonte se autorrevelava, off virava on. A propósito do assunto, a pedida é o filme Todos os homens do presidente (Alan J. Pakula), com ninguém menos do que Robert Redford e Dustin Hoffman a encarnar os repórteres mencionados. Ou mesmo o livro homônimo, lançado naquele longínquo 1974 por Bob e Carl.

Chego a termo sobre a importância do off nesse caso com mais algumas sílabas interrogativas. Na condição de número 2 do FBI, será que Felt teria vivido mais 30 e poucos anos depois de regurgitar as vergonhas de bastidor de Mr. Nixon? O anonimato não só garantiu a integridade física do garganta profunda, morto em dezembro de 2008 de causas naturais, bem como assegurou que os “segredos de Estado” viessem devidamente à tona, sem distorções, e provocassem o estrago conhecido.

Pausa de precaução

Repito, pausa de precaução. E de reforço: antes de prosseguir, caro leitor, deixo claro que o off, e não só para nós jornalistas, é tão ou mais essencial do que as fontes oficiais. Por diversos motivos, e um livro seria mais adequado para discorrer sobre cada um deles. Mas basta dizer que, enquanto as versões oficialescas informam, os offs revelam – e, por vezes, o que nem o mais imaginativo dos mortais poderia supor, absorto que está neste vão térreo-celeste em que repousa nossa vã filosofia. Concedido ao interlocutor o privilégio do sagrado testemunho, o off blinda o fato nas sombras até que ele irrompa em luz. E por que seria também importante aos nãos jornalistas? Porque, eventualmente detectada a fonte da notícia, até a morte poderia substituir o que seria um grande furo de reportagem – e aí, adeus informação de interesse público.

Aliás, como me beneficiei eu mesmo, um diletante profissional, de offs que fariam eriçar o mais empedernido fiapo de bigode de Mr. Moustache...

Concluo, em off mental

Como se não bastasse o estrangeirismo imposto, o termo mais parece uma onomatopeia. Repare, perceptivo leitor: a palavrinha que quase nada conota é como um espasmo de enfado, um suspiro de resignação em que, mantido o autor no terreno da pseudo-infertilidade, cala mais do que fala. Diante da falta de voz, advirto para que ninguém se engane: trata-se de uma palavra mágica.

Com som de tosse e querendo espaço na língua-mater, a palavrinha nos persegue on-line, on demand, em full-time, em off-road. E nocauteia-nos em full-contact. E, como se pode ver nas duas frases anteriores, traz consigo amiguinhas inglesas serelepes. O off, também conhecido como “desligado”, denota a condição do gravador do repórter que, arma por vezes letal, nunca – jamais! – pode retornar à áulica situação de “on”. Com aspas, para conferir ao termo oposto o ornamento barroco da oficialidade. O off é o terreno do desbunde, dos desvarios permitidos à sombra: se não há como gravar, porque haveria de calar?

Pois bem. Passados os dois parágrafos-devaneio depois do primeiro intertítulo acima, esclareço que fiz questão de inaugurar com tal tema este espaço-vértebra (perdi o tutano da coluna no carnaval do Rio de Janeiro) porque precisava protestar e louvar à mesma coisa, no mesmo texto. Se, por um lado, não podemos dizer quem disse, por outro somos autorizados a revelar algo que, com a fonte imersa no necessário anonimato, ganhará o charme underground e apócrifo das delícias “proibidas”.

A informação em off é vedete do imaginário: o que foi dito por quem, em que circunstância e com qual objetivo é pesadelo de consumo das mentes acostumadas ao noticiário segundo-clichê. E sonho de fruição para outras afeitas ao desafio. Que o digam Bob e Carl.

 

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