Ocupa, desocupa

Na metade da década de 60,  surgiu na América Latina e na Espanha um movimento musical conhecido como Nueva Canción. A diferença dele para os movimentos anteriores residia no fato de que a Nueva Canción tinha um forte compromisso social e popular. Era a canção da rebeldia, da contestação e da luta por uma nova sociedade.

Entre os muitos artistas, encontrava-se o uruguaio Daniel Viglietti.  De profícua carreira (continua, ainda hoje, se apresentando publicamente), Viglietti lançou em 1971 um disco intitulado Viglietti, canciones chuecas. Na contra-capa deste LP há um curto texto de apresentação, do qual retiro a frase abaixo. Para não correr o risco de uma tradução inadequada, reproduzo-o em castelhano.

La manera solitaria, instintiva, de quien ataca a una sociedad que le atacó primero, que lo margina y lo condenó. La otra manera, organizada, de quienes luchando contra la vieja sociedad, van creando la nueva

Esta frase, apesar de conhecê -la recentemente, é a reprodução da vida animal e, consequentemente, do ser humano desde o início do mundo. Se atacado, há que se defender  individual ou coletivamente. E, enquanto se defende, vai construindo uma nova sociedade.

Recorro ao material para dizer que os movimentos sociais de luta contra governos existem justamente para se defender da marginalização e da condenação à eterna submissão, exploração e miséria que o Estado quer impor. Portanto, o movimento dos estudantes de ocupação das escolas é uma forma de defenderem seus direitos do ataque promovido por um governo usurpador.

Os meninos e as meninas estão fazendo o que deveriam ter feito  há muitos anos: ocupar o que é deles. Ocupar no sentido físico, moral e intelectual,  e exigir  uma educação de qualidade. Ao mesmo tempo em que fazem isso,  deveriam  exigir que os usurpadores desocupem o lugar  onde estão, pois são invasores, não foram democraticamente eleitos para ali estar.

Há alunos que têm se colocado contra a ocupação dizendo que querem aulas. Querem aulas para quê? Para aprender? Digo a esses que o aprendizado não esta só dentro da sala de aula, esta na rotina da vida. Muitos dos que ocuparam as escolas nestes poucos dias aprenderam mais de política e cidadania do que aprenderiam em muitos anos de sala de aula. Os que não ocuparam erraram ao não ir para a escola. Deveriam ir todos os dias e debater com os que lá estavam e com seus apoiadores para juntos construírem verdades e cidadania.

Alguns pais e estudantes preferiram ficar do lado de fora da escola, mas dentro da política, junto com o movimento brasil livre (mbl) - com letra minúscula mesmo, como é a mente daqueles que preferem servir a serem sujeitos do próprio destino. O mbl – no Paraná, uma milícia do governador Beto Richa (PSDB) – é composto de servis e serviçais dos poderosos ou mesmo dos próprios mandatários que querem continuar explorando e oprimindo os que buscam a liberdade de pensar e decidir o que desejam para a própria vida e para as gerações futuras.

Muitos se colocaram a discutir a legalidade das ocupações sem debater a agressão que os estudantes e a sociedade estão  sofrendo e sofrerão  com a Medida Provisória de reforma do ensino médio, retrocesso enorme na qualidade do ensino e, consequentemente, na qualidade de vida das futuras gerações. Estas ocupações são uma resposta coletiva à agressão impingida à sociedade brasileira pela MP do governo que usurpou a democracia brasileira.

Quem sabe estas ocupações despertam os pais que dormem nos braços da mídia, principalmente da Rede Globo, para que passem a  acompanhar  melhor a política brasileira, ou, no mínimo, a política educacional.

Na “Canciones chuecas”, Viglietti canta na música Gurisito:  Niño, mi niño,/tu niño y aquel niño,/todos van./Rueda, que te rueda,/hacia la vida nueva/llegarán.

Há também uma música (Cielito de los muchachos) de Viglietti  e Mario Benedetti: E stán cambiando los tiempos/para bien o para mal,/para mal o para bien,/nada va a quedar igual.

Niños e niñas, muchachos e muchachas, meninos e meninas, construam o tempo novo, a vida nova, conforme falam as canções, mas que seja para o bem de todos e todas.

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