Occupy: o espírito da época

Acaba de ser lançada pela Boitempo, em parceria com o portal Carta Maior, a coletânea de ensaios Occupy – movimentos de protesto que tomaram as ruas do mundo, reunindo autores como David Harvey, Emir Sader, Immanuel Wallerstein, Mike Davis, Slavoj Zizek, Tariq Ali, Vladimir Safatle, Edson Teles, Giovanni Alves, Henrique Soares Carneiro e João Alexandre Peschanski. Obra imprescindível que, segundo os editores, tem o objetivo de ampliar o debate em torno dos movimentos populares que tomaram as ruas ao longo de 2011 em diversos países.

Uma onda de mobilizações (que tomou a dimensão de um movimento global) começou no Norte da África, derrubando ditaduras na Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen; estendeu-se à UE (a propósito, Tariq Ali, neste ensaio, diz que deveria ser UB – União dos Banqueiros) com movimentos e greves na Espanha, Grécia, Londres; na AL; eclodiu no Chile e ocupou Wall Street, alcançando no final do ano até mesmo a Rússia.

A rebelião popular voltou à ordem do dia e o pano de fundo é uma crise social, econômica e financeira que se arrasta desde 2008, em consequência da crise de alimentos, do desemprego crônico e, sobretudo, da ausência de alternativas políticas, uma vez que os movimentos se manifestam contra as estruturas políticas partidárias e sindicais vigentes.

De forma que esta coletânea se reveste de tal importância, que vale à pena comentar e glosar o pensamento crítico de seus autores ao longo de colunas futuras.

Novamente me reportando a Tariq Ali, este comenta: “Um mapa do mundo que não inclua Utopia não merece ser olhado’, escreveu Oscar Wilde, ‘já que deixa de fora o único país no qual a humanidade está sempre desembarcando. E quando a humanidade chega ali, olha para o horizonte e, ao ver um país melhor, zarpa em sua busca. O progresso é a realização de Utopias”.

Ou seja, o espírito do século XIX socialista está vivo entre a atual juventude idealista que protesta contra o capitalismo global que dominou o mundo desde o colapso da extinta União Soviética. Sem contar que a extrema direita é pequena, a extrema esquerda praticamente não existe, e o “extremo centro” domina a vida social e política.

Mas nesta coluna quero focar privilegiadamente o pensamento de David Harvey, professor da Universidade de Nova York que, por uma incrível coincidência, comentei na coluna passada "O capitalismo estereotipado: em direção ao crash", até porque, entre os dez ensaios do livro, foi o que considerei o mais contundente. Sem subterfúgios nem meias palavras, ele abrange implacavelmente o tema desde o centro do dinheiro e do poder que governa o planeta: Wall Street.

Em seu artigo “Os rebeldes na rua: o Partido de Wall Street encontra sua nêmesis”, Harvey começa pegando pesado (1): O Partido de Wall Street controlou os Estados Unidos sem dificuldades por tempo demais. Dominou completamente as políticas dos presidentes por quatro décadas ou mais. Corrompeu legalmente o Congresso por meio da dependência covarde dos políticos de ambos os partidos em relação ao poder do seu dinheiro e da mídia controlada por ele. Graças às nomeações aprovadas pelos presidentes e Congresso, o Partido de Wall Street domina o aparato estatal, o Judiciário, em particular a Suprema Corte, cujas decisões estão a serviço dos interesses venais do dinheiro, em esferas como a eleitoral, trabalhista, ambiental e comercial.

O PWS tem um princípio universal de dominação: não pode haver nenhum adversário sério ao poder absoluto do dinheiro de dominar absolutamente. Seus detentores não devem apenas acumular riqueza sem fim e à vontade, mas também o direito de herdar o planeta, com domínio direto e indireto da terra, de todos os seus recursos e potencialidades produtivas, bem como de assumir o controle absoluto, direta ou indiretamente, sobre o trabalho, idem suas potencialidades criativas.

O resto da humanidade se tornará supérfluo.

Estes princípios e práticas não surgem da ganância individual, falta de horizonte ou abusos (que, aliás, também abundam). Eles foram moldados no corpo político de nosso mundo pela vontade coletiva de uma classe capitalista, instigada pelas leis coercivas da competição. E tais leis forçam todos nós, em diferentes níveis, a obedecer às regras desse sistema cruel e insensível.

Logo, o problema é sistêmico, não individual.

O PWS articula incessantemente a guerra de classes: “Claro que há uma guerra de classes” – disse Warren Buffett, “e é minha classe, a dos ricos, que a está fazendo, e nós estamos vencendo!”

Mas agora, pela primeira vez, há um movimento explícito que enfrenta o PWS e seu mais puro poder do dinheiro. A “street” de Wall Street está sendo ocupada – ó, horror dos horrores – pelo povo. Espalhando-se de cidade em cidade, as táticas do Occupy são tomar um espaço público central, parque ou praça, próximo aos bastiões do poder e, ao colocar ali corpos humanos, convertê-lo num espaço político de iguais. Essa tática mostra como o poder coletivo de corpos no espaço público continua sendo o instrumento mais efetivo de oposição quando o acesso a todos os outros meios está bloqueado. A praça Tahrir mostrou ao mundo uma verdade óbvia: são os corpos nas ruas e praças, não apenas os murmúrios no Twitter ou Facebook (ou com a colaboração das redes sociais descentradas espalhadas pela Internet, grifo meu), que realmente importam.

E por hoje, acabou o espaço, próxima coluna tem mais Occupy!

(1) Adiante, um resumo das melhores partes do artigo, razão pela qual não as colocarei entre aspas posto a citação não ser literal.

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