O tango da morte

A direita israelense e o Hamas dançam o tango da morte. É uma parceria cada vez mais bem sucedida para garantir de que não haverá uma solução de dois estados e, portanto, não haverá paz. Netanyahu optou por uma aliança de governo com a extrema-direita e os representantes dos colonos. Não deu a menor chance às negociações de paz com a Autoridade Palestina, promoveu a expansão dos assentamentos na Cisjordânia, colocou como condição fundamental o reconhecimento de Israel como estado “judeu” e manteve sua negativa em relação a qualquer compromisso territorial minimamente sério envolvendo trocas de territórios equilibradas e Jerusalém. Fez o possível para inviabilizar o governo “tecnocrático” de unidade entre o Fatah e o Hamas que apresentava certo potencial de contribuir favoravelmente ao processo de paz.

Militantes membros do Hamas – mas não se sabe até que ponto seguindo ordens expressas de sua direção – sequestraram e imediatamente assassinaram três adolescentes israelenses. Na busca pelos desaparecidos, Israel submeteu a população palestina a medidas de castigo coletivo particularmente fortes.  Fanáticos israelenses queimaram vivo um adolescente palestino.  Foguetes começaram a ser disparados da Faixa de Gaza controlada pelo Hamas. Israel respondeu fortes bombardeios aéreos e navais e no mais recente body count ganha, por enquanto, de mais de cem a um. Hamas diz que não para com os foguetes enquanto Israel não fizer certas concessões e Israel não para de bombardear Gaza enquanto o Hamas não parar com seus foguetes, até agora quase inócuos, de fato, embora perturbadores da vida normal no país.

A maioria das vítimas dos bombardeios sobre Gaza são mulheres e crianças. Embora Israel não as vise explicitamente e até avise por SMS – nem sempre –  que “vem bomba” é evidente que se dispõe a pagar o preço de matar famílias inteiras – e os vizinhos de lambuja  –  para castigar ativistas do Hamas embora tenha decidido não “decapitar” seus altos dirigentes pois em condições normais o Hamas controla grupos ainda mais radicais ligados à Al Qaeda.

Como Israel, o Hamas é totalmente indiferente à sorte da população civil em Gaza. Não é exatamente que os utilize como “escudos humanos” como afirma a propaganda israelense, mas de fato não prioriza sua proteção frente à necessidade de disparar seus foguetes de áreas densamente povoadas, por mais inócuos militarmente que sejam diante dos sofisticado sistema de interceptação Iron Dome.  Gaza é o tecido urbano mais denso do planeta. O simples fato de dispararem foguetes de dentro das áreas urbanizadas já coloca a população civil totalmente à mercê das represálias.

A luta armada e o terrorismo sempre foram armas absolutamente contraproducentes face a Israel. As únicas formas de luta que historicamente funcionaram na Palestina  –  diferentemente do Líbano  –   foram as da primeira intifada. Uma resistência sem armas de fogo ou bombas. A segunda intifada foi um desastre para os palestinos (e para o campo da paz israelense) e os conflitos bélicos sucessivos envolvendo Gaza o são também.

Por outro lado, um governo minimamente desejoso da paz, em Israel, tentaria uma política totalmente diferente para viabilizar a solução de dois estados. Hoje está mais do que claro quais as grandes linhas: trocas de terra 1 por 1 para acomodar a maior parte dos assentamentos, notadamente aqueles mais próximos a chamada Linha Verde, devolução da parte palestina de Jerusalém, indenização dos refugiados palestinos com possibilidade de volta a Israel de um contingente simbólico, medidas diversas para garantir a segurança de Israel: desmilitarização do estado palestino, estacionamento de tropas da OTAN no vale do Jordão, postos de observação,  etc... O essencial para os palestinos é um território contíguo que inclua a parte árabe de Jerusalém e uma solução para os refugiados. Faz um bom tempo a OLP admite que o regresso se daria em território do estado palestino com compensações materiais e que o regresso a Israel seria apenas de um pequeno contingentes simbólico, conforme foi acertado no Protocolo de Genebra “negociado”  pelos meus amigos Yossi Beilin e Yasser Abed Rabbo.

Essa solução implicaria na evacuação de uma parte dos assentamentos para garantir essa continuidade territorial do estado palestino. Uma grande parte dos colonos reside na Cisjordânia por conveniência econômica pois Israel concede diversos estímulos e benefícios econômicos para morar nos assentamentos. Um processo de evacuação bem pactuado com altas indenizações resolveria o problema. Tudo isso já foi estudo e calculado.  Restariam os assentados religiosos, os fanáticos do Grande Israel. Mesmo para um governo com vontade política para fazê-lo seria um processo difícil. E esse não é um problema para Netanyahu que não acredita na paz, não tem a mínima intenção de negociar uma solução realista de dois estados. Só admitiria um sistema de Bantustões palestinos similar ao status quo atual.  Ele não está disposto a romper com seus aliados de extrema-direita e formar uma maioria alternativa mais ao centro com os trabalhistas. Poderia mas não quer.  Ele e seus próximos sabem que o status quo representa, na prática, um estado binacional em regime de apartheid onde os colonos e as tropas que os protegem dominam e os palestinos sobrevivem como cidadãos de segunda classe, sem direitos políticos nem civis, com acesso limitado aos recursos, terras e recursos hídricos expropriados de forma galopante.  Nenhum futuro que não a promessa opressão continuada, interminável...

Netanyahu prefere empurrar o problema com a barriga estabelecendo um Grande Israel de apartheid “de fato”, não assumido. Seus aliados da extrema sonham em provocar um conflito sangrento que propicie uma “solução final” do problema palestino: a “transferência”. Uma nova expulsão em massa, como a de 1948, só que dessa vez na Cisjordânia.  Seria de fato a única “solução” capaz de garantir um país demograficamente de maioria judaica entre o Mediterrâneo e o rio Jordão. Nesse contexto o conflito prosseguirá em maior ou menor intensidade. A grande ilusão da direita sionista é imaginar que o tempo joga a seu favor. Com uma radicalização cada vez maior das novas gerações palestinas com o avanço do djihadismo  tanto no mundo sunita quanto xiita e dúvidas crescentes sobre a capacidade a médio prazo do regime militar egípcio e da monarquia jordaniana de sobreviveram à tormenta histórica que se avoluma, a situação de Israel a médio e longo prazo não é aquela que a direita sionista imagina.

Infelizmente a maioria do eleitorado de Israel continua a respaldar as forças de direita que tendem a isolar cada vez mais o país no contexto internacional fazendo-o internamente cada vez mais intolerante e autoritário. Do lado palestino o Hamas faz exatamente a política simetricamente talhada para manter e aprofundar essa tendência. Há entre a direita israelense e o Hamas uma aliança de fato de mútua emulação.  Os parceiros do tango da morte dançam agarradinhos num inquebrantável abraço de tamanduá.

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